FIBRILAÇÃO ATRIAL E DERRAME

Há uns trinta anos lido com a fibrilação atrial. Lembro-me de sentir que ia desmaiar duas vezes num intervalo pequeno, quando nos reuníamos para decidir o programa acadêmico do semestre seguinte. Comecei e me sentir mal e levantei-me para sair, mas não deu para abrir a porta. Tive que me sentar onde desse. Os colegas fizeram as observações de praxe, caucionando-me, perguntando se necessitava de ajuda.

Em outro momento, ou estava no Yucatán ou ia para lá, com dois filhos. Foi rápido e intenso e tive que me sentar no estribo da porta do carro. Meu filho Andrei ficou preocupado.

Algumas vezes, quando exercitava, particularmente levantando peso, o coração batia forte e a mente ficava algo anuviada.

Após lidar – mal – com a fibrilação atrial durante vinte anos ou mais, chegou o momento em que descobri que havia tido embolias pulmonares múltiplas. Aí começou o chatíssimo Coumadin, que começou a sua vida como veneno de rato, cuja função era evitar a trombose em veias profundas. Depois de algum tempo, foi substituído pelo Xarelto que continuo a tomar, religiosamente. Depois de duas cardioversões, que meu colega Charles Wood chamou de rebooting, chegou ao meu conhecimento a possibilidade de ablação cardíaca. Realize a ablação há vários anos no mesmo Shands Hospital da Universidade da Flórida. É um procedimento através do qual inserem um cabo flexível em algum lugar do sistema sanguíneo (a localização da entrada no meu caso foi a virilha) e avançam, lentamente, até chegarem a uma localização no coração quando, segundo meu entendimento, cauterizam uma parte do mesmo, responsável pela geração OU transmissão de impulsos elétricos.

Avalio que deu certo. Por que escrevo isso? Porque acabo de ler um trabalho de Beth W. Orenstein, onde concluiu que o risco de derrame cresce muito com a fibrilação atrial.

Os dados metem medo. Uma publicação da National Stroke Association nos informa que ter fibrilação atrial multiplica por cinco o risco de ter um derrame! Multiplica por cinco!

Nada menos do que 15% de quem tem/teve um derrame também tem fibrilação. Ter fibrilação e um derrame é um passaporte para o além: mais de setenta por cento de quem tem fibrilação e um derrame morrem devido ao derrame.

Também não é garantia de morte. Sei que, financeiramente, ablação cardíaca é para poucos no Brasil, mas os números apavorantes mencionados acima podem ser reduzidos através de medicamentos adequados, tomados sistematicamente – religiosamente.

Não brinque com a fibrilação, nem com o risco de derrame. Hoje a grande maioria dos brasileiros pode ter acesso a um cardiologista, ainda que em circunstancias frequentemente abaixo das desejadas e a formação dos cardiologistas com frequência deixa a desejar.

Diante de tantos fatores po0ssivelmente adversos, os únicos que você pode controlar são a dieta e o peso, a atividade física, inclusive os exercícios, tomar os seus remédios quando deve e nas condições em que deve. Não aumente, por sua ação ou omissão, o risco de ter um derrame.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

A reabilitação cardíaca salva muitas vidas

O que é reabilitação cardíaca? Segundo o conhecido National Institute of Health, é um programa SIMPLES composto por

  • Exercícios sob supervisão;
  • Educação e informação sobre o funcionamento do sistema cardiovascular e sobre como o estilo de vida do paciente afeta esse sistema;
  • Terapia ou aconselhamento profissional;
  • Redução de estresse.

É simples e eficiente, uma grande ajuda a quem faz tratamento cardíaco ou de qualquer parte do sistema cardiovascular. Melhora as pessoas.

Nos Estados Unidos, cada ano 600 mil pessoas fazem algum tipo de cirurgia cardíaca, particularmente angioplastia, e todos poderiam se beneficiar muito do programa. Não sei quantos fazem cirurgias semelhantes no Brasil, mas suspeito que poucos façam um programa de reabilitação cardiovascular.

Vale a pena? A conhecida Mayo Clinic patrocinou um estudo com 2.400 pacientes que durou quatorze anos. Os resultados mostram que as taxas de sobrevivência dos que seguiram programas semelhantes são muito mais altas do que a dos demais.

Angioplastia é uma cirurgia que corrige erros do nosso estilo de vida e da nossa genética: artérias próximas ao coração ficam obstruídas com placas (aterosclerose) e a cirurgia aumenta artificialmente o diâmetro desses vasos sanguíneos para que o sangue possa circular. É importante saber que as placas podem e devem ser reduzidas desde muito tempo antes com dieta e exercício o que evita a cirurgia ou, pelo menos, a posterga por vários anos.

O programa tem tal impacto que quarenta por cento dos pacientes que assistiram pelo menos uma das sessões do programa tiveram uma redução importante nas taxas de mortalidade de todas as causas. A prazo, as diferenças se acumulam e são maiores: O Dr. Randal Thomas diz que os que fizeram o curso de reabilitação tem 50%.

Há críticas à pesquisa que afirmam que a população estudada é homogênea, ao que os autores respondem com o argumento forte de que mesmo de apenas 20% aumentarem a esperança de vida, são 120 mil pessoas!

Precisamos treinar – e muito – nossas enfermeiras e conscientizar – e muito – nossos cirurgiões que a guerra contra a doença e a morte continuam após a cirurgia.

GLÁUCIO SOARES

Doenças que achamos que temos, mas não temos….

Li um artigo na revista Hypocondria, escrito pela Dra. Sharon Orrange que poderá apaziguar algumas mentes. Trata de doenças que muitas pessoas pensam que têm, mas não têm e sofrem inutilmente.

Começo com um barra pesada: tumor no cérebro. Muitos que sentem uma simples e forte dor de cabeça se convencem de que têm um câncer no cérebro. As dores de cabeça são sintomas excepcionalmente comuns a muitas doenças e os médicos lidam com elas todos os dias. Já os tumores no cérebro são muito raros. Se você tem uma dor de cabeça, que pode ser forte, mas que melhora com um analgésico, a hipótese do tumor está quase descartada. Uma dor de cabeça séria que não melhora se acompanhada de outros sintomas como distúrbios visuais, desmaios, dormências etc. podem justificar uma ida ao médico, uma dor de cabeça, por si só, não indica tumor, ainda mais se melhora com analgésico.

Problemas nos rins. Pessoas com dores nas costas ou nos lados são pacientes regulares dos médicos. Muitos acham que estão com problemas nos rins, doenças nos rins, fracasso no funcionamento dos rins, até mesmo câncer nos rins. Raríssimas vezes é uma dessas doenças mais graves. Agora, se, juntamente com a dor nos rins, nas costas ou nos lados, você sentir dor quando faz xixi (dor ou queimação) já se justifica uma visita ao médico, sobretudo para tranqüilizar você. Problemas dos rins raramente geram dores cujas causas muito mais comuns são problemas musculares ou do esqueleto. Aí o tratamento é diferente: exercícios, fisioterapia, alongamento e anti-inflamatórios. A médica sugere um blog sobre dores nas costas:

http://www.dailystrength.org/health_blogs/dr-orrange/article/back-pain-should-i-worry-it-could-be-something-more-serious

Derrame. A Dra. Orrange sugere uma visita ao médico para lhe acalmar. Dormência na perna ou no braço enquanto você dorme ou fica deitado em cima não indicam derrame – e são reações muito comuns. Além disso, se você se levanta, anda, mexe com os braços e as pernas, os sintomas melhoram, a possibilidade de que seja derrame diminuem muito. Os mesmos sintomas dos dois lados do corpo praticamente eliminam a possibilidade de derrame. Mais uma vez, a Dra. Orrange remete o leitor a um artiguete dela:

http://www.dailystrength.org/health_blogs/dr-orrange/article/brain-attack-stroke-strikes-fast-you-should-too

Uma das doenças que mais nos metem medo é o linfoma. Os médicos recebem muitos pacientes preocupados com um inchaço debaixo da pele. A grande maioria são lesões benignas como os lipomas. Os nódulos linfáticos doentes crescem rapidamente e não permanecem do mesmo tamanho durante meses ou anos. Assim, se a lesão fica do mesmo tamanho, não muda, é um bom sinal.

A Dra. Orrange nos fala de parasitas e diarréias. Os parasitas não são causas freqüentes de diarréias, mas são muito mais comuns no Brasil do que nos Estados Unidos. Diarréias e estômagos complicados, barulhentos ou enjoados, que duram alguns dias dão medo. Os parasitas normalmente levam algum tempo para produzir reações mas, nas condições brasileiras talvez seja o caso de fazer um exame de fezes.

Com o envelhecimento da população, cresce a preocupação com doenças chamadas de “senis” como o mal de Alzheimer’s. É uma preocupação de muita, muita gente que só tem crescido. Estresse e depressão provocam sintomas interpretados como Alzheimer’s: esquecimentos, problemas na concentração, confusão mental, esquecer o nome das pessoas, de coisas que deveriam ser feitas, dos aniversários e de tantas coisas mais. Primeiro, é bom saber que Alzheimer e outros tipos de demência não são comuns entre os não idosos e que o estresse, a ansiedade, a depressão, a gravidez, problemas existenciais como os financeiros ou conjugais e até a gravidez e a menopausa provocam sintomas parecidos.

Os americanos chamam de “shingles” um tipo de virose de tipo herpes. A inflamação e outros sintomas provocados por essa doença são desagradáveis, podem ser dolorosos mas não cruzam a metade do seu corpo. Se os sintomas aparecem dos dois lados, não culpem os shingles.
Câncer do cólon e câncer do reto. A causa mais comum de sangramento nas fezes é uma hemorróida, mas os mais preocupados pensam que é câncer. Os exames preventivos periódicos, inclusive os exames anuais de fezes, são uma excelente maneira de tranqüilizar o espírito.

E o câncer no pulmão. É o maior medo dos fumantes, e com razão, Porém, daí a concluir que uma tosse qualquer é garantia de que está com câncer é um grande salto… Um resfriado ou gripe com freqüência trazem consigo tosses que duram muito tempo, muitos dias e até semanas. Tosse pós-infecções podem durar e durar – semanas.
A hérnia abdominal é outra preocupação freqüente entre pacientes da Dra. Orrange. Muitos com uma dor ou desconforto no baixo abdômen ou na virilha se convencem de que estão com uma hérnia. Hernias na virilha, ensina a Dra. Orrange, são comuns entre os homens e raras entre as mulheres. Com pouca freqüência esses sintomas indicam uma hérnia, mas por via das duvidas, convém checar.A idéia de escrever esse post foi muito influenciada pela matéria da Dra. Orrange e pelas preocupações de origem muitas vezes hipocondríacas com doenças e disfunções mais sérias do que que temos.

GLÁUCIO SOARES


Estresse e estressores

Acabo de receber um relatório resumido sobre o estresse da Harvard Medical School. Façamos um experimento: pense em cinco pessoas estressadas diferentes que você conhece, mas não das mesmas situações. Escolha gente da família, do trabalho ou da escola, entre os amigos, vizinhos etc. Faça uma lista para cada pessoa do que é que estressa. Pode perguntar. Acredito que a lista incluirá vários fatores que não são os mesmos para as pessoas. Eu mesmo fiz esse experimento e a lista é grande: um tem problemas com a saúde e desilusão com os colegas; outro tem diabete e problemas sérios com a esposa; outra tem problemas com o marido que bebe; outra tem problema porque os pais (e a família) não aceitam o namorado que foi casado com uma amiga da família; além disso, não se sente feliz na profissão; outra também tem problemas com o marido que bebe e a trai – e assim por diante. Esses fatores que provocam estresse são chamados de estressores e podem ser muito variados.
O estresse passa pela bioquímica do corpo. Sabemos isso há muito tempo, pelo menos desde um experimento feito por um fisiólogo chamado Walter Cannon. O que Cannon fez? Estressou um grupo de gatos, que estavam presos em jaulas (e protegidos dentro delas), colocando cachorros agressivos do lado de fora. Depois examinou os hormônios produzidos pelas glândulas adrenais dos gatos e isolou um que, quando injetados em outros gatos que não tinham sido estressados provocavam reações semelhantes. O que aconteceu com esses gatos? A pressão sanguínea aumentou muito, os batimentos cardíacos também dispararam, houve aumento das células brancas no cérebro e os gatos demonstraram reações que foram chamadas de “fright, fight or flight“. Medo, Luta ou Fuga.  O experimento provou que o estresse passa pelo sistema bioquímico e pela produção de alguns hormônios no caminho que provoca as reações observadas de Medo, Luta ou Fuga.
Outros experimentos demonstraram que os estressores são muitos e de vários tipos, alguns envolvendo atividades consideradas boas como o casamento ou a volta, através da conciliação, ao esposo(a) ou namorado(a), o nascimento de um filho ou filha etc. Muito estresse pode causar problemas de saúde, alguns sérios como úlceras, insônia, problemas cardíacos etc.
Os estressores não são todos iguais: uns estressam mais e outros menos. O que estressa mais e o que estressa menos variam de pessoa para pessoa e de cultura para cultura, assim como algumas das medidas para lidar com eles (ainda que outros não variem). Deus querendo, voltarei a tratar do tema.

Reduzindo o estresse

A Universidade de Iowa tem um excelente serviço de aconselhamento psicológico que produziu um manual para reduzir o estresse

  • O primeiro passo é identificar o que provoca estresse atualmente e como você está lidando com esses estressores.
  • Como identificar?
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    • Compile uma lista de coisas e condições que estão produzindo estresse na sua vida.
    • GADS: Usualmente, a primeira tarefa é gerar uma lista, ainda não é priorizar seus ítens.
    • O que entra nessa lista? Tudo o que te estressa, coisas como pressões na escola ou no trabalho; mudar de casa; pagamento de contas; uma conversa chata com uma pessoa etc. 
    • GADS: Se quizer, pode organizar a lista por importância, por facilidade de solução etc. Se não quizer, deixe a lista como está.
    • Faça um exame sério e honesto a respeito de como tu tens (ou costumas) lidar com situações estressantes. Avalia se são respostas saudáveis ou não; se contribuem para solucionar os problemas ou para piorá-los. Veja alguns exemplos: Respostas saudáveis e respostas não saudáveis

      saudável:-exercitar, fazer uma longa caminhada (reduz o estresse) –
    • Não saudável: beber.
      saudável:-criar tempo para se cuidar melhor e se preparar para a situação
    • Não saudável: evitar o evento; não enfrentar situações que precisam ser enfrentadas.
    • exemplo: visita ao médico – saudáveis – se preparar para a visita, fazer uma lista dos sintomas, fazer uma lista dos remédios que está tomando, fazer uma lista das dúvidas e perguntas; não saudáveis – não ir ao médico, fingir que o problema não existe, não comprar ou tomar o remédio.
    • mais exemplo de estresse: não equilibra sua vida (trabalha demais OU trabalha pouco; não se diverte OU se diverte demais e trabalha pouco)
    • saudável:-equilibrar sua vida, reservando tempo razoável para o trabalho, a família e a diversão. Aceitar que não dá para fazer tudo. Fazer uma agenda, aperfeiçoá-la e seguí-la;
    • Não saudável: empurrar com a barriga, não enfrentar os problemas, comer demais.

Esse é o início da redução do estresse.