Vitamina D contra a depressão

Uma pesquisa recente sugere um novo benefício para a vitamina D. Uma pesquisa entre mulheres que sofriam de depressão – moderada ou severa – revelou que, após um tratamento com vitamina D, os sintomas da depressão estavam menores e menos pesados. Essas mulheres não mudaram outros tratamentos, particularmente o(s) antidepressivo(s) que tomavam, deixando claro que os efeitos se deviam à unica mudança, que foi um regime de suplementação da vitamina D.

Os autores concluíram que as deficiências eram responsáveis pelo agravamento da depressão. O modelo explicativo com base em deficiências significa que, corrigida a deficiência, doses adicionais de vitamina D não produziriam efeitos benéficos, podendo causar efeitos negativos.

Determinar a quantidade ideal de vitamina D que devemos receber diariamente é um problema ainda não solucionado. Sabemos, apenas, quando há claras deficiências e claros excessos, sendo que as duas situações produzem efeitos indesejáveis. Porém, entre elas há um amplo “meio” e o tratamento adequado depende de onde deixamos o ponteiro. Note-se que as recomendações da quantidade de vitamina C são baseadas em especulações a respeito de médias e medianas, havendo amplo espaço para variações entre os indivíduos.

GLÁUCIO SOARES           IESP/UERJ

 

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Algumas modificações comportamentais associadas com a depressão

A depressão, como notam vários autores, é uma doença mental que afeta a mente e o corpo também. Ela altera funcionamento e rítmo, não necessariamente na mesma direção em todos os casos.

Um dos rítmos alterados é o sono. Seus distúrbios podem ser sinais de depressão. A maioria dos afetados sofre de insônia: uns com dificuldades em dormir; outros acordam no meio da noite e não conseguem voltar ao sono e terceiros enfrentam os dois problemas. Não obstante, há deprimidos que dormem em excesso. Reitero: o efeito pode ser em diferentes direções; o que é comum é a alteração dos padrões para longe da normalidade.   

Outra característica é a fadiga, o cansaço e a exaustão. Muitas doenças e seu tratamento provocam essas respostas, sendo difícil ponderar, distribuir a importância: uma doença x, seu tratamento ou a depressão.

Porém, entre pessoas que sofrem de depressão, mas não de outra doença (não há co-morbidade) é difícil separar o que causa o quê. Isso porque a depressão e a fadiga se estimulam. Uma estimula a outra.

O que dizem os dados?

Os clinicamente deprimidos apresentam fadiga e cansaço numa taxa quatro vezes mais alta do que os que não sofrem de depressão. Mas o cansaço e a fadiga de outra origem também afetam vários comportamentos que defendem o paciente contra a depressão. Quem sofre de fadiga multiplica por três a probabilidade de ficar deprimido. Esses fatores se estimulam uns aos outros. Pragmaticamente, fique de olho em pessoas com fadiga e cansaço constantes: podem estar clinicamente deprimidos.

Mudanças no peso e/ou no apetite também podem indicar depressão. Mas que mudanças? Em que direção?

Pode ser nas duas: comer menos do que o necessário ou comer mais do que o necessário. Algumas pessoas deprimidas não conseguem parar de comer (consequentemente, engordam, o que em vários casos aumenta a depressão). Já outras perdem totalmente o apetite. Emagrecem e perdem peso rapidamente. E, rapidamente, chegam também a falta de energia, a fadiga e o cansaço. Algumas pesquisas ligam a depressão à bulímia e à anorexia, particularmente entre mulheres deprimidas.

Dores?

É, dores. Os deprimidos aumentam o risco de sofrer de dores de vários tipos e em vários lugares. Uma das mais comuns é a dor de cabeça. Pessoas seriamente deprimidas têm tres vezes mais enxaquecas do que pessoas sem depressão. Lendo na outra direção, pessoas com enxaquecas têm uma taxa de depressão séria cinco vezes mais elevada do que as que não têm enxaquecas. Uma vez mais, um mal alimenta o outro.

Outra dor, parte frequente dessa síndrome, é nas costas. Dores permanentes, crônicas, nas costas são comuns e alimentam a depressão. Porém, muitos deprimidos deixam de fazer coisas que combatem as dores nas costas (como exercícios) e fazem coisas que contribuem para aumentá-las, como sentar durante horas comendo e vendo televisão. Os deprimidos clínicos reclamam de dores nas costas e no pescoço quatro vezes mais do que os não deprimidos. Essas dores podem ser intensas e impedir a cura ou melhoria.

Há mais dores. As dores musculares e nas articulações tendem a acompanhar os deprimidos e vice-versa. Há pesquisas que sugerem que dor e depressão usam os mesmos mensageiros químicos. O dado: os deprimidos têm um risco três vezes mais elevado de sofrer de dores crônicas do que os não deprimidos.

Outro tipo de dor, talvez mais perigoso, é no peito. Por que? Porque há doenças ainda mais sérias, como doenças cardíacas e alguns cânceres que apresentam esse sintoma. Mais uma vez, a circularidade causal: doenças cardíacas levam à depressão e a depressão aumenta o risco de doenças  cardíacas. Quem enfartou e/ou teve outros problemas cardiovasculares sérios aumenta o risco de ter depressão.

Creio que quase todos observaram que as pessoas com depressão apresentam sintomas de problemas digestivos com mais frequência do que as demais: náusea, diarréia (ou prisão de ventre…) etc.

As pessoas deprimidas podem ser mais facilmente irritáveis. Ainda que haja muitas causas para a irritabilidade, a depressão é uma das mais relevantes.

Depressão e problemas sexuais também andam juntos. A depressão séria afeta a libido, seja diretamente, seja através de comportamentos relacionados, como as adições ao álcool e às drogas, ou a falta de exercícios.

Quase todas as semanas recebo dados e resumos de pesquisas que demonstram a utilidade dos exercícios sobre uma extensa gama de comportamentos e sentimentos humanos. Os exercícios reduzem a depressão, mas essa doença sabota os exercícios através de muitos de seus comportamentos associados e consequências, como fadiga, dores e mais.

A depressão acompanha doenças como o câncer, as cardio-vasculares e aumenta o risco de suicídio. Por isso, identificá-la o mais cedo possível, e tratá-la ajuda no combate a esses males.

 

GLÁUCIO SOARES               IESP/UERJ

Os Paradoxos da Felicidade

Existe uma área nova de pesquisas – sobre a felicidade. Considerada uma das condições mais importantes da humanidade, a felicidade quase não era seriamente estudada – até pouco tempo. Isso mudou: Ruut Veenhoven nos apresenta uma enorme bibliografia e um bem cuidado data base.

Os americanos, e não somente eles, distinguem entre dois tipos de felicidade:

  1. Felicidade através de pessoas
  2. Felicidade  através de coisas

Creio que poderíamos acrescentar uma terceira via, a felicidade através do espírito.

Como trabalhar cientificamente com um conceito tão difícil quanto a felicidade? Não há medida exata, critérios unânimes. Mas a existência de pessoas “que têm tudo para serem felizes e não o são” mostra a importância de tratar o conceito subjetivamente. Feliz é quem se considera feliz!

A auto-definição da felicidade, que pode incluir graus (muito, bastante, pouco etc.), havendo os que tentaram medí-la de maneira mais exata, com escalas de intervalo, passou a ser o conceito operacionalizável dominante. Com base nesse conceito e em medidas baseadas nele, muitas pesquisas foram realizadas nas últimas décadas.

Economistas clássicos, neo-liberais e marxistas pensam a felicidade com alguma semelhança, a partir da riqueza e dos bens à disposição de cada um. A primazia, que não se discute, é dos fatores econômicos. As brigas são internas, um grupo contra o outro.

E os dados? O que dizem os dados? Comparando países o resultado é claro para os que usam o World Value Survey: os habitantes dos países mais ricos, na média, são mais felizes e, dentro dos países, os com mais recursos também tendem a ser mais felizes. Quando comparamos um conjunto maior de países, chegamos aos mesmos resultados: há uma correlação entre a renda per capita dos países e a satisfação com a vida, por um lado, e a auto-avaliação da felicidade, pelo outro – quanto maior a renda per capita (PPP), maior a satisfação e a felicidade –  mas as correlações não são muito altas, permitindo muitos desvios.

Há problemas para generalizar:  se, tomando o mundo como um todo, a associação é válida, há regiões nas quais a associação é nula ou quase nula. A América Latina é uma delas. Entre países latino-americanos, a Argentina, com 12,704.0, tinha a renda mais elevada na época do survey; não obstante, os argentinos avaliavam a sua felicidade abaixo de sete países com renda per capita mais baixa, inclusive a Guatemala que tinha uma renda três vezes menor.

O paradoxo é ainda maior quando consideramos o crescimento econômico recente. Tomando, de cada vez, grupos de países com níveis semelhantes de renda, os que mais tinham crescido eram os que tinham populações menos satisfeitas com a própria vida. Talvez a poupança obrigatória e outros sacrifícios necessários para crescer rapidamente onerem uma parte considerável da população.

Há tetos e há mínimos: a fome conta, na direção intuitiva. Porém, a partir de um consumo mínimo de calorias e de segurança física, doses adicionais de bens materiais não aumentam muito a felicidade das pessoas.

E a duração? Quanto dura a felicidade? Larsen e McKibban concluíram que as pessoas se acostumam com os bens materiais que possuem e que, uma vez adquiridos, eles influenciam cada vez menos a felicidade. Quem quer e adquire, é feliz por pouco tempo; quem quer e não pode adquirir continua infeliz. Evidentemente, quem não quer não é infeliz…

A avaliação da felicidade varia muito menos do que a renda per capita (PPP), o que gera alguns problemas. São escalas diferentes. A renda varia muito mais do que as avaliações dos países e da própria felicidade.

O paradoxo também se aplica a áreas específicas: os mais educados, usualmente, são os mais críticos e menos satisfeitos com a qualidade da educação no país.

A distância entre os dados objetivos e as percepções subjetivas não se limitam à felicidade:  o mesmo acontece em muitas outras áreas. Vejamos a segurança: O Uruguai, o Chile, a Costa Rica e a Argentina eram os países latino-americanos com taxas mais baixas de homicídio de acordo com a pesquisa. Não obstante, suas populações estavam entre as mais insatisfeitas com o nível de segurança, crime e violência nos seus respectivos países – mais de 60% no caso da Argentina e do Uruguai.

Há, portanto, exceções, e muitas, separando os dados “objetivos” das sensações e percepções.

Problema resolvido? Longe disso. Além das muitas exceções, há outros tipos de dados que chamam a atenção para o papel de outras variáveis. Os pesquisadores irlandeses Doherty e Kelly mostram, além de uma grande variação entre os países europeus, que os jovens se consideram mais felizes, os que estão satisfeitos com sua renda estão mais felizes (há muitos com renda alta, mas que querem mais e se consideram infelizes e há muitos com renda baixa, satisfeitos com o que têm, que se consideram felizes), o desemprego também diminui a felicidade (a despeito da proteção social em muitos países europeus). A confiança nos demais e na sociedade em que vivem aumenta a felicidade e ter crenças religiosas também aumenta a felicidade, o que coloca a felicidade individual num contexto maior, social e nacional. Mas a felicidade continua sendo em boa medida, inexplicada: apenas entre uma quinta e uma quarta parte na variância entre as pessoas está explicada. E o resto? E a maior parte da variância?

Não sabemos, e não adianta chutar.

Analisando os dados de vários anos desse mesmo survey, usando uma estratégia chamada de tree analysis, surgiram coisas novas: a saúde, tal qual avaliada pelo indivíduo, era o primeiro determinante da felicidade.  Talvez muitas das influências sobre a felicidade passem pela saúde. Os idosos, com menos saúde do que os jovens, se consideram menos felizes. Definida a saúde como variável primordial, surgem duas outras, a família e a religião, que trocam de lugar na hieraquia explicativa de acordo com a saúde.

Religião? É. A grande maioria das pesquisas concluir que os religiosos são mais felizes e enfrentam melhor as agruras da vida, mas a pesquisadora canadense Sandy L. Anger. Primeiro, concluiu que a maioria da população canadense se considera “algo feliz”, “mais ou menos feliz” – não muito feliz, nem infeliz, muito ou pouco.  Uma supresa: no Canadá, as pessoas não religiosas tendem a ser um pouco mais felizes do que as religiosas, mas os religiosos praticantes são mais felizes. Isso dificulta, mas não contradiz, a explicação baseada na endogenia: as pessoas doentes e infelizes procurariam a religião. Se aceitarmos essa explicação, teremos que aceitar que as que efetivamente se integram a uma igreja e participam mais das suas atividades
mudam o seu nível de felicidade para cima. Quem frequenta mais é mais feliz. A explicação laica para esse fato se baseia no apoio social, inter-pessoal e no combate à solidão.

O estudo da felicidade é área recente, cheia de promessas e de resultados contraditórios. Uma pesquisa patrocinada pelo BID mostra uma relação entre a avaliação que a cidadania faz do país e a avaliação que ela faz de si mesma. Essa é uma área promissora de expansão: a relação entre indivíduo e sociedade, entre indivíduo e estado. Afinal, vivemos em sociedade, gerenciados, bem ou mal, por um estado.

 Gláucio Ary Dillon Soares