DUAS VACINAS PARA AJUDAR A TERAPIA HORMONAL

Uma esperança para os que fazem terapia hormonal. A Madison Vaccines Incorporated (MVI) acaba de anunciar um “clinical trial” de seu tratamento MVI-118 que foca no receptor de andrógeno humano. É um alvo importante porque, dependendo do seu funcionamento, o câncer progride ou não. O câncer “hormone refractory”, que já não responde ao tratamento hormonal, acarreta uma taxa de morte e de sofrimento muito maior. É um salto para o pior.

É bom saber que o câncer da próstata raramente mata a pessoa pelo que ele faz na próstata; é a metástase que mata. É quando ele sai da capsula prostática e se instala em outros lugares que ele mata. Os ossos são o destino mais comum, mas há muitos casos de metástases para órgãos, para “soft tissues”.

O tratamento hormonal, frequentemente feito após a cirurgia e/ou a radioterapia (incluídas aí todas as suas formas e intensidades), tem duração limitada. No Brasil, o mais usado é o Zoladex; nos hospitais americanos de ponta, é o Lupron. Não obstante, mais cedo ou mais tarde, o câncer se torna refratário e volta a crescer. Mais tarde pode ser muitos anos. Vi recentemente mesa redonda entre oncólogos e urólogos de renome e um deles revelou que um de seus pacientes respondia bem há dezenove anos. É um caso extremo. A mediana é muito menor.

E o MVI-118?

O Pesquisador Responsável, Douglas McNeel, responde:

“MVI is developing our two DNA vaccines for men throughout the spectrum of progressive prostate cancer, in pre-metastatic, in early metastatic, and in late-stage disease”.

Trabalham com duas vacinas, que serão (esperamos) aplicáveis a pacientes antes da metástase, no início da metástase e com metástase avançada.

O objetivo não é curar, mas prolongar o efeito do tratamento hormonal, o tempo durante o qual ele é eficiente. Como o câncer da próstata é uma doença de idosos (há exceções), prolongar o efeito, realisticamente, é dar a oportunidade ao paciente de morrer de outras causas, menos dolorosas.

Muitos pacientes bem informados acabam fazendo cálculos (e tomando decisões baseadas neles) não apenas sobre a maneira de viver, mas também sobre a maneira de morrer. O que nenhum de nós quer é morrer após um período de dores indescritíveis causadas pelas metástases ósseas.

A MVI-118 é uma das duas vacinas, que seria relativamente barata, e que não teria que ser individualizada como a Sipuleucel-T (Provenge), que está saindo do mercado por ser custosa e de difícil preparação.

A segunda vacina, chamada MVI-816, está sendo desenvolvida e testada já numa pesquisa Fase II com pacientes cujo PSA voltou a crescer a despeito do tratamento hormonal. Seu objetivo é retardar o avanço do câncer.

Essa vacina também está sendo desenvolvida em conjunção com um inibidor PD-1, cuja função é expor as células cancerosas ao nosso sistema imune.

Esses processos são longos. Esperam publicar os resultados em 2018.

Há dois dias encontrei, numa lanchonete, um senhor dez anos mais moço do que eu. Seu PSA de 54 indica câncer. Sugeri que se informassem mais, que lessem, dei o nome de blogs. Ele afirmou que tinha apenas 10% da visão e a esposa desconversou. Insisti, e ficou claro, para mim, que se passar pela leitura não vai acontecer. A falta do hábito de ler e, certamente, a rejeição da leitura impede que dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras se tratem adequadamente. Podem perder anos de vida, perder muitas oportunidades e ganhar muito sofrimento por essa rejeição. Cabe a leitores como você informa-los e ajuda-los e acender a luzinha da esperança, que tende a se apagar em todos nós que enfrentamos essa doença.

GLÁUCIO SOARES

Saiba mais:

Informações sobre essas vacinas estão disponíveis em

http://www.madisonvaccines.com.

Quando usar a químio?

Volta à baila o momento adequado para a quimioterapia. R E Miller e C J Sweeney reanalisaram os dados (Fase III) de três testes clínicos nessa área, chamados GETUG15, CHAARTED and STAMPEDE. Testaram o uso de docetaxel em combinação com a terapia hormonal (ADT) e constataram que há ganhos na duração em que o câncer não progride (progression-free survival). Porém, no que tange a sobrevivência, duas das três bases de dados, (CHAARTED e STAMPEDE), mostraram ganhos clinicamente significativos, mas a pesquisa GETUG15 não mostrou ganho significativo. Muitas vezes, as diferenças entre os resultados de pesquisas se devem a diferenças metodológicas, inclusive entre as amostras.

Ficamos na expectativa….

O estudo foi publicado online em Prostate cancer and prostatic diseases. 15 de Março de 2016.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Quanto tempo até que o câncer volte a avançar?

Lawrence Klotz, um médico pesquisador do Departamento de Urologia da Universidade de Toronto e sua equipe tratavam pacientes que, como eu, como muitos, tinham feito a cirurgia e/ou a radioterapia para tratar o câncer da próstata, mas o câncer tinha “voltado”, mas que não tinham sinais óbvios de metástase. Eles faziam um experimento comparando um grupo, que recebia tratamento hormonal contínuo, sem interrupções, e outro que recebia o tratamento até que alguns indicadores, sobretudo o PSA, demonstrassem melhora, atingindo níveis muito baixos. Não obstante, coletavam dados sobre outros indicadores, como a testosterona.

Resolveram, então, perguntar se a baixa da testosterona teria algo que ver com a sobrevivência. Concentraram os esforços nos 626 pacientes que recebiam o tratamento hormonal continuo.

Uns desses pacientes atingiam o indesejável “castration-resistant prostate cancer” (CRPC), ou seja, não respondiam ao tratamento hormonal, o PSA subia, apareciam indicadores de metástase e mais. Embora muitos chegassem nesse nível, alguns chegavam depois de pouco tempo e outros depois de muito tempo. Como saber qual o destino de um paciente que está sendo tratado? Quanto tempo até aparecerem sintomas de metástase e avanço da doença?

Os dados não são tão ruins quanto o nosso medo.

Enquanto a pesquisa durou, 226 dos 626 desenvolveram resistência ao tratamento e entraram naquela nova categoria, mencionada acima, a dos que tinham um câncer que era castration-resistant (CRPC). Trinta e seis por cento tiveram essa piora; 64% não tiveram – durante a duração da pesquisa ou a partir das projeções estatísticas depois que a coleta primária de dados parou. Um em cada três teria que, eventualmente, enfrentar novos medicamentos, com piores efeitos colaterais e menores benefícios. Aos cinco anos depois de iniciado o tratamento, o câncer não avançara em 69%. Outra medida de tempo: dez anos. Aos dez anos de tratamento, metade dos pacientes passou a não responder bem ao tratamento hormonal e o PSA voltou a crescer. DEZ ANOS! A outra metade continuou respondendo bem.

Se você ainda está respondendo bem ao tratamento hormonal, é provável que queira saber quanto tempo tem até que o tratamento não evite mais o avanço do câncer. É possível ter uma ideia, fazer uma estimativa (sujeita a erros, claro).

A resposta está no nível mais baixo da testosterona durante o seu tratamento. Quando há uma série de medidas, o nível mais baixo atingido é chamado de nadir.

No grupo sendo tratado, 78% atingiram o nível de 0,7 nmol/L ou menor; outros 21% não baixaram tanto, ficando entre 0,7 nmol/L e 1,7 nmol/L e um terceiro grupo respondeu pouco, ficando no nível de 1,7 nmol/L

ou mais.

Aqui pode surgir um problema: os seus dados seguiram métrica diferente: aparecem números seguidos de ng/dl. E aí?

É como medir a distância em quilômetros ou léguas. Há tabelas que permitem comparar. 0,7 nmol/L equivalem a 20,17 ng/dL (menos que isso é ótimo) e 1,7 nmol/L equivalem a, aproximadamente, 49 ng/dL.

Se quiser usar a tabelinha escreva a URL:

http://www.endmemo.com/medical/unitconvert/Testosterone.php

Os pacientes com os níveis mais baixos eram mais idosos (idade média de 74,3 anos vs 69,6 anos).

E qual a influência do tal do nadir da testosterona?

Os pacientes na faixa de 0,7 nmol/L a 1,7 nmol/L tinham o risco mais alto (um risco 62% maior em comparação com os que tinham menos de 0,7) e os que tinham 1,7 nmol/L ou mais tinham um risco relativo 90% mais alto do que os com nadir igual ou menor do que 0,7 nmol/L.

O risco de morte era claramente mais alto entre os pacientes com um mínimo – o nadir – entre 0,7 e 1,7 (HR = 2.08; 95% CI, 1.28-3.38) e, sobretudo, entre os com um nível mínimo de testosterona mínimo (o nadir) superior a 1,7 (HR = 2.93; 95% CI, 0.7-12.3). Comparando os com um nadir alto, de 1,7 ou mais, e os com nadir baixo, menos de 0,7, o risco de morte era três vezes maior no primeiro grupo.

GLÁUCIO SOARES                                      IESP/UERJ

DIA DOS SOBREVIVENTES DE CANCERES

Domingo, dia 1o, foi celebrado o Dia dos Sobreviventes de Câncer. Junho, em diferentes países, é um mês dedicado a nós.

Quem é um sobrevivente do câncer? É quem foi diagnosticado com câncer e está vivo, não importa se o diagnóstico foi feito ontem ou há trinta anos. Se você é considerado curado, e, ao contrário, se a barra está pesada, você é um sobrevivente. Somos sobreviventes do diagnóstico até a hora da morte, seja por que causa for.

O que há para celebrar? – perguntarão muitos.

Simples: o diagnóstico de um número cada vez maior de canceres deixou de ser uma sentença de morte. Tome o câncer da próstata: em meados da década de 90, metade dos diagnosticados emplacavam dez anos; se espera que 97% dos diagnosticados agora estejam vivos, ainda que não necessariamente curados, dez anos depois.

Isso nos Estados Unidos. Aqui, talvez ainda estejamos lutando para chegar ao nível que aquele país atingiu há décadas. O aumento da sobrevivência não foi uniforme: o prognóstico em alguns canceres melhorou muito, mas em outros o avanço foi mínimo.

Há muito que celebrar! Não obstante, ainda temos muito trabalho pela frente.

 

GLÁUCIO SOARES            IESP-UERJ

Tratamento hormonal: contínuo ou intermitente?

Se chegarmos a enfrentar a necessidade de tomar medicamentos (anti)hormonais, o que sabemos sobre ela?

Ela pode ser aplicada de várias maneiras, as principais sendo a contínua e a intermitente. Faz diferença? Faz. Vejam as conclusões de uma pesquisa Fase III, com 1.300 pacientes:

A mais importante é que a sobrevivência geral (computando todas as causas de morte) entre os dois grupos foi semelhante. Terapia contínua ou intermitente, dá quase no mesmo.

Como é comum, dividiram os pacientes em dois grupos, um com 690 e outro com 696 homens. Na mediana, a idade em cada grupo era de 74 anos.

Mediram a qualidade da vida de quatro em quatro meses durante dois anos e de oito em oito meses a partir daí. A pesquisa foi parada depois de 6,9 anos. Naquele momento os dados mostravam uma superioridade pequena para o tratamento contínuo – 8,8 anos com tratamento intermitente e 9,1 com tratamento contínuo. O risco relativo era de 1,02.

Depois de, praticamente, sete anos, 800 pacientes continuavam vivos – 61,5%.

De que morreram os outros pacientes? Conseguiram dados sobre 524, dos quais 37% morreram de câncer da próstata. Ou 14% do total. Um em cada sete pacientes que seguiram o tratamento morreu antes de 6,9 anos.

E os outros, de que morreram? Vinte e dois por cento de outro câncer, mais do que os que morreram do câncer da próstata e nada menos de 32% de outras causas, não de câncer.

E os efeitos colaterais? Os mesmos de outras pesquisas: calores, disfunção erétil, redução séria na libido, mudança na freqüência com que urinavam e fadiga, a velha e conhecida fadiga,

O tratamento intermitente teve efeitos colaterais menores, mas não muito menores (os dois grupos eram de idade avançada) nas funções físicas, na fadiga, na freqüência com que urinavam, nos calores, na redução da libido e nas funções sexuais. Os pacientes desse grupo sofreram um pouco menos desses efeitos colaterais. Não obstante, os calores foram mais reduzidos e continuaram mais reduzidos nos que fizeram tratamento intermitente.

A principal diferença é a quantidade do medicamento usado nos dois grupos: num grupo, foi usado durante 43,9 meses e noutro durante apenas 14,3 meses. Essa menor quantidade se traduz em gastos menores com o medicamento.

O próximo passo é difícil: identificar quem se beneficia mais com que tipo de tratamento.

 

GLÁUCIO SOARES