Desigualdades….

Prestamos muita atenção à desigualdade de renda e pouca à desigualdade cognitiva. A desigualdade de renda, por convenção, se mede anualmente. Em circunstancias improváveis, mas não impossíveis, ela pode ser alterada em poucos anos. A desigualdade cognitiva é mais difícil de reverter e tende a marcar as pessoas durante toda a vida. Ela é um dos determinantes da desigualdade de renda. E vice-versa.

São conceitos novos, mas desigualdade de renda é uma noção mais antiga. A expressão “cognitive inequality” é muito mais recente. Apareceu, timidamente, três décadas e meia mais tarde.

A desigualdade cognitiva não é um conceito estabelecido que, se mencionado, desperte uma luz de compreensão. Está sendo construído. É usado para descrever diferenças de conhecimento, como o número de palavras conhecidas, o tempo até o reconhecimento dessas palavras, a capacidade analítica da pessoa, a capacidade de resolução de problemas e outras acepções. Uma observação relevante é que se refere a diferenças entre as pessoas em relação ao que sabem e conseguem elaborar, mas também em relação ao potencial, que insere uma dimensão temporal e, até mesmo, a noção de limite: até onde podem chegar.

As medidas desenvolvidas nas últimas décadas mostram que as diferenças sociais, entre classes, raças (associada às diferenças entre classes) e também entre localizações geográficas, e muitas diferenças mais, já estão presentes em crianças pequenas.

São diferenças entre o que são; são diferenças entre o que podem ser. Parte dos caminhos da vida já está condicionada nessa idade. Os trilhos da vida já estão se formando, dando limites baixos a uns, estimulando voos maiores a outros.

Condicionada, mas não determinada.

Mudar é possível.

As mudanças podem vir de várias fontes, podem ser de diversos tipos. Em países pobres, teoricamente, o estado é visto como um instrumento mais importante para reduzir as desigualdades cognitivas.

Teoricamente.

Infelizmente, em muitos desses países pobres, o estado é não apenas um estado em si, mas é também um estado para si.

Vamos “aprender de fora” para sonhar melhor, sonhar com um estado para o seu povo. Um programa experimental foi criado para ajudar crianças de três anos de idade e seus pais. Foi criado pelo U.S. Department of Health and Human Services na década de 90.

Programas experimentais começam em escala pequena. Usualmente custam muito menos do que os programas definitivos, partes de políticas públicas mais ambiciosas. Tentam diferentes soluções e aprendem com os experimentos. Os erros são baratos. Requerem avaliações – como todas as ações públicas deveriam requerer.

John Love e uma ampla equipe realizou uma dessas avaliações parciais. O programa se direcionava a mulheres gravidas de baixa renda e a famílias de baixa renda com crianças pequenas. Estudaram cerca de três mil famílias para avaliar 17 programas. “Cercaram” bem as perspectivas de análise: entrevistaram os profissionais que atendiam essa população, avaliaram as crianças e observaram as interações entre as crianças e suas famílias até os três anos de idade.

Usaram regressões, um instrumento estatístico padrão, para comparar esse grupo experimental com um grupo controle que não era parte do programa. As crianças do programa apresentaram muitas vantagens: desenvolvimento verbal, desenvolvimento cognitivo, maior investimento emocional do pai e/ou mãe (usualmente mãe), maior capacidade de atenção e comportamentos agressivos menos frequentes.

Uma constatação muito importante: os pais e mães que participavam do programa davam mais apoio emocional às crianças, estimulavam mais as crianças ao desenvolvimento verbal e à aprendizagem, liam com mais frequência para seus filhos e batiam neles com menos frequência.

Mudar é possível.

Mas o que foi aprendido com o experimento não parou aí. Os melhores resultados foram obtidos através da mistura de atendimento em casa e no centro onde era proporcionada a maioria dos serviços e, muito importante, os atendimentos que começaram mais cedo.

Outros países, onde a saúde pública é levada em sério e o estado emprega poucos políticos – e assim mesmo em caráter temporário – e muitos profissionais competentes, trabalham com programas semelhantes que objetivam reduzir as desigualdades cognitivas.

Quanto custa um programa desses?

Em 2016, o programa Head Start custou aos cofres federais americanos, aproximadamente, 635 milhões de dólares, ou dois bilhões de reais.

É difícil não sonhar com os benefícios de um programa semelhante, devidamente adaptado e ajustado às condições brasileiras. Porém, nesse momento, as desigualdades de renda e de poder voltam ao meu pensamento e forçam a entrada na equação, não me permitindo continuar sonhando.

Não há como esquecer o loteamento do Ministério da Saúde. E, como falei em custos, o meu pensamento não consegue esquecer: o rombo deixado por Eike Batista, gentilmente solto pelo ministro Gilmar Mendes. A Folha de São Paulo estimou esse rombo em 29,2 bilhões de reais. O equivalente ao orçamento do programa Head Start durante cerca de quinze anos- a preços americanos.

A exatidão da cifra é menos importante do que a sua escala para essa comparação apenas ilustrativa. As desigualdades no Brasil são de outra dimensão, de outra realidade. É obsceno que uma só pessoa tenha, ou tenha tido, uma fortuna individual capaz de elevar significativamente o capital cognitivo da infância e da juventude do país. E que “o sistema” favoreça um punhado dessas pessoas em detrimento de milhões de brasileiros.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

O amor incondicional e seus efeitos sobre filhos e filhas

Há pais cuja dedicação extrema é exemplar. Augusto Odone e Michaela Murphy Odone, cujo filho, Lorenzo, foi diagnosticado com uma doença rara e cruel, adrenoleucodistrofia (ALDO), cujos pacientes viviam, na média, dois anos após o diagnóstico. Era doença vista como fatalidade. Nada a fazer. Augusto Odone, numa publicação de 2011, escreveu: “nos disseram que deveríamos voltar para casa e ver Lorenzo morrer”. “Não podíamos fazer isso e não o fizemos. ” Tiveram que enfrentar o establishment médico, pesquisadores, cientistas, a indústria farmacêutica e até os outros pais, como eles, de filhos com a mesma doença.

Como resultado da sua busca e da sua luta, Lorenzo morreu vinte e dois anos depois da data prevista pelos médicos. Morreu de pneumonia porque aspirou comida. Chegou a recuperar algumas funções e, possivelmente, deixou de perder várias outras.

A luta dos Odone beneficiou muitas crianças, além de Lorenzo.Segundo uns, o seu tratamento já beneficiou muitos dos afetados, parando ou reduzindo a velocidade da expansão da doença. Não é uma opinião unânime. Mais importante, chamaram a atenção para o sofrimento desproporcional dos afetados pela doença (pacientes, famílias e amigos) e abriram um caminho para pesquisar melhor a doença. Se chegarmos à cura, os Odone serão parte da sua história e da sua cadeia causal que é impossível reconstruir. Odone pai escreveu livro e a estória virou filme, Lorenzo’s Oil.

Não obstante, há males que afligem crianças, também de maneira destrutiva, que não são de origem genética e que afligem centenas de milhões de crianças no planeta. Talvez bilhões. São produtos da desigualdade. As deficiências, muito mais numerosas, ainda que muito menos graves, resultam de anomalias sociais, muitas das profundas diferenças entre as classes sociais. A desigualdade, que insistimos em ver com os olhos da miopia teórica, vai muito além das desigualdades de renda. Chega a afetar as relações entre pais e filhos.

Uma pesquisa feita em Stanford por Anne Fernald, publicada recentemente, mostra que a distância educacional e cognitiva entre as classes afeta até as crianças pequenas. Aos dois anos, as crianças pobres já enfrentavam seis meses de atraso verbal. Na média, dos 18 aos 24 meses as crianças de status socioeconômico mais alto acrescentavam 260 palavras novas ao seu vocabulário. As mais pobres acrescentavam trinta por cento menos. Infelizmente, essas diferenças baseadas, em última análise, na desigualdade social (leia-se social no sentido mais amplo), tendem a crescer durante o tempo e produzem choques com as instituições que as esperam. O que espera a maioria das crianças pobres? Menor assiduidade, desde cedo e até o fim da educação formal, assim como notas mais baixas, taxa mais alta de reprovação, maior deserção escolar, mais conflitos dentro das escolas, mais suspensões e expulsões da escola, sexo cedo demais, gravidez e maternidade mais precoces e sem parceiros comprometidos, mais delinquência e muito mais. Na média, desde cedo, crianças provenientes de classes diferentes são colocadas nos trilhos invisíveis da vida, que levam a destinos diferentes, cada vez mais desiguais.

As desigualdades sociais não são só de classe, mas, dentro delas, há profundas diferenças entre as famílias, particularmente entre pais e entre mães.

As desigualdades de oportunidades entre as crianças são um destino inexorável? Fatalidades das que não podemos escapar?

Felizmente, não. São probabilidades inexoráveis, mas probabilidade não é certeza.

É possível escapar deste destino – nas duas direções: para fugir do destino pior e para cair do destino melhor. A própria Fernald afirma: “It’s clear that SES is not destiny”. Classe não é destino.

E há boas novas: a despeito de desvantagens econômicas, pais e mães que dão atenção aos filhos e filhas, conversam com eles, estimulam sua curiosidade, se possível acompanham suas leituras, acompanham seu desempenho na escola e na vida, os acariciam, lhes dão tempo de qualidade, são trabalhadores que rejeitam os trilhos que a origem socioeconômica quer impor aos seus filhos e construíram um novo caminho para ele, dormente atrás de dormente, trilho depois de trilho.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

Há uma imensa bibliografia, baseada em pesquisas empíricas, realizadas em vários países, que mostram a desigualdade cognitiva derivada das desigualdades econômicas e sociais, assim como o efeito restaurador do amor de pais e mães.

O livro de Odone:

Augusto Odone. L’olio di Lorenzo. Una storia d’amore. Mondadori, 2011. ISBN 8804611081.

Uma visão negativa sobre a possibilidade de benefícios permanentes se encontra em Patrick Aubourg, Catherine Adamsbaum, Marie-Claude Lavallard-Rousseau, Francis Rocchiccioli, Nathalie Cartier, Isabelle Jambaque, Christine Jakobezak, Anne Lemaitre, Francois Boureau, Claude Wolf, e Pierre-Francois Bougneres

A Two-Year Trial of Oleic and Erucic Acids (“Lorenzo’s Oil”) as Treatment for Adrenomyeloneuropathy. N Engl J Med 1993; 329:745-752September 9, 1993DOI: 10.1056/NEJM199309093291101

Uma revisão mais recente mostra um crescimento do conhecimento sobre essa doença. Na minha opinião, e é uma opinião como a de qualquer um, a divulgação do caso de Lorenzo ajudou a expandir esse conhecimento sobre uma doença rara que quase não se pesquisava:

Brain Pathol. 2010 Jul; 20(4): 845–856.

doi: 10.1111/j.1750-3639.2010.00393.x

Há um TED de Anne Fernald que proporciona informações sobre a importância de conversar com os filhos. Está em inglês.

Why talking to little kids matters | Anne Fernald | TEDxMonterey

This talk was given at a local TEDx event, produced independently of the TED Conferences. For babies, good conversation is nourishment for the brain. Dr.…

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