DERRAMANDO AGENTES QUÍMICOS DIRETO NO CÂNCER

Quando o câncer da próstata não responde mais a qualquer tratamento hormonal e há metástases em outras partes do nosso corpo temos poucas opções. Pacientes com canceres muito adiantados, que já tentaram tudo e nada mais parece ajudar, tem pouco tempo de vida, usualmente entre um ano e um ano e meio.

Nos últimos anos alguns medicamentos esticaram nossa esperança de vida. Zytiga, Provenge, enzalutamida são todos relativamente recentes e acrescentaram, na mediana, alguns meses de vida.

 

Houve um simpósio em Dublin, na Irlanda, sobre alvos moleculares como estratégia para lutar contra canceres. Há um, direcionado para o câncer da próstata, que promete: a lógica desse tratamento tem sido discutida, mas raramente colocada à prova. O medicamento que estão desenvolvendo começou a ser testado (Fase I), com cinquenta pacientes com baixa esperança de vida.

Como funciona esse tratamento?

Identifica e direciona o medicamento com base na membrana chamada “prostate specific membrane antigen”, ou PSMA. A químio tradicional é despejada no corpo e atinge gregos e troianos, células saudáveis e células do câncer. Porque se dirige às células que crescem mais atinge ainda mais as cancerosas, mas atinge outras também. Daí os pesados efeitos colaterais. Esse novo método vai atrás da PSMA e de mais nada. Elas carregam um medicamento chamado de MMAE (monomethyl auristatin E) que atinge as tubulinas, que são proteínas globulares.

Até agora, tubulinas são apenas um nome novo e complicado para algo desconhecido. Mas, espere! As tubulinas são essenciais para a divisão das células. E o câncer é, essencialmente, um crescimento incontrolado das células. E o MMAE ataca as tubulinas, impedindo o ciclo celular, que inclui a divisão, provocando sua morte.

Ótimo, no papel. Funciona?

Para isso é que são os testes.   

Recrutaram cinquenta pacientes com canceres muito avançados, que não respondiam aos tratamentos anti-hormonais, que já tinham tentado dois tipos de químio, com metástase nos ossos e nos órgãos. Nessa situação a esperança de vida se mede em meses.

 

Qual a quantidade de medicamento ideal para dar ao paciente? Não se sabia. Por isso, foram divididos em pequenos grupos que receberam, endovenosamente, doses que variavam de 0,4 a 2,8 mg/kg (por quilo).

As doses baixas não funcionaram bem, mas a partir de 1,8 mg/kg houve efeitos mensuráveis. Metade dos pacientes responderam bem ao tratamento, seja com uma redução de 50% ou mais no PSA, seja por uma queda nas células cancerosas que circulam no sangue até menos de 7,5 ml. Se as duas reações foram observadas, melhor.

Deram uma boa pesquisada nos efeitos colaterais. As células brancas foram reduzidas (neutropenia) e um paciente morreu, mas a causa ainda é desconhecida.

Agora estão recrutando novo grupo de pacientes com canceres muito avançados – 75 – que receberão 2,5 mg/kg. Vão avaliar, além das respostas do PSA e do CTC, obterão dados sobre as metástases (óssea, linfáticas e nos órgãos internos), além da dor – querem saber se o medicamento, além de aumentar a sobrevivência, reduz a dor.  

Até agora, os resultados são promissores e talvez em três ou quatro anos tenhamos um medicamento que empurrará a morte por alguns ou muitos meses…

Fonte: ECCO-the European CanCer Organisation.

 

 

GLÁUCIO SOARES       IESP-UERJ

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PSA: testar ou não testar?

O debate continua intenso a respeito das vantagens e desvantagens de testar o PSA de homens de maneira rotineira. Claro que são homens sem sintomas, sem casos de câncer da próstata na família. Como a incidência e a prevalência desse câncer é substancialmente mais elevada entre negros do que entre brancos e asiáticos, ser negro torna recomendável o teste sistemático de PSA. 
Um grupo de estudos, o U.S. Preventive Services Task Force, não recomenda o uso de rotina desse teste a partir de certa idade. Por quê? A resposta é complicada: o teste salvaria poucas vidas e provocaria tratamentos desnecessários, porque um PSA elevado está longe de significar a morte do paciente. Os tratamentos desnecessários têm efeitos colaterais que podem ser pesados, como impotência, incontinência, ataques do coração e até morte com tratamentos que poderiam ser evitados porque a chance de morrer do câncer, na grande maioria dos casos, seria mínima.
Repetindo: homens negros, homens com sintomas do câncer e homens com parentes que têm ou tiveram esse câncer devem ser testados de maneira sistemática. 
O teste de PSA continuará a ser coberto pelo seguro médico público chamado Medicare.
O problema deriva do número de falsos positivos e falsos negativos. As margens de erro que antes eram consideradas aceitáveis, hoje não o são. Testes que reduzam o erro e que permitam separar quem tem alta chance de morrer do câncer dos demais homens resolveriam o problema. Não se trata mais de um teste que indique quem tem o câncer: o PSA em conjunção com o toque retal faz isso com margem aceitável de erro. Porém, a descoberta de que muitos pacientes não morreriam do câncer sem qualquer tratamento requer outro poder, o de separar os casos perigosos dos que podem ser simplesmente acompanhados. Trata-se de isolar os cânceres perigosos, que podem matar o paciente. Há muitas células que podem produzir o câncer da próstata, o que leva a muitos tipos diferentes, alguns letais e muitos indolentes, que crescem devagar e só matariam se os pacientes vivessem bem mais de cem anos. 
Não obstante, um em cada seis homens americanos terá esse câncer. E este câncer, por ser tão comum, é o segundo que mais mata, atrás apenas do câncer do pulmão. Duas pesquisas, uma na Europa e outra nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que cinco em cada mil homens morrem deste câncer no prazo de dez anos. Minha crítica a esse raciocínio é que estamos vivendo mais e a taxa nunca chega a zero: ao contrário, parece aumentar depois de quinze ou vinte anos do diagnóstico. A pesquisa europeia concluiu que os testes sistemáticos, rotineiros, salvariam um desses cinco homens.     
O argumento contra se baseia nos erros e efeitos colaterais dos tratamentos. Dois de cada mil homens testados morrerão de um ataque do coração ou de um derrame provocado pelo tratamento, particularmente o hormonal. Além disso, 30 a 40 ficarão temporária ou permanentemente impotentes ou incontinentes em função do tratamento. De cada três mil, um morrerá de complicações durante a cirurgia. 
O debate continua…

GLÁUCIO SOARES        IESP/UERJ