O MEDO E A MORTE

Este mês completei 23 anos desde que fui diagnosticado com câncer. Infelizmente, o câncer não foi curado, a despeito de diferentes tratamentos.

Como pesquisador, minhas reações começaram com o meu desconhecimento. Eu não sabia nada a respeito de câncer. Tratei, primeiro,de ler órgãos de divulgação, comunicações entre pacientes e assim  por diante. Eram trocas de experiências, de lamúrias, de sugestões, várias de curas milagrosas, remédios  “que a indústria farmacêutica não quer que você conheça “ – abertura comum de quem quer anunciar sua própria cura milagrosa (e rentável). Havia de tudo.

Porém, uma revista, PSA Rising, foi particularmente útil. Depois, descobri publicações mais sérias, embora acessíveis somente para quem quisesse estudar um pouco. Primeiro, as edições diárias de Google Prostate Alert, juntamente com as edições diárias e a semanais de Uro Today, e mais alguns artigos especializados após essas leituras. Quando havia coisa nova, corri atrás. Facilita ter um filho biólogo. E eu buscava no PubMed.

A maioria dos comentários, como era de esperar, caia em algumas categorias. As que mais me impressionavam eram os pedidos de informação que revelavam quão pouco os pacientes e parentes  sabiam sobre suas doenças e, em função disso, quão pouco controle tinham sobre a vida dos pacientes  – muito menor do que a doença permitia. Deixavam de fazer muitas coisas que podiam fazer.Pior: os que mais e melhor buscavam informações não eram os pacientes, mas suas esposas, irmãs, filhos, companheiras. Muitos pacientes propriamente ditos se fechavam num quarto escuro esperando morrer. A coragem das mulheres para enfrentar um câncer da mama e outros cânceres femininos é incomparavelmente maior. Um dos efeitos mais acachapantes sobre os pacientes de cânceres masculinos vem do próprio machismo. O mesmo machismo que causa dor em tantos casamentos causa mais pavor e desespero em muitos homens vítimas de cânceres da próstata do que o próprio câncer.

Essas foram poderosas razões para que eu começasse a escrever dois blogues, um no Blogger e outro no WordPress. Minha esperança era atingir umas cem  pessoas e ajudar umas poucas. Afinal, mesmo para que tem só um pouco de fé, minorar o sofrimento de uma alma é um objetivo louvável em si próprio. Nunca pensei que meu blog Câncer de Próstata; Notícias e Pacientes teria 883 mil acessos e o meu outro blog, Câncer da Próstata Sem Medo tivesse 915.000 leitores.

E o câncer? O  “meu“ câncer?

Está por aí. Ou melhor dizendo, por aqui. Os marcadores bioquímicos mostram que ele não foi curado.

Às vezes, também eu sinto medo, porque se a metástase for para os ossos, a dor é muito grande.

Mas até aí, nesse medo menor, Deus me deu mais uma lição. Eu estava em casa, sozinho, trabalhando na minha escrivaninha quando apaguei. Apaguei total, não me lembro de nada. Minha mulher me encontrou desfalecido, boca torta e tudo. Minha lembrança veio com o incômodo de sentir pessoas tentando me comprimir dentro do assento de um taxi cujo volume me parecia inferior ao meu. 

Tive um ataque transitório isquêmico. Um AVC menos sério, algo assim.

E foi uma palmada, mesmo, que Deus me deu. Palmadinha. Afinal, estou aqui escrevendo para vocês.

Com carinho.

GLÁUCIO SOARES

IESP-UERJ

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Estatinas e o risco de morrer de câncer da próstata

Uma pesquisa recente feita na Finlândia trouxe informações a respeito das associações (ou não) entre o uso de estatinas e o risco de morte por câncer da próstata. É uma pesquisa que somente poderia ser feita em poucos países com excelentes bases estatísticas que são compatíveis. Analisaram 6.537 homens com câncer da próstata, acompanharam esses homens durante sete anos e meio e cruzaram as informações com o banco de dados que contem informações sobre o uso de medicamentos, no caso estatinas.

Durante o período em que os acompanharam (NÃO é o mesmo que o tempo desde o diagnóstico), morreram 617 pacientes.

A que conclusões chegaram? 

A primeira não ajuda quem já usava estatinas antes do diagnóstico do câncer. Não há associação entre o uso e a morte pelo câncer.

A segunda conclusão é muito diferente. O uso de estatinas DEPOIS do diagnóstico é o que conta. Reduz o risco de morte devida ao câncer (HR 0.80) e quanto mais estatinas usaram (suponho que dentro dos limites estabelecidos pelo médico), maior a redução.

A redução era mais clara entre os que usavam terapia hormonal e menor entre os que fizeram cirurgia e/ou radiação.

Deixo claro que há vários estudos sobre essa associação e nem todos mostram uma redução na mortalidade com o uso de estatinas.

GLÁUCIO SOARES iesp-uerj

Saiba mais:

Murtola TJ, Peltomaa AI, Talala K, Määttänen L, Taari K, Tammela TLJ, Auvinen A., Statin Use and Prostate Cancer Survival in the Finnish Randomized Study of Screening for Prostate Cancer. Eur Urol Focus. 2017 Apr;3(2-3):212-220. doi: 10.1016/j.euf.2016.05.004. Epub 2016 Jun 2.

Bons resultados com a enzalutamida


Uma equipe internacional analisou as vantagens em usar enzalutamida quando o tratamento hormonal não produz mais os efeitos desejados e o câncer começa a avançar. Esse medicamento só é usado legalmente nos Estados Unidos quando, além de indicação de que a terapia hormonal começou a falhar (ex.: crescimento rápido do PSA) e há indícios de metástase. Esses indícios são em parte um sofisma legal e metodológico nos casos em que houve prostatectomia porque o crescimento do PSA normalmente resulta da proliferação de células cancerosas em algum lugar do corpo (sem esquecer que esse corpo já não tem próstata). Não obstante, a detecção é, em boa parte, dependente do avanço da tecnologia. Há duas décadas, a metástase não teria que ser tão avançada quanto hoje para ser detectada. micro metástases serão corriqueiramente detectáveis em mais algum tempo. Essa questão me interessa particularmente porque agora talvez seja uma questão de pouco tempo até que a terapia hormonal perca seu poder. Quando as metástases acontecem, medicamentos como abiraterona e enzalutamida podem ser usadas, quando ainda não, não podem legalmente ser usadas nos Estados Unidos, ainda que haja dados que mostram que o uso enquanto não há metástase detectável tem muitos benefícios.

Quando ler artigos na área e encontrar a expressão “endpoints” saiba que estão tratando de objetivos. O tempo que o paciente passa até que apareça uma metástase é chamado de MFS (metastasis free survival). É uma mediana o tempo que leva até que metade dos pacientes tenha metástase e metade não. Sem enzalutamida, esse período é de 14,7 meses; com enzalutamida, leva mais tempo para chegar até a mediana que é de 36,6 meses. Uma diferença de 21,9 meses.[i] Aperte o botão Controle e, ao mesmo tempo, clique encima do endereço abaixo para ver os gráficos.

https://infogram.com/revisando-o-efeito-da-enzalutamida-1hke600081m065r

Lembrem que isso é até a primeira metástase detectável.

O tempo até o PSA voltara a crescer é outro objetivo. Quanto mais tempo, melhor. Sem tratamento, na mediana o PSA cresce em menos de quatro meses. Com enzalutamida é muito mais: 37,2 meses, mais de três anos [P< 0,0001].

São excelentes resultados, mas há efeitos colaterais e alguns deles fazem com que os pacientes desistam do tratamento.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

[i] A diferença é significativa no nível de P< 0.0001.

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Bons resultados com a enzalutamida

Uma equipe internacional analisou as vantagens em usar enzalutamida quando o tratamento hormonal não produz mais os efeitos desejados e o câncer começa a avançar. Esse medicamento só é usado legalmente nos Estados Unidos quando, além de indicação de que a terapia hormonal começou a falhar (ex.: crescimento rápido do PSA) e há indícios de metástase. Esses indícios são em parte um sofisma legal e metodológico nos casos em que houve prostatectomia porque o crescimento do PSA normalmente resulta da proliferação de células cancerosas em algum lugar do corpo (sem esquecer que esse corpo já não tem próstata). Não obstante, a detecção é, em boa parte, dependente do avanço da tecnologia. Há duas décadas, a metástase não teria que ser tão avançada quanto hoje para ser detectada. micro metástases serão corriqueiramente detectáveis em mais algum tempo. Essa questão me interessa particularmente porque agora talvez seja uma questão de pouco tempo até que a terapia hormonal perca seu poder. Quando as metástases acontecem, medicamentos como abiraterona e enzalutamida podem ser usadas, quando ainda não, não podem legalmente ser usadas nos Estados Unidos, ainda que haja dados que mostram que o uso enquanto não há metástase detectável tem muitos benefícios.

Quando ler artigos na área e encontrar a expressão “endpoints” saiba que estão tratando de objetivos. O tempo que o paciente passa até que apareça uma metástase é chamado de MFS (metastasis free survival). É uma mediana o tempo que leva até que metade dos pacientes tenha metástase e metade não. Sem enzalutamida, esse período é de 14,7 meses; com enzalutamida, leva mais tempo para chegar até a mediana que é de 36,6 meses. Uma diferença de 21,9 meses.[i]

Lembrem que isso é até a primeira metástase detectável.

O tempo até o PSA voltara a crescer é outro objetivo. Quanto mais tempo, melhor. Sem tratamento, na mediana o PSA cresce em menos de quatro meses. Com enzalutamida é muito mais: 37,2 meses, mais de três anos [P< 0,0001].

São excelentes resultados, mas há efeitos colaterais e alguns deles fazem com que os pacientes desistam do tratamento.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

[i] A diferença é significativa no nível de P< 0.0001.

Nova geração de tratamentos hormonais?

A personalização do tratamento do câncer da próstata já está em curso. Personalização significa que a escolha do tratamento leva em consideração características do paciente, inclusive o estágio e o subtipo do câncer.

A Janssen Biotech, Inc., uma empresa farmacêutica, acaba de submeter um novo tratamento, baseado na apalutamida, que se aplicará somente a pacientes cujo câncer já não responde ao tratamento hormonal, mas ainda não apresentam metástases. É uma fatia importante do mercado.

Até o momento, a Food and Drug Administration (FDA), que é quem concede licença a novos medicamentos nos Estados Unidos, não concedeu nenhuma licença que se aplicasse a pacientes com essas características.

O que justifica esse pedido?

Os resultados de uma pesquisa clínica Fase III, chamada ARN-509-003 (SPARTAN) onde compararam os resultados do grupo experimental, que recebeu a apalutamida, com um grupo controle. A empresa considera que a apalutamida é a “nova geração” de tratamentos hormonais – além da abiraterona e da enzalutamida.

Que efeitos foram usados como critérios? O principal foi a ausência de metástases, mais exatamente o tempo que leva até o aparecimento da primeira metástase. A apalutamida promete uma “esticada” na duração desse estagio da doença, que é melhor (ou menos pior) que o seguinte, quando já há metástase. Dada a correlação entre o tempo até o aparecimento de metástases e o tempo até a morte, é provável que também signifique uma esticada na sobrevivência.

Converse com o seu urologista ou oncologista a respeito.

GLÁUCIO SOARES     IESP-UERJ

Uma luzinha de esperança

Essa é uma luzinha de esperança para quem já passou por todas as etapas do câncer da próstata. Quem são esses pacientes? Aqueles que não respondem mais às terapias já estabelecidas, como docetaxel, cabazitaxel, enzalutamida e abiraterona. Uma empresa chamada Endocyte desenvolve terapias personalizadas, feitas para subgrupos de pacientes com características especificas, e não para todos os pacientes.

Em que consiste a luzinha de esperança?

Em um tratamento com um nome impossível, 177Lu-PSMA-617, que direciona seu poder de fogo para um antígeno vinculado a uma membrana, chamado PSMA. Esse antígeno está presente em cerca de 80% dos pacientes com metástase que não respondem a qualquer tratamento hormonal. O 177Lu-PSMA-617 reduziu o PSA em mais de 50% numa percentagem razoável dos pacientes (de 40% a 60%). Os demais não responderam ao tratamento. Houve melhoria em boa parte do que apresentavam metástases para outros órgãos e redução da dor (muito temida nas metástases ósseas).

A mediana da sobrevivência foi de 12,7 meses.

Esses são resultados com poucos pacientes. São promissores, o que levou ao projeto de uma pesquisa maior, Fase III, prevista para 2018.

Uma luzinha no fim do túnel…

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

CUIDADO COM O PSA DURANTE O TRATAMENTO COM ENZALUTAMIDA

Um dado recente preocupa os pacientes com câncer da próstata que tomam enzalutamida (Xtandi). Esse medicamento tem sido usado em pacientes que desenvolveram resistência ao tratamento hormonal com medicamentos “tradicionais”, que estão no mercado há duas, três décadas ou mais.

Qual o dado?

Encontraram um número surpreendentemente grande de pacientes usando enzalutamida que, a despeito de terem um PSA estável, ou até em declínio, que apresentavam avanço da doença de acordo com os exames radiológicos.

O PSA começou a ser usado na triagem de casos com suspeita de câncer da próstata em 1987; a FDA aprovou o PSA no sangue como teste sete anos depois, em 1994.

É um teste de fácil obtenção e relativamente barato e nesse quarto de século se tornou o indicador mais usado na triagem. A confirmação mais usada durante esse período requeria biópsia.

Vários indicadores foram desenvolvidos com base no PSA, como o tempo que ele leva para dobrar (o PSADT), o nível mais baixo que ele atingiu (que é chamado de nadir), o tempo até que o PSA volta a ser detectado após não poder ser detectado depois de uma cirurgia e muito mais. É o indicador mais usado na prevenção, detecção, diagnóstico e acompanhamento, embora sempre abrigando controvérsias.

Isso significa que, para um grupo de pacientes com câncer avançado da próstata, que estão sendo tratados com enzalutamida, que o PSA estável ou em declínio tem menor utilidade como indicador de que o câncer não está avançando.

Ruim para todos nós.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ