Faz bem fazer o Bem

Leia com cuidado as conclusões publicadas, nos idos de 2005, no International Journal of Behavioral Medicine, que apresenta um resumo sobre as pesquisas sobre o altruísmo e suas relações com a saúde física e mental. O artigo demonstra que há fortes correlações entre ter compaixão e agir em função dela, de um lado, e o bem-estar, a felicidade, a saúde e a longevidade, do outro. É isso mesmo: fazer o Bem prolonga a vida de quem o faz!

Há um limite: se, quem faz o Bem ficar assoberbado com o Bem que faz, fazer o Bem não lhe faz bem. Faça o Bem, dentro de seus limites.

 

GLÁUCIO SOARES, IESP-UERJ

Saiba mais:

Post Stephen.G., Altruism, happiness, and health: it’s good to be good, em Int J Behav Med. 2005;12(2):66-77.

Solidão e Morte de Idosos

 

Para o leigo, associar a solidão e a redução da vida pode parecer um exagero. Não obstante, estatisticamente, a solidão reduz a vida e há muitas pesquisas que o comprovam, mas também há várias que não confirmam esse resultado. Uma série de contribuições vieram de Cingapura, onde Ng e sua equipe usaram os dados da Singapore Longitudinal Ageing Studies para avaliar qual o impacto da forma e da intensidade da solidão “objetiva” sobre a mortalidade. Como há muitas variáveis associadas tanto com a solidão quanto com a mortalidade, como idade, saúde etc., os autores controlaram vários fatores. Acompanharam 2.553 participantes durante pouco mais de oito anos (1/9/2003 a 31/12/2011). Usaram, apenas, os dados da população residente, de etnia chinesa, com 55 anos ou mais. Usaram hazard ratios (HR – não confundir com risco relativo) da mortalidade associada com viver só. Dos 2.553 participantes, 189 (7,4%) viviam sós quando a pesquisa foi iniciada; desse mesmo total de participantes, 227, ou perto de 9%, morreram no decorrer da pesquisa. Viver só aumentava significativamente o risco de morrer (1,66 – 95 % CI, 1,05-2,63), controlando muitas variáveis associadas com a saúde – hipertensão, diabetes, doenças pulmonares crônicas, derrames e AVC’s, doenças cardíacas, funcionamento dos rins, deficiências IADL-ADL, sintomas de depressão, estado civil e outras variáveis como idade, sexo, qualidade da habitação. Além do impacto através de algumas dessas variáveis, viver só aumentava significativamente a probabilidade de morrer. Como havia evidência de interações, as razões foram recalculadas por sexo – maiores entre os homens (HR = 2,36, 95 % CI, 1,24-4,49) do que entre as mulheres (HR = 1,14, 95 % CI, 0,58-2,22) – e por estado civil. Viver só tem um impacto negativo maior entre pessoas solteiras, divorciadas e viúvas do que entre as pessoas casadas.

Quais são as condições habitacionais, relacionais e familiares dos idosos e idosas? As famílias extensas, por definição, os incluem; embora ainda haja famílias patriarcais, seu número diminuiu rapidamente. Transição dolorosa: os que antes ocupavam a posição mais importante na família, merecendo a expressão Bonus pater familiae, hoje enfrentam sérias dificuldades de inserção na sociedade e na própria família. Um arranjo comum é a ocupação de um cômodo secundário na casa de um filho ou filha. Outra é a manutenção de alguma forma de assistência econômica e pessoal, sobretudo emergencial, mas em residências diferentes, um arranjo com um quantitativo de solidão maior, que é capturado pela pergunta sobre se vive só. Muitos idosos e idosas externalizam uma preferência por viver sós, seja por orgulho, fuga de possíveis humilhações, por não querer ser “um estorvo”, ou por outras motivações, verdadeiras ou fabricadas. Nesse contexto, cresce a importância da qualidade das relações com noras e genros. Em famílias com capacidade aquisitiva média ou alta, a internação, aberta ou fechada, em residenciais confortáveis é uma opção frequente nos países industriais. Noto que há uma proporção maior de mulheres idosas que vivem juntas do que de homens idosos que fazem o mesmo. Entre pobres, particularmente em países em que o estado “esquece” essa população, o resultado pode ser um depósito de velhos e velhas ou, pior, a rua. Um país como o Brasil de hoje, de renda média-baixa, que enfrenta sérios problemas econômicos e políticos, e descalabros administrativos, cuja proporção de idosos aumenta significativamente, o resultado, com triste frequência, é o abandono.

E seus corolários: solidão, tristeza, doença e morte.

Gláucio Soares

A FADIGA, A QUALIDADE DA VIDA E A SOBREVIVÊNCIA

Um dos inimigos formidáveis que nós, pacientes de câncer, devemos enfrentar é a fadiga, o cansaço extremo. Pacientes de diferentes canceres identificam a fadiga como um dos piores efeitos colaterais da quimioterapia. Não obstante, a terapia hormonal também provoca fadiga. E muita.

Não obstante, analisando relatórios de vários tipos, desde pesquisas sistemáticas até informações nada sistemáticas dadas por outros pacientes, fica claro que a intensidade e tipo da fadiga, do cansaço extremo, varia de paciente para paciente. Há vários anos, pensávamos no câncer como algo tão poderoso que eliminava as diferenças entre os pacientes. Hoje sabemos que não é assim: o paciente individual, suas características, e o que ele faz ou deixa de fazer contam – e muito – para a sua qualidade de vida e a sua sobrevivência.

Quero ressaltar, nesta conversa, que a fadiga é muito, muito importante e temos que aprender a lidar com ela. Estou longe de fazê-lo, embora saiba como.

A fadiga afeta a qualidade da vida. Mudanças na qualidade da vida não são, apenas, consequências do câncer, mas influenciam o câncer também. Os pacientes que relatam que sua qualidade da vida é satisfatória vivem mais do que os que relatam que ela não é satisfatória.

Uma pesquisa com 148 pacientes usou vários indicadores, medidas e escalas, inclusive a Cancer Fatigue Scale, além de entrevistas qualitativas estruturadas, chegando à conclusão de que essa fadiga afeta, e muito, a qualidade da vida (que, por sua vez, afeta, e muito, a sobrevivência). Os pacientes que enfrentavam um nível mais elevado de fadiga, aumentavam a dependência em relação aos outros, perdiam poder de decidir (inclusive sobre coisas da sua própria vida) e enfrentavam problemas e interrupções negativas no que era normal na sua vida. Essas são áreas que conheço bem, vividas e sofridas.

Você pode ajudar pessoas que sofrem com a fadiga derivada do câncer e do seu tratamento. Se essas pessoas, de acordo com o médico, tiverem condições de ter uma vida mais ativa, ajude-as a sair da inatividade, da solidão e da prisão doméstica. Se tiverem condições de andar, caminhar, fazer exercícios, ajude-as a incorporar essas atividades ao cotidiano delas. Você estará ajudando a que vivam mais e melhor.

Leia mais: Cancer Related Fatigue and Quality of Life in Patients with Advanced Prostate Cancer Undergoing Chemotherapy, em BioMed research international. 2016 Fev 14.

 

Gláucio Soares IESP-UERJ

Quando usar a químio?

Volta à baila o momento adequado para a quimioterapia. R E Miller e C J Sweeney reanalisaram os dados (Fase III) de três testes clínicos nessa área, chamados GETUG15, CHAARTED and STAMPEDE. Testaram o uso de docetaxel em combinação com a terapia hormonal (ADT) e constataram que há ganhos na duração em que o câncer não progride (progression-free survival). Porém, no que tange a sobrevivência, duas das três bases de dados, (CHAARTED e STAMPEDE), mostraram ganhos clinicamente significativos, mas a pesquisa GETUG15 não mostrou ganho significativo. Muitas vezes, as diferenças entre os resultados de pesquisas se devem a diferenças metodológicas, inclusive entre as amostras.

Ficamos na expectativa….

O estudo foi publicado online em Prostate cancer and prostatic diseases. 15 de Março de 2016.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Mais 8,5 meses de vida?

Há novidade, sim! Vários tipos de câncer testemunharam o avanço recente de imunoterapias. A única que atingiu o mercado do câncer da próstata foi a Provenge, que produziu alguns resultados positivos, mas perdeu a competição para outros medicamentos menos caros e de mais fácil aplicação. Agora surgiram resultados promissores com uma “vacina”, chamada de PROSTVAC®. Há duas décadas estão trabalhando nela. Está sendo orientada para pacientes com cânceres avançados, com metástases e que já não respondem ao tratamento hormonal. Ela usa um vírus (poxvirus) e faz a mira usando o PSA. Produziu uma resposta das células T. O PROSTVAC® ajuda o sistema imune a identificar e matar as células cancerosas.

Numa pesquisa Fase 2 esse tratamento aumentou a mediana da sobrevivência em oito meses e meio, reduzindo a taxa de mortalidade em 44%. Numa população com idade relativamente avançada e um câncer avançado, esse é um ganho significativo. Sem o tratamento, a sobrevivência mediana foi de 16,6 meses; com o tratamento foi de 25,1 meses, pouco mais de dois anos. Quando o Provenge foi aprovado, a elevação na sobrevivência mediana foi, aproximadamente, a metade (4,1 meses). O ganho com abiraterona (Zytiga) foi de 4,6 meses e o ganho com a enzalutamida (Xtandi) foi de 2,2 meses apenas, segundo o autor citado.

Sublinho que todos esses resultados se referem à totalidade da população testada, mas que há uma percentagem significativa dos pacientes que não responderam ao tratamento com cada um desses medicamentos. No caso da abiraterona e da enzalutamida há testes em desenvolvimento que permitirão saber quem responderá. Tomando, apenas, os que responderam, a sobrevivência média é bem maior.

 

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

A resposta do PSA à abiraterona é muito importante

Uma informação que pode ser útil para pacientes que não respondem ao tratamento anti-hormonal e que apresentam metástases.

As mudanças no PSA no inicio do tratamento com abiraterona indica quão exitoso o tratamento será. É uma indicação meramente probabilística. Nada nessa área é inevitável.

O que foi apresentado num pôster na ASCO 2016 se refere a um estudo com 87 pacientes com as características acima.

A primeira pergunta que fizeram foi: como reagiram ao tratamento aos 15 dias, aos 90 dias e mês a mês?

Trabalharam com um modelo complexo, multivariado que controlou variáveis clínicas e da patologia.

O PSA baixou em 79% dos pacientes. Houve resposta rápida em 56%, sendo que em 23% o declínio em 15 dias foi >50%, mais da metade do valor anterior. Os que responderam logo apresentaram uma vantagem clara na sobrevivência específica (não morreram do câncer) – depois de um ano, o risco relativo foi de 0,28 – e de sobrevivência geral foi de 0,22.

Nesse grupo que respondeu bem e rapidamente outras variáveis pesaram: se usaram abiraterona por mais tempo (mais de sete meses); se tinham feito terapia hormonal (mais de 2,5 meses) e resultados contraditórios com a químio (melhor se receberam mais de duas rodadas, pior se receberam mais de 675 mg/m2 de docetaxel.

Sabemos um pouco mais, mas falta muito, muito.

GLÁUCIO SOARES ISP/UERJ

PARA ONDE VAI O TRATAMENTO DO CÂNCER DA PRÓSTATA?

PARA ONDE VAI O TRATAMENTO DO CÂNCER DA PRÓSTATA?[i]

O que nós, pacientes do câncer da próstata, podemos aspirar? Realisticamente, até onde podemos ir?

Hoje, eu arriscaria o palpite que a maioria dos esforços e das aspirações se dirige para a transformação deste câncer de uma doença letal em uma doença crônica. Creio que, lá no fundo, todos, pacientes e médicos, desejamos a cura – por nós e para nós, por todos e para todos. Porém, realisticamente, os resultados e progressos que temos visto até agora apoiam a ampliação da sobrevivência, ainda que algumas pesquisas usando novas ideias acenem com uma possível cura. Se o percurso seguido por essas pesquisas seguir o “tempo” das anteriores, serão muitos anos, possivelmente mais de uma década, até que estejam nas farmácias.

Um conceito que vem crescendo é o da medicina personalizada. Tratamentos novos, como a abiraterona e a enzalutamida, aumentam a esperança de vida em muitos meses, ou até alguns anos, em muitos pacientes, mas não funcionam em outros, cuja sobrevivência não aumenta e ainda por cima devem enfrentar os efeitos colaterais desses medicamentos. São os mesmos medicamentos, mas os resultados são diferentes. Impõe-se a conclusão de que os pacientes são diferentes. É uma constatação que reforça o conceito de medicina personalizada.

Algumas terapias, inclusive as mais comuns, como a hormonal, produzem resultados muito diferentes. Li, recentemente, a declaração jocosa de um médico-pesquisador que bastava que todos se comportassem como um dos seus pacientes que há 19 anos responde bem à terapia hormonal. Em contraste, alguns não respondem e não aumentam a sobrevivência.

Comparando os que respondem e os que não respondem aumentamos o conhecimento. Por exemplo: os que expressam uma versão danificada do receptor andrógeno AR-V7 não respondem aos tratamentos de eficiência comprovada, Zytiga (acetato de abiraterona) e Xtandi (enzalutamida). Como os pacientes de câncer da próstata são centenas de milhões no mundo, os que não respondem são um mercado importante e já há empresas investindo em pesquisas sobre tratamentos diferentes (usando, por exemplo, a galeterona) para essas populações.

Minha opinião leiga, de paciente: os eixos principais da pesquisa médica e biológica estão mudando, do medicamento para o paciente e da busca de uma cura do câncer (sempre desejada) para a sua transformação em uma doença crônica.

Aconselho a leitura do trabalho de Maha Hussain, Professor of Medical Oncology na Universidade de Michigan, “In 2016, What is Progress in the Treatment of Hormone-Naïve Prostate Cancer?”, publicado em 17 de janeiro de 2016.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Envie para um paciente, sua família e seus amigos, se você achar que essas informações podem ajudar.