A depressão pode piorar o câncer

Receber um diagnóstico de câncer é uma experiência que pode ser traumática. Da mesma maneira, é duro receber a notícia de que o câncer está avançando a despeito do tratamento. A depressão é uma resposta comum. Porém, pesquisas feitas com pacientes de canceres da mama e do fígado mostram que os que mantiveram uma postura otimista viveram mais tempo do que os que se entregaram à depressão.

Um grupo associado à UCLA pesquisou a relação entre depressão e o que acontecia com os pacientes de câncer da próstata. Alguns fatores nem sempre considerados contribuíram para que os resultados fossem piores e a sobrevivência fosse menor. Os deprimidos receberam tratamentos menos eficientes e os canceres avançaram mais rapidamente do que os que mantiveram um astral elevado. Muito importante, os deprimidos tiveram uma sobrevivência menor.

Quem ficou e quem não ficou deprimido? Os deprimidos eram mais velhos, mais pobres e tinham outras doenças. Ou seja, as condições que pensávamos que afetava a saúde mental, de fato, afetam.

Alguns caminhos através dos quais a depressão piora o prognóstico foram identificados: há preconceito contra doenças mentais, inclusive da parte do pessoal da saúde. Os deprimidos enveredavam por estilos de vida que conspiram contra a sobrevivência: se exercitavam menos (ou nada), cuidavam menos da dieta, não seguiam o tratamento à risca (uma percentagem maior abandonava todo e qualquer tratamento e se entregava) e assim por diante.

Não se conhece bem todos os caminhos de como a depressão afeta a biologia do câncer, mas se sabe que ela prejudica o sistema imune. Sabe-se, também, que os deprimidos não se transformam em instrumentos do seu próprio tratamento e possível cura. Infelizmente, essas são avenidas que não são levadas em sério pelos médicos e pelo sistema hospitalar. Ninguém ensina ninguém.

O conselho que emana dessas pesquisas é simples: não cuide apenas do câncer, cuide da depressão também. Saindo da depressão, estará ajudando a tratar o câncer.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

 

O pesquisador principal é o Dr. Jim Hu, da UCLA, Professor de Urologia. Publicado online no dia 10 de Julho de 2014, no Journal of Clinical Oncology.

A DEPRESSÃO PÓS UTI

As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) são um recurso hospitalar que quase todos conhecem: estiveram internados, visitaram alguém que estava, ou ouviram falar. A California Pacific Medical Center Informa que as UTIs são destinadas a pacientes em estado grave. Em um bom hospital, são atendidos por uma equipe especializada, que inclui, alem dos médicos, enfermeiras, terapeutas respiratórios e muito mais. Porque os pacientes estão em estado grave, nos bons hospitais, repito, nos bons hospitais, os pacientes são observados e monitorados com frequência. Usualmente, cada enfermeira tem, apenas, um a dois pacientes para cuidar. Os doutores também precisam ser treinados. Isso, em bons hospitais. Dependendo do caso e da sua gravidade, os pacientes podem ter equipamento especial no seu quarto, que pode assustar, particularmente se não houver chance ou treinamento para preparar psicologicamente o paciente. icu : Patient monitor icu pulse Stock Photo

Os pacientes ficam conectados a maquinas, as mais comuns monitorando as batidas cardíacas, a pressão, a respiração. Alguns pacientes necessitam de maquinas que produzem oxigênio e outros de equipamento que ajuda na respiração. Os monitores podem aumentar o estresse dos ansiosos.

Uma visão de sala de UTI com múltiplos leitos pode ajudar a entender:

 

Tudo isso pode meter medo.

No mencionado hospital, o número máximo de visitantes é dois. Os visitantes não devem entrar e sair (perturbações e aumento do risco de contaminação); não obstante devem ficar fora do quarto durante exames e tratamento.

Onde ficam?  Na sala de espera – e não batendo papo em outros quartos. É um bom momento para controlar a curiosidade e não bisbilhotar a respeito da doença de outros pacientes.

Quando há doenças infecciosas, não são permitidas as visitas simples.

Todas essas medidas contribuem para a segurança médica do paciente, mas podem provocar receio e causar uma sensação de solidão diante do perigo, que pode ser psicologicamente aumentado.

Qual o efeito de todas essas experiências sobre os pacientes depois que saem da UTI?

John Gever, em artigo publicado na MedPage Today, analisa algumas possibilidades. Acompanharam pacientes que foram internados, sobreviveram e saíram das UTIs.

Foram encontrados sintomas de depressão, perda de apetite, insônia e outros sintomas de depressão em um terço dos pacientes um ano após saírem da UTI. A depressão é a doença mental mais comum entre pacientes que estiveram na UTI, cinco vezes mais frequente do que o PTSD, desordem (ou transtorno) de estresse pós-trauma. James C. Jackson concluiu que esses pacientes somatizavam muito.  As limitações físicas contribuem para essa depressão, sugerindo um papel para a reabilitação física no tratamento da depressão pós-UTI. Jackson sugere o maior uso de medidas e ações que ajudassem, onde possível, os pacientes a manter um nível físico razoável ainda durante a internação.

Em situações brasileiras, nas que a assistência médica pós-UTI pode ser precária ou nenhuma, os familiares e amigos dos pacientes (ou quem quer que os cuide) devem ter presente esses resultados, leva-los e discuti-los com seus médicos, e lidar com a depressão do paciente, mesmo que el@ negue a depressão, sem abandonar a parte física, que parece ser importante.

Tudo a ser discutido com um bom médico, formado em boas universidades, que participe de congressos e conferências, e que continue se atualizando.

 

GLÁUCIO SOARES                                            IESP-UERJ

Os Paradoxos da Felicidade

Existe uma área nova de pesquisas – sobre a felicidade. Considerada uma das condições mais importantes da humanidade, a felicidade quase não era seriamente estudada – até pouco tempo. Isso mudou: Ruut Veenhoven nos apresenta uma enorme bibliografia e um bem cuidado data base.

Os americanos, e não somente eles, distinguem entre dois tipos de felicidade:

  1. Felicidade através de pessoas
  2. Felicidade  através de coisas

Creio que poderíamos acrescentar uma terceira via, a felicidade através do espírito.

Como trabalhar cientificamente com um conceito tão difícil quanto a felicidade? Não há medida exata, critérios unânimes. Mas a existência de pessoas “que têm tudo para serem felizes e não o são” mostra a importância de tratar o conceito subjetivamente. Feliz é quem se considera feliz!

A auto-definição da felicidade, que pode incluir graus (muito, bastante, pouco etc.), havendo os que tentaram medí-la de maneira mais exata, com escalas de intervalo, passou a ser o conceito operacionalizável dominante. Com base nesse conceito e em medidas baseadas nele, muitas pesquisas foram realizadas nas últimas décadas.

Economistas clássicos, neo-liberais e marxistas pensam a felicidade com alguma semelhança, a partir da riqueza e dos bens à disposição de cada um. A primazia, que não se discute, é dos fatores econômicos. As brigas são internas, um grupo contra o outro.

E os dados? O que dizem os dados? Comparando países o resultado é claro para os que usam o World Value Survey: os habitantes dos países mais ricos, na média, são mais felizes e, dentro dos países, os com mais recursos também tendem a ser mais felizes. Quando comparamos um conjunto maior de países, chegamos aos mesmos resultados: há uma correlação entre a renda per capita dos países e a satisfação com a vida, por um lado, e a auto-avaliação da felicidade, pelo outro – quanto maior a renda per capita (PPP), maior a satisfação e a felicidade –  mas as correlações não são muito altas, permitindo muitos desvios.

Há problemas para generalizar:  se, tomando o mundo como um todo, a associação é válida, há regiões nas quais a associação é nula ou quase nula. A América Latina é uma delas. Entre países latino-americanos, a Argentina, com 12,704.0, tinha a renda mais elevada na época do survey; não obstante, os argentinos avaliavam a sua felicidade abaixo de sete países com renda per capita mais baixa, inclusive a Guatemala que tinha uma renda três vezes menor.

O paradoxo é ainda maior quando consideramos o crescimento econômico recente. Tomando, de cada vez, grupos de países com níveis semelhantes de renda, os que mais tinham crescido eram os que tinham populações menos satisfeitas com a própria vida. Talvez a poupança obrigatória e outros sacrifícios necessários para crescer rapidamente onerem uma parte considerável da população.

Há tetos e há mínimos: a fome conta, na direção intuitiva. Porém, a partir de um consumo mínimo de calorias e de segurança física, doses adicionais de bens materiais não aumentam muito a felicidade das pessoas.

E a duração? Quanto dura a felicidade? Larsen e McKibban concluíram que as pessoas se acostumam com os bens materiais que possuem e que, uma vez adquiridos, eles influenciam cada vez menos a felicidade. Quem quer e adquire, é feliz por pouco tempo; quem quer e não pode adquirir continua infeliz. Evidentemente, quem não quer não é infeliz…

A avaliação da felicidade varia muito menos do que a renda per capita (PPP), o que gera alguns problemas. São escalas diferentes. A renda varia muito mais do que as avaliações dos países e da própria felicidade.

O paradoxo também se aplica a áreas específicas: os mais educados, usualmente, são os mais críticos e menos satisfeitos com a qualidade da educação no país.

A distância entre os dados objetivos e as percepções subjetivas não se limitam à felicidade:  o mesmo acontece em muitas outras áreas. Vejamos a segurança: O Uruguai, o Chile, a Costa Rica e a Argentina eram os países latino-americanos com taxas mais baixas de homicídio de acordo com a pesquisa. Não obstante, suas populações estavam entre as mais insatisfeitas com o nível de segurança, crime e violência nos seus respectivos países – mais de 60% no caso da Argentina e do Uruguai.

Há, portanto, exceções, e muitas, separando os dados “objetivos” das sensações e percepções.

Problema resolvido? Longe disso. Além das muitas exceções, há outros tipos de dados que chamam a atenção para o papel de outras variáveis. Os pesquisadores irlandeses Doherty e Kelly mostram, além de uma grande variação entre os países europeus, que os jovens se consideram mais felizes, os que estão satisfeitos com sua renda estão mais felizes (há muitos com renda alta, mas que querem mais e se consideram infelizes e há muitos com renda baixa, satisfeitos com o que têm, que se consideram felizes), o desemprego também diminui a felicidade (a despeito da proteção social em muitos países europeus). A confiança nos demais e na sociedade em que vivem aumenta a felicidade e ter crenças religiosas também aumenta a felicidade, o que coloca a felicidade individual num contexto maior, social e nacional. Mas a felicidade continua sendo em boa medida, inexplicada: apenas entre uma quinta e uma quarta parte na variância entre as pessoas está explicada. E o resto? E a maior parte da variância?

Não sabemos, e não adianta chutar.

Analisando os dados de vários anos desse mesmo survey, usando uma estratégia chamada de tree analysis, surgiram coisas novas: a saúde, tal qual avaliada pelo indivíduo, era o primeiro determinante da felicidade.  Talvez muitas das influências sobre a felicidade passem pela saúde. Os idosos, com menos saúde do que os jovens, se consideram menos felizes. Definida a saúde como variável primordial, surgem duas outras, a família e a religião, que trocam de lugar na hieraquia explicativa de acordo com a saúde.

Religião? É. A grande maioria das pesquisas concluir que os religiosos são mais felizes e enfrentam melhor as agruras da vida, mas a pesquisadora canadense Sandy L. Anger. Primeiro, concluiu que a maioria da população canadense se considera “algo feliz”, “mais ou menos feliz” – não muito feliz, nem infeliz, muito ou pouco.  Uma supresa: no Canadá, as pessoas não religiosas tendem a ser um pouco mais felizes do que as religiosas, mas os religiosos praticantes são mais felizes. Isso dificulta, mas não contradiz, a explicação baseada na endogenia: as pessoas doentes e infelizes procurariam a religião. Se aceitarmos essa explicação, teremos que aceitar que as que efetivamente se integram a uma igreja e participam mais das suas atividades
mudam o seu nível de felicidade para cima. Quem frequenta mais é mais feliz. A explicação laica para esse fato se baseia no apoio social, inter-pessoal e no combate à solidão.

O estudo da felicidade é área recente, cheia de promessas e de resultados contraditórios. Uma pesquisa patrocinada pelo BID mostra uma relação entre a avaliação que a cidadania faz do país e a avaliação que ela faz de si mesma. Essa é uma área promissora de expansão: a relação entre indivíduo e sociedade, entre indivíduo e estado. Afinal, vivemos em sociedade, gerenciados, bem ou mal, por um estado.

 Gláucio Ary Dillon Soares