Avanços na sobrevivência de cânceres

As notícias vindas do Reino Unido são boas, mas não ótimas. Houve um avanço considerável na sobrevivência (dez anos depois do diagnóstico) dos adultos em alguns cânceres nos quarenta anos de 1971-2 a 2010-11, melhorias em outros e quase estagnação em alguns nos quais a ciência ainda não encontrou o caminho, particularmente os do pulmão e do pâncreas. Houve pouco progresso no tratamento de cânceres do esôfago, do estomago e do cérebro. Do lado bom da escala, a sobrevivência do câncer dos testículos está próxima de cem por cento (98%), um avanço bem-vindo desde os 69% de quatro décadas atrás. O temível melanoma está sendo domado: a sobrevivência aos dez anos deu um salto, de 46% para 89%.

No conjunto, metade dos cancerosos sobrevive dez anos ou mais. Dez anos depois do diagnóstico, metade está viva. É um avanço: na média, entre os que foram diagnosticados no início da década de 70, somente um quarto estava viva depois. Um câncer que obteve um aumento substancial na sobrevivência foi o de mama, graças em parte considerável à mobilização e à politização das mulheres: de 40% para 78%. Aliás, as mulheres se beneficiaram mais das melhorias do que os homens: das diagnosticadas (de todos os cânceres) recentemente, 54% devem sobreviver, pelo menos, dez anos, bem mais do que os 46% dos homens. Parte da diferença se explica pelo fato de que os homens continuam a fumar e beber mais do que as mulheres. Em 1974, 51% dos homens adultos britânicos fumavam, dez por cento a mais do que as mulheres adultas. Em 2012, essas percentagens eram de 22 e 19, respectivamente (Fonte: http://www.ash.org.uk). Não tenho dúvidas de que a redução no fumo contribuiu muito para a redução da mortalidade por câncer. Infelizmente, o quadro do consumo de bebidas alcoólicas não é positivo: aumentou de 1974 a 2013, a despeito de uma redução a partir de 2004. Tomando a Inglaterra em separado, pesquisa feita em 2011 revelou que 39% dos homens e 28% das mulheres tinham bebido mais do que o nível máximo recomendado. Esse nível é mais alto no caso dos homens, o que significa que as diferenças absolutas no consumo de álcool entre os sexos é ainda maior. Há vários cânceres com relações com o consumo excessivo de álcool.

E o câncer da próstata? Os dados mostram que 94% estavam vivos um ano depois do diagnóstico, 85% cinco anos depois e 84% dez anos depois. Avançou muito em relação a outros cânceres: entre os diagnosticados no início da década de setenta, havia seis cânceres com melhor sobrevivência (entre os individualizados no gráfico abaixo), mas a projeção a respeito dos diagnosticados quarenta anos depois é que somente os diagnosticados com câncer testicular e com melanoma terão sobrevivência maior aos dez anos.
Esses são os dados britânicos. A sobrevivência é mais alta nos Estados Unidos e deve
[i] ser muito mais baixa no Brasil. Nossa saúde pública deixa muitíssimo a desejar.

O objetivo de todo departamento da ciência médica é, claro, a cura. Até agora, temos tido avanços graduais e cumulativos, como é o caso do câncer da próstata, ou grandes avanços devido a inovações no tratamento.

 

 

 

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Ver: Adult 10-year net survival, England & Wales Credit: Cancer Research UK


[i] Os dados brasileiros são pouco confiáveis.

As inflamações crônicas e o câncer da próstata

As inflamações crônicas tendem a ser colocadas no rol das coisas chatas da vida. E só. Porém, são mais que isso: elas estão associadas a problemas cardiovasculares e a cânceres. Surge, agora, mais uma série de dados associando-as ao câncer da próstata. Um grupo de pesquisadores tendo como responsável Bora Gurel da prestigiosa Johns Hopkins em Baltimore, comparou o resultado das biópsias de 191 pacientes de câncer da próstata e 209 controles que tinham participado do grupo placebo de outra pesquisa. Eles analisaram o tecido não canceroso das biópsias e descobriram que havia mais inflamações crônicas entre os cancerosos do que entre os não cancerosos. Usaram três amostras e os cancerosos tinham tecido inflamado em pelo menos uma das amostras em 86% dos casos, significativamente mais do que 78% entre os não cancerosos. Isolando os casos de câncer agressivo (Gleason de 7 ou mais), a relação é mais clara: a razão de risco é de 2,24.

A que conclusões chegaram os autores?

1) As inflamações são comuns em tecido não canceroso;

2) Elas estão associadas com a presença de câncer em outras células do paciente, particularmente no caso de células agressivas, com pouca diferenciação (Gleason alto).

É preciso cuidado com as inflamações crônicas, inclusive com as que rebaixamos a meras chateações.

É possível reforçar os anti-inflamatórios na dieta. Omega-3 faz isso. As “spices” também, particularmente gengibre, açafrão, alecrim, Boswella, matricária. E o chá verde também.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Planos de saúde cobrem mais do que se pensa

 

Recebi do meu querido amigo, Lauro Morhy, excelente biólogo e ex-Reitor da Universidade de Brasília, a seguinte Boa Nova:

 

http://joannaporto.jusbrasil.com.br/artigos/116287115/planos-de-saude-passam-a-cobrir-tratamento-para-cancer-em-casa?utm_campaign=newsletter&utm_medium=email&utm_source=newsletter

Planos de saúde passam a cobrir tratamento para câncer em casa

A maioria dos usuários desconhece a informação, mas desde janeiro está em vigor uma nova norma de cobertura para os “planos de saúde”. Entre os benefícios, usuários passaram a ter direito a 37 drogas orais indicadas para o tratamento de 56 tipos de câncer, além de 50 novos procedimentos como exames, consultas e cirurgias. As novas regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) têm por objetivo beneficiar 42 milhões de consumidores de planos de assistência médica e outros 18 milhões em planos exclusivamente odontológicos, individuais e coletivos, em todo o país.

Segundo a advogada especializada em direito do Consumidor na área da saúde, Joanna Porto, os pacientes de câncer já tinham alguns direitos, como a obrigação do plano em custear o tratamento quimioterápico e de radioterapia, além de exames e demais tratamentos prescritos pelos médicos. Mas, agora, pela primeira vez, em razão da resolução normativa publicada pela ANS, os planos de saúde terão de cobrir os custos com medicamentos via oral, que antes só eram conseguidos através de ação Judicial, para o tratamento do paciente em casa.

Com essa inclusão, passam a ser ofertados remédios para o tratamento de tumores de grande prevalência na população como estômago, fígado, intestino, rim, testículo, mama, útero e ovário. Pela nova resolução, segundo Joanna Porto, “a forma de distribuição desses medicamentos ficará a cargo de cada operadora”.

Ainda segundo a especialista, “se o plano de saúde der cobertura à doença do beneficiário, todo tratamento prescrito pelo médico deverá ser custeado.”

O fornecimento da medicação oral contra o câncer era uma das demandas mais antigas dos usuários de planos e dos médicos. “O tratamento quimioterápico, através de medicamentos, teve um destaque muito grande no número de negativas de procedimentos pelos planos”, conta Joanna Porto. “Esse número gritante de reclamações, e também de ações judiciais, chamou atenção da ANS para incluir os medicamentos como cobertura obrigatória.”

Essas drogas funcionam como um tipo de quimioterapia. São mais modernas, causam menos efeitos colaterais e podem ser administradas em casa, evitando gastos com as internações. Mas, conforme explica a especialista, “essa determinação só vale para os planos novos, ou seja, os contratos firmados após a Lei 9656/98, embora o Tribunal de Justiça tenha o entendimento de que os usuários de planos antigos também possuem o direito.”

Segundo Joanna, os planos terão de arcar, por exemplo, com o tratamento com capecitabina (Xeloda), indicada para o tratamento de câncer de mama metastático. Cada caixa deste medicamento custa em média R$ 2,5 mil. Também está garantida a obrigatoriedade do fornecimento de acetato de abiraterona (Zytiga), usado para câncer de próstata, que custa quase R$ 11 mil. O gefitinibe (Iressa), para câncer de pulmão, custa R$ 4 mil.

No caso de operadoras que não cumprirem a cobertura obrigatória, os consumidores devem entrar em contato com o Disque ANS, no0800 701 9656, para fazer denúncias ou comparecer a um dos 12 núcleos da agência instalados em todas as regiões do país. A ANS informa que as operadoras que não cumprirem a cobertura estão sujeitas a multa de R$ 80 mil por infração cometida.

“Além de denunciar na ANS para que os planos sejam administrativamente punidos, o consumidor tem ainda o recursos de ingressar com ação judicial para garantir o custeio do seu tratamento”, esclarece Joanna Porto.

De acordo com a ANS, a inclusão das novas coberturas é avaliada por um ano e, caso a agência identifique impacto financeiro, este será avaliado no reajuste do ano seguinte, que é 2015. Pelas regras atuais, a ANS estabelece o reajuste apenas para os planos individuais e familiares e pode apenas sugerir o reajuste para os planos coletivos, que atendem a maior parte dos usuários.

Confira a lista completa de inclusões do Rol 2014 http://www.ans.gov.br/images/stories/noticias/pdf/20131021_ro2014_tabela%20procedimentos%20rol.pdf

Genética e câncer da próstata

 

Uma das revistas eletrônicas que subscrevo, a Johns Hopkins Health Alert, levanta a questão: até que ponto o câncer da próstata é transmitido geneticamente?

O problema não pode ser entendido de maneira simples: é/não é geneticamente determinado. Há muitas causas possíveis que interagem durante muito tempo para provocar um câncer da próstata.

Não obstante, há dados que mostram que o risco de desenvolver esse câncer dobra se o pai ou irmão tiver (ou tiver tido e curado) esse câncer. Se o parente canceroso for mais distante, tio ou avô, há um aumento menor no risco. Muito do que se sabe nessa área deriva da comparação entre irmãos univitelinos e bivitelinos. A herança genética conta, mas não é decisiva por si só. A chance de que univitelinos tenham o câncer é mais alta, mas coincidem em apenas 27% das observações.

Observamos um claro avanço do conhecimento sobre a genética humana a partir do mega-estudo chamado de human genome. Há muita contribuição de fatores genéticos, mas o estilo de vida também pesa e pesa muito.

Ter um parente próximo com essa doença faz com que os órgãos da saúde recomendem exames periódicos do PSA: uns recomendam anuais depois dos 40; outros de dois em dois anos depois dos 50. Não há uniformidade. Acompanhar o PSA, para ver suas alterações, é uma das recomendações para quem tem parentes próximos com câncer da próstata.

 

GLÁUCIO SOARES       IESP/UERJ

 

 

PEQUENAS DOSES DE ASPIRINA CONTRA O CÂNCER DA PRÓSTATA

Uma pesquisa confirma resultados anteriores: uma pequena dose de aspirina regularmente aumenta a sobrevivência de homens que fizeram cirurgia e/ou radiação para o câncer da próstata. Kevin Choe, em trabalho publicado no Journal of Clinical Oncology, revela que uma análise de seis mil pacientes que os subdividiu em dois grupos, os que tomavam regularmente um dos anticoagulantes comuns, encontrou diferenças significativas depois de dez anos: 3% no grupo que tomava anticoagulantes regularmente por prescrição médica, e 8% entre os que não tomavam. A diferença é estatisticamente significativa. O risco de “volta” do câncer e de metástase também era significativamente mais baixo. Esse benefício se deveu, principalmente, às pequenas doses de aspirina. Como a aspirina é anticoagulante e idosos frequentemente tomam outros anticoagulantes, como warfarina, a dose tem que ser calculada para não provocar hemorragia.

 

 

    GLÁUCIO SOARES          IESP/UERJ    

 

Erros e acertos dos testes de PSA

Uma pesquisa da Clínica Mayo ajuda a entender o atual debate sobre a questão de testar ou não testar sistematicamente a população masculina com o exame de PSA. Acompanharam o grupo, na mediana, durante 16,8 anos. Os homens que tinham PSA inferior a 1 ng/ml não desenvolveram canceres agressivos. Nenhum dos que tinham esse nível desenvolveu uma forma agressiva e perigosa do câncer, ainda que fossem relativamente jovens, com menos de 50 anos. 

Christopher Weight informou a Sociedade Americana de Urologia que a incidência, com PSA’s nesse baixo nível, era <1% entre os com 55 e <3% entre os com 60 anos de idade.

Ou seja, uma só medida de PSA, se for o suficientemente baixa, parece garantir que poucos terão câncer e que esse câncer não causará preocupações porque não será agressivo.

O panorama muda se o PSA estive acima de 1 ng/ml. Olhando os dados resultantes das práticas americanas, concluíram que o risco de que fariam uma biópsia sob recomendação médica era alto. Esses homens devem repetir os testes de ano em ano. Mais prudentes do que o que está sendo proposto, recomendam que os homens de 40 anos com esses baixos níveis só voltem a ser testados aos 55.

Essa pesquisa começou em 1990, com amostra de homens entre 40 e 49 anos do condado de Olmsted, em Minnesota, e foram submetidos ao teste de PSA, toque retal, e um ultrassom através da uretra, quando entraram no programa e a cada dois anos depois disso. O resultado indica que poderiam ter esperado até os 55 para fazer novo teste.

Foram diagnosticados seis casos de câncer da próstata, uma taxa de incidência de 1,6 por mil pacientes/ano; porém se o PSA era igual ou superior a 1, doze pacientes desenvolveram o câncer – uma taxa de incidência de 8,3 por mil pacientes/ano.

Dois homens no grupo mais alto acabaram sendo diagnosticados com uma forma agressiva do câncer, em contraste com nenhum no grupo com PSA mais baixo. Mesmo assim, transcorreu muito tempo: 14,6 anos no grupo de baixo risco e 10,3 no grupo de mais alto risco. 

Esses estudos ajudam a aliviar a pressão sobre aqueles que apresentam um resultado baixo, mas o grosso dos homens não apresenta PSAs tão baixos. 

É por aí que, creio, a implementação de diretrizes progredirá: individualizar o risco por nível de PSA na origem, aliviando uma parcela relativamente pequena dos que tiverem um resultado baixo, recomendando novo teste apenas muitos anos depois, e os com PSAs muito altos, ao contrário, deveriam ser acompanhados frequentemente. Elimina dois grupos extremos, mas o grosso está no meio e, para eles, as diretrizes são menos claras.

Esses estudos permitem concluir que temos necessidade de testes mais exatos que seriam adicionados aos existentes, reduzindo muito os erros; porém também colocam a boca no trombone a respeito das terapias usadas, que, idealmente, deveriam ser substituídas por outras com menos efeitos colaterais.



GLÁUCIO SOARES            IESP/UERJ

 

PSA: testar ou não testar?

O debate continua intenso a respeito das vantagens e desvantagens de testar o PSA de homens de maneira rotineira. Claro que são homens sem sintomas, sem casos de câncer da próstata na família. Como a incidência e a prevalência desse câncer é substancialmente mais elevada entre negros do que entre brancos e asiáticos, ser negro torna recomendável o teste sistemático de PSA. 
Um grupo de estudos, o U.S. Preventive Services Task Force, não recomenda o uso de rotina desse teste a partir de certa idade. Por quê? A resposta é complicada: o teste salvaria poucas vidas e provocaria tratamentos desnecessários, porque um PSA elevado está longe de significar a morte do paciente. Os tratamentos desnecessários têm efeitos colaterais que podem ser pesados, como impotência, incontinência, ataques do coração e até morte com tratamentos que poderiam ser evitados porque a chance de morrer do câncer, na grande maioria dos casos, seria mínima.
Repetindo: homens negros, homens com sintomas do câncer e homens com parentes que têm ou tiveram esse câncer devem ser testados de maneira sistemática. 
O teste de PSA continuará a ser coberto pelo seguro médico público chamado Medicare.
O problema deriva do número de falsos positivos e falsos negativos. As margens de erro que antes eram consideradas aceitáveis, hoje não o são. Testes que reduzam o erro e que permitam separar quem tem alta chance de morrer do câncer dos demais homens resolveriam o problema. Não se trata mais de um teste que indique quem tem o câncer: o PSA em conjunção com o toque retal faz isso com margem aceitável de erro. Porém, a descoberta de que muitos pacientes não morreriam do câncer sem qualquer tratamento requer outro poder, o de separar os casos perigosos dos que podem ser simplesmente acompanhados. Trata-se de isolar os cânceres perigosos, que podem matar o paciente. Há muitas células que podem produzir o câncer da próstata, o que leva a muitos tipos diferentes, alguns letais e muitos indolentes, que crescem devagar e só matariam se os pacientes vivessem bem mais de cem anos. 
Não obstante, um em cada seis homens americanos terá esse câncer. E este câncer, por ser tão comum, é o segundo que mais mata, atrás apenas do câncer do pulmão. Duas pesquisas, uma na Europa e outra nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que cinco em cada mil homens morrem deste câncer no prazo de dez anos. Minha crítica a esse raciocínio é que estamos vivendo mais e a taxa nunca chega a zero: ao contrário, parece aumentar depois de quinze ou vinte anos do diagnóstico. A pesquisa europeia concluiu que os testes sistemáticos, rotineiros, salvariam um desses cinco homens.     
O argumento contra se baseia nos erros e efeitos colaterais dos tratamentos. Dois de cada mil homens testados morrerão de um ataque do coração ou de um derrame provocado pelo tratamento, particularmente o hormonal. Além disso, 30 a 40 ficarão temporária ou permanentemente impotentes ou incontinentes em função do tratamento. De cada três mil, um morrerá de complicações durante a cirurgia. 
O debate continua…

GLÁUCIO SOARES        IESP/UERJ

CANCEROSOS ESCALAM O KILIMANJARO

Há um grupo cujo objetivo é mostrar que os cancerosos podem ter uma vida normal, inclusive realizando algumas proezas. Esse grupo se chama Above + Beyond Cancer e se dedica a escalar montanhas difíceis – possíveis, não só para profissionais, mas difíceis para o cidadão comum. Ainda mais para um canceroso, pensará o leitor…
Pois o objetivo desse grupo é demonstrar que cancerosos e sobreviventes do câncer podem ter vidas normais e fazer coisas surpreendentes.
Como escalar o monte  Kilimanjaro, o mais alto da África……
Foram 19, inclusive Gail Endres, diagnosticado com câncer da próstata, tratado e sem fracasso bioquímico desde 2006. Não há garantia de que esteja curado, porque às vezes o PSA “volta” depois de dez, quinze anos…
O grupo foi bolado por um oncólogo com sensibilidade humana, Richard Deming. O nome, Above + Beyond Cancer, indica o propósito e o meio.
A idade desse grupo de alpinistas amadores e cancerosos variava entre 29 e 73. Incluía pacientes do câncer da próstata, da tireóide, da mama, das glândulas salivares, da leucemia, de linfomas… Alguns há anos não apresentam sintomas e outros estão em pleno tratamento para cânceres que já não podem ser curados.  
Profissionalmente, dá de tudo: um tocador de viola, um militar, um estudante, um padre, a mulher de um fazendeiro e muito mais.
No início não sabiam se conseguiriam ou não subir o  Kilimanjaro, mas sabiam que iam tentar para valer. Sabiam, também, que os resultados benéficos dessa tentativa marcaria suas vidas – e sua luta contra o câncer. 
Chegaram na África dia 2 de janeiro e mergulharam na cultura local. Nada de ser turistas, de ver a África através de telescópio. Visitaram a cidade de Moshi, um vilarejo e se mandaram para a montanha.

O Kilimanjaro é um vulcão adormecido: como outros, pode voltar à vida, mas essas voltas usualmente dão aviso prévio. Partiram da base, ainda semi-tropical, de pouco mais de dois quilômetros. A altura do monte é, arredondando, seis quilômetros. Os excursionistas viram e sentiram as mudanças na flora e na fauna que acompanham as mudanças de altitude. Começaram numa floresta tropical, mas logo estavam numa região rochosa, onde viam o legado de erupções antigas. Continuaram pela trilha que leva até a cratera. Passaram por tudo: regiões desérticas e, no topo, neve. Todos sentiam o cansaço que caracteriza a diminuição do suprimento de oxigênio na altura e vários sentiam dores, tinham bolhas, calos, dores nas costas e tudo o mais. Sem falar nos vômitos, náuseas e diarréias. Mas o grupo estimulava a seguir adiante, como deve acontecer na vida de todos nós, cancerosos. E, claro, não havia banheiro nem chuveiro…
Aguente, Raimundo!
Um saudável espírito coletivista surgiu e quem tinha papel higiênico dividiu, quem tinha band-aid dividiu e assim por diante. As necessidades ficaram no Kilimanjaro e banho, bem, melhor esquecer. Todo mundo fedia a suor seco e tinha bafo de tigre. 
Mas era um grupo coeso, que se ajudava, como a humanidade deveria fazer. 
O que surpreendeu a todos foi a solidariedade instantânea que sentiram uns em relação aos outros. O câncer, essa tremenda adversidade, os uniu. Na minha leitura, Deus colocou esse potencial dentro de todos nós, mas foi preciso um câncer e uma escalada para que essas pessoas o descobrissem. E todos mudaram…
O esforço que pessoas que estavam fazendo tratamento, tinham passado recentemente pela debilitante quimioterapia, era gigantesco. Mas todos sabiam que era um passo de cada vez e cada passo exigia sacrifícios. Mesmo que tenham sido um milhão de passos, cada passo era o primeiro, sem pensar nos que viriam depois.
A história de cada um deles é uma história de superação. Foram seis dias duros, duríssimos, até que esse grupo de cancerosos chegasse ao tôpo do Kilimanjaro; chegaram, o que a grande maioria dos não-cancerosos não fez!
Todos temos nosso Kilimanjaro para escalar. Deus nos deu condições para fazê-lo. Vamos lá?
GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Câncer na próstata: papel da idade, do fumo, da dieta e do exercício

WebMD é uma excelente fonte de informações a respeito de doenças, medicamentos e pesquisas médicas para pessoas com pouco conhecimento na área. NÃO é um site para especialistas. É um site informativo, pedagógico e responsável.   Em um artigo recente, o articulista nos lembra da relação essencial entre idade e câncer da próstata: 80% dos diagnósticos são em pessoas com mais de 65 anos e menos de um por cento em homens com menos de 50 anos. Os cânceres em homens jovens, adolescentes e crianças são raríssimos, mas existem.

O site lembra que há fatores comportamentais que aumentam o risco deste câncer, como a dieta. Quem consome muita gordura de carne vermelha aumenta o risco. Outro fator consensual é a obesidade, que aumenta o risco. Finalmente, um terceiro fator comportamental reduz o risco: os exercícios sistemáticos.

Isso, claro, sem falar no fumo que contribui muito para aumentar o risco de muitos tipos de cânceres.

GLÁUCIO SOARES     IESP/UERJ

É possível reduzir a mortalidade do câncer do pulmão

A articulista Linda Forem argumenta que escanear regularmente os pulmões de pessoas com alto risco salvará vidas. A importância do câncer do pulmão deriva da sua mortalidade: mais pessoas morrem por câncer do pulmão do que por câncer da mama (o mais comum entre as mulheres), da próstata (o mais comum entre os homens) e o do colon, que também é muito freqüente – somados. Embora esses cânceres sejam muito mais comuns, o do pulmão é muito mais letal, tão mais letal que essa diferença compensa a diferença na incidência e na prevalência.

A antiga quase-certeza de que quem não fumava não tinha câncer do pulmão foi substituída, por outra, pior: dos diagnosticados há pouco tempo, 60% não são fumantes. Ou nunca fumaram ou já deixaram. Cresceram as causas ambientais e o fumo secundário. Computando todos, somente 15% estarão vivos cinco anos depois do diagnóstico.

Linda Forem acena com uma possibilidade menos pessimista. Há tomografias computarizadas de baixa intensidade (menos perigosas) que podem ajudar a detectar o câncer do pulmão mais cedo, quando a taxa de cura é muito maior. No Estágio I, a cirurgia ainda funciona e a TC encontra os primeiros nódulos. Por que TC? Porque os raios X simples não detectam os cânceres nos estágios iniciais, quando podem ser curados com cirurgia. Ela não vê razão para tratar o câncer do pulmão de maneira diferente dos cânceres da mama, da próstata e do colon. Testes nas populações de alto risco (como os fumantes ou os fumantes secundários) seriam indicados. A melhoria do tratamento e, sobretudo, testes que permitem a detecção precoce explicariam porque a sobrevivência aos cinco anos do diagnóstico aumentou de 75% para 89% dos casos de câncer da mama e de 67% para 99,7% dos casos de câncer da próstata. O câncer do colon, mais letal que os dois anteriores, agora se localiza nos 65% de sobrevivência aos cinco anos, graças à colonoscopia. Porém, os resultados para os cânceres do pulmão são muito piores.

Muitos dos diagnósticos são acidentais: o paciente busca o médico por outra razão. O interesse de Linda adveio da experiência dolorosa de perder uma irmã, Wendy. Em 2009, ela foi a um alergista porque tinha uma coceira na garganta que provocava tosse. A escolha do alergista provavelmente se deve a um histórico de alergias. O alergista não encontrou nada e a enviou para um gastro, pensando em refluxo. O gastro  não encontrou nada e Wendy desistiu. Continuou a vida normal, que incluía a linda experiência de adotar duas crianças guatemaltecas.

Mas a coceira continuou. Dois meses depois foi fazer o exame anual ginecológico, ainda com a coceira e a tosse que tinha no ano anterior. Foi, finalmente, enviada a um pulmonólogo. Depois de uma tomografia e de uma broncoscopia, foi diagnosticada com câncer do pulmão, estágio III, que já havia invadido os nódulos linfáticos. Como não podia mais ser operada, a quimioterapia e a radiação foram iniciadas. Ficou com esses tratamentos durante onze meses. Os efeitos colaterais foram pesadíssimos, incluindo uma forma de pneumonia inflamatória crônica chamada pneumonite. Wendy morreu onze meses depois do diagnóstico.

Linda não inventou os ganhos com exames regulares da população de alto risco: uma pesquisa chamada The National Lung Screening Trial com uma população de alto risco revelou um ganho de 20% na sobrevivência quando as tomografias foram usadas no lugar dos raios X. Essa pesquisa acompanhou 53 mil pessoas consideradas de alto risco, com exames anuais.

Algo tem que ser feito: em 1971 a sobrevivência cinco anos após o diagnóstico de câncer do pulmão era de 13%; hoje, quarenta anos depois, é de 15% – isso, nos Estados Unidos.

GLÁUCIO SOARES                  IESP-UERJ