Dores e dissabores depois do câncer

 

Há dimensões dolorosas e ocultas, porque pouco discutidas, do câncer. Creio que, na nossa cultura, quando a vida está em risco, as demais questões ficam pequenas ou desaparecem dos nossos pensamentos. Não é assim em todas as culturas; algumas emprestam relevância maior a questões que, diretamente, não tem a ver com vida e saúde. Não obstante, indiretamente afetam ambas.

Várias questões, impensáveis na mesa de cirurgia, são muito relevantes para os que formulam políticas públicas. Pesquisei um pouco para escrever essas linhas.

Os Estados Unidos são o país dos paradoxos no que tange a saúde. Há décadas tem uma esperança de vida ao nascer mais baixa do que seria de esperar a partir do seu produto bruto e da sua renda per capita. Está vários pontos abaixo da curva no que concerne a medicina preventiva. Em contraposição, ostenta a melhor medicina curativa do planeta e vários dos seus hospitais estão entre os dez mais conceituados do planeta para tratar muitas enfermidades e deficiências. Lidera, de longe, na pesquisa médica na maioria dos campos de aplicação.

É “feio” discutir questões financeiras na frente do paciente, particularmente quando ainda está no hospital. Não obstante, fora do ouvido dele, ou, às vezes, nem totalmente fora do ouvido dele, vários parentes, e até amigos, discutem problemas práticos que incluem o pagamento das contas, quem fica de plantão com o paciente, quem leva para casa, quem isso, quem aquilo. É nesse momento que o melhor e o pior das pessoas aflora, vem à tona.

Fora do quarto do paciente, ou ao voltar para casa, os problemas “menores”, sanitariamente mantidos à distância, passam a ser discutidos. É nesse momento que muitas fissuras aparecem na família e que muitas “famílias” mostram que não eram mais do que aglomerados de pessoas com pouco mais do que uma vinculação genética ou uma tênue vinculação legal… As doenças letais não destroem apenas os pacientes, mas destroem as famílias também, ou mostram que elas eram mais ficção do que realidade.

Nos Estados Unidos, um país que valoriza muito a responsabilidade individual, muitas das questões discutidas no corredor em outros países, não dizem respeito à família, nem ao Estado (leia-se: às pessoas que pagam impostos, direta e indiretamente, feitas responsáveis pelo que acontece com os indivíduos). São vistas, em grande parte, como responsabilidade do indivíduo.

É nessa moldura de referência cultural e institucional que penso os dados que vou apresentar.

Tomemos um câncer – o câncer do cólon e do reto. Os que sobrevivem enfrentam outros problemas depois de curados: a American Cancer Society, limitando sua análise aos jovens em condições de trabalhar, estima que os gastos médicos não cobertos e outras perdas são da ordem de US$ 8.500,00 anualmente. Além dos gastos médicos, perdem mais dias de trabalho, produzem menos no trabalho, o que se traduz numa perda de competitividade com pessoas em tudo semelhantes, mas que não tiveram câncer. Pode se refletir em maior vulnerabilidade do emprego.

Claro, há países em que tudo isso vai parar na conta do Estado que, numa população cada vez mais velha, faliu e sacrifica outros setores para atender esses gastos e vários outros associados com a doença e com sua correlata, a idade.

Surabhi Dangi-Garimella, que escreveu um artigo que me inspirou, menciona a estimativa de 18 milhões de sobreviventes de câncer em mais cinco ou seis anos, em 2022, somente nos Estados Unidos. Não sei quantos serão no Brasil, mas serão muitos e em número crescente. A American Cancer Society, mencionada acima, levantou esses problemas e calculou esses custos, publicando-os no Journal of the National Cancer Institute.

O impacto foi, como esperado, maior entre os mais jovens entre os quais há menos aposentados e mais que trabalham horários completos ou que tem, até, mais de um emprego. As consequências do câncer e os efeitos colaterais permanentes dos tratamentos, assim como a idade modal dos pacientes, faz com que os custos variem muito de câncer para câncer.

 

OS CUSTOS DO CÂNCER DEPOIS DO CÂNCER (custos anuais)

CÂNCER DO CÓLON E DO RETO

$ 8.647,00

CÂNCER DA MAMA

$ 5.119,00

CÂNCER DA PRÓSTATA

$ 3.586,00

 

O número de dias perdidos por ano também varia de câncer para câncer: no caso dos canceres coloretais 14% tiveram consequências permanentes que os impediram de trabalhar, bem mais do que os casos de câncer da mama (5%). Os sobreviventes de canceres coloretais perdem 7,2 dias de trabalho ao ano, na média; os com câncer da mama perdem 3,3 dias.

Claro está que, em países onde a responsabilidade por um indivíduo é daquele indivíduo, surge a necessidade de lidar com essas perdas. A sobre preocupação com a sobrevivência pode levar muitos a minimizar a qualidade da vida depois do câncer – não se preparam para a vida pós-câncer, não fazem seguros para as perdas que virão.

Se este artigo evitar dores e dissabores a um paciente, terá cumprido seu objetivo; se alguém se preparar para esses problemas, também. Os leitores podem alertar, no seu devido momento, pacientes, amigos e familiares sobre o fato de que o fim do câncer não significa o fim dos problemas.

Gláucio Soares  

IESP-UERJ

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Forum de sobreviventes de câncer

 

Um sobrevivente de dois episódios de leucemia quer aproveitar dois programas gratuitos onde outros sobreviventes de câncer trocam fichinhas, informações e emoções. Infelizmente, está em Inglês.  Queiramos ou não, é o idioma dominante na Ciência e na internet também. Quem quiser dar uma olhada ou participar, clique no link abaixo.

 

GLÁUCIO SOARES                                 IESP-UERJ

 

http://blog.postach.io/sharing-and-remembering-stories-of-survival-with-evernote-and-postach-io

A depressão pode piorar o câncer

Receber um diagnóstico de câncer é uma experiência que pode ser traumática. Da mesma maneira, é duro receber a notícia de que o câncer está avançando a despeito do tratamento. A depressão é uma resposta comum. Porém, pesquisas feitas com pacientes de canceres da mama e do fígado mostram que os que mantiveram uma postura otimista viveram mais tempo do que os que se entregaram à depressão.

Um grupo associado à UCLA pesquisou a relação entre depressão e o que acontecia com os pacientes de câncer da próstata. Alguns fatores nem sempre considerados contribuíram para que os resultados fossem piores e a sobrevivência fosse menor. Os deprimidos receberam tratamentos menos eficientes e os canceres avançaram mais rapidamente do que os que mantiveram um astral elevado. Muito importante, os deprimidos tiveram uma sobrevivência menor.

Quem ficou e quem não ficou deprimido? Os deprimidos eram mais velhos, mais pobres e tinham outras doenças. Ou seja, as condições que pensávamos que afetava a saúde mental, de fato, afetam.

Alguns caminhos através dos quais a depressão piora o prognóstico foram identificados: há preconceito contra doenças mentais, inclusive da parte do pessoal da saúde. Os deprimidos enveredavam por estilos de vida que conspiram contra a sobrevivência: se exercitavam menos (ou nada), cuidavam menos da dieta, não seguiam o tratamento à risca (uma percentagem maior abandonava todo e qualquer tratamento e se entregava) e assim por diante.

Não se conhece bem todos os caminhos de como a depressão afeta a biologia do câncer, mas se sabe que ela prejudica o sistema imune. Sabe-se, também, que os deprimidos não se transformam em instrumentos do seu próprio tratamento e possível cura. Infelizmente, essas são avenidas que não são levadas em sério pelos médicos e pelo sistema hospitalar. Ninguém ensina ninguém.

O conselho que emana dessas pesquisas é simples: não cuide apenas do câncer, cuide da depressão também. Saindo da depressão, estará ajudando a tratar o câncer.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

 

O pesquisador principal é o Dr. Jim Hu, da UCLA, Professor de Urologia. Publicado online no dia 10 de Julho de 2014, no Journal of Clinical Oncology.

CÃES CONTRA O CÂNCER

Voltamos ao tema: como cães podem ajudar a detectar o câncer da próstata. Os “melhores amigos do homem” provam, mais uma vez, sua acuidade. McCulloch e associados analisaram a acuidade de cães na detecção de canceres da mama e do pulmão, no início e em canceres mais avançados também.[1] Mais importante, mas com seus perigos: cães comuns, como o seu ou o do vizinho, podem ser treinados para chegar a um alto nível de precisão na detecção de canceres (e de outros cheiros…). Os autores treinaram cinco cães domésticos, comuns, para detectar canceres. Os animais também foram treinados a expressar comportamentalmente o que cheiraram. Quando o resultado foi positivo (detectavam câncer na amostra da urina), sentavam ou deitavam em frente do recipiente; quando não, passavam para o próximo. Os cães foram treinados em três etapas, cada uma mais exigente do que a anterior. Através de gratificação diferencial (gratificação quando acertavam, ausência de gratificação quando erravam), foram desenvolvendo a associação entre o que detectavam através do cheiro e a gratificação. Usaram amostras do ar expirado de 55 pacientes com câncer do pulmão, 31 com câncer da mama e 83 controles. Um cuidado óbvio foi ter apenas uma amostra por pessoa. Em contraste, a análise química do ar expelido pelas mesmas pessoas foi reprovada no teste. Cães 1×0 Análise Química!

A sensitividade e a especificidade foram altíssimas, 0,99 nos dois casos, na análise do câncer do pulmão, e 0,88 e 0,98 na análise do câncer da mama. Ambos canceres são corriqueiramente classificados em quatro estágios e os cães identificaram o câncer da mesma maneira, independentemente do estágio. Ah, sim: o que é sensitividade? Simples: a percentagem de cancerosos corretamente identificada. A fórmula também é simples: é só dividir os positivos corretos pelo total (que inclui positivos corretos mais os falsos negativos). A especificidade é o mesmo raciocínio aplicado aos erros, aos negativos. Numa especificidade perfeita todos os negativos e nenhum falso positivo são identificados. Há dois erros: não identificar o câncer quando ele existe e identificar um câncer quando ele não existe. Falso negativo no primeiro, falso positivo no segundo.

Qual o critério? Biópsias. Elas têm falsos negativos, mas rarissimamente (devido a erro) tem falsos positivos.

Leia mais sobre essa pesquisa em

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16484712

Recentemente, pesquisadores italianos verificaram que dois cães treinados poderiam identificar elementos químicos orgânicos na urina de pacientes que revelam que eles têm câncer da próstata. Dessa vez foram apenas dois cães e o resultado – uma taxa de acerto combinada, dos dois, de 98 por cento satisfaz os requisitos mais exigentes. Melhor do que o PSA e o toque retal combinados. Os italianos apresentaram os resultados na conferência anual da American Urological Association em Orlando, na Flórida.

O pesquisador italiano Gianluigi Taverna, sugere que o uso de cães, juntamente com testes já padronizados, como o PSA, apresentaria um avanço clínico.

Como foi feita a pesquisa? Usaram a urina de 677 pessoas, sendo 320 cancerosos e 357 pessoas saudáveis. Os cancerosos eram de todos os tipos, desde os com baixo risco até os com metástase distante. Os cães eram gratificados quando identificavam cada amostra cancerosa e sentavam em frente a ela.

Como é que funciona?

Os tumores produzem químicos chamados compostos orgânicos voláteis, que, como o nome diz, evaporam e produzem um cheiro que é captado pelas narinas ultrassensíveis dos cães. Os cães têm uma memória olfativa poderosa – não esquecem os cheiros. Por isso, as mesmas amostras não poderiam ser usadas repetidas vezes. Essa habilidade é que permite o uso de cães farejadores na busca de pessoas sequestradas, de corpos, de criminosos e muito mais.

E os cães, acertaram?

Um acertou em 98,9 por cento das amostras e o outro em 97,3%. Se os erros forem aleatórios ou absolutamente individualizados, o uso de dois cães na mesma amostra faria com que acertassem 9.623 vezes em cada dez mil!

Acham que é só isso?

Tem muito mais!!!

Os japoneses entraram nesse quadro. Sonoda e sua equipe

publicaram um artigo mostrando a utilidade dos cães no correto diagnóstico do câncer do cólon.[2] Há necessidade de um teste que seja tão barato e não invasivo para detectar o câncer do cólon, que seja mais confiável, com menos erros.

A pesquisa: foram obtidas amostras do “bafo” e de fezes liquidificadas de pacientes com câncer e pacientes saudáveis – o grupo controle. Eram vários grupos de cinco amostras: uma de canceroso e quatro de pessoas saudáveis. Um Labrador Retriever foi treinado para detectar câncer pelo cheiro. Cada vez, um par de amostras foi colocada em frente ao cão, uma de canceroso e outra de controle. Como em outros experimentos semelhantes, ele deveria sentar em frente à amostra com materiais de cancerosos. Trinta e três grupos de amostras de bafo e 37 de fezes liquidificadas foram usados. O cão corretamente identificou 91% dos casos de câncer detectados por colonoscopia, a partir do cheiro, e identificou 99% dos saudáveis. Quando as fezes foram usadas, as percentagens foram 97% e 99%, respectivamente.

A acuidade da detecção feita pelo cão não foi afetada nos casos em que o paciente fumava, em que a doença era benigna ou uma inflamação.

Por quê?

Os cães possuem até trezentos milhões de receptores olfativos nos seus narizes e nós, apenas seis milhões, cinquenta vezes menos.

Tem mais: a parte do cérebro que é dedicada a identificar e analisar cheiros, proporcionalmente, é 40 vezes maior nos cães.

Parece claro que há um potencial aberto para a utilização dos cães na medicina diagnóstica. Os resultados obtidos até agora tiveram treinamento muito limitado e um número mínimo de cães. O uso de vários cães e várias técnicas e vários treinamentos reduz os erros: são probabilidades combinadas. Não obstante, não é levado a sério por administradores hospitalares, médicos e suponho que seja levado negativamente a sério pela indústria farmacêutica. Se conseguirmos vencer o reacionarismo ranheta do establishment médico e farmacêutico, poderemos ver que o melhor amigo do homem é ainda mais amigo do que pensávamos.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[1] McCulloch M, Jezierski T, Broffman M, Hubbard A, Turner K e Janecki T. “Diagnostic accuracy of canine scent detection in early- and late-stage lung and breast cancers” em Integr Cancer Ther. 2006 Mar; 5(1):30-9.

[2] Sonoda H, Kohnoe S, Yamazato T, Satoh Y, Morizono G, Shikata K, Morita M, Watanabe A, Morita M, Kakeji Y, Inoue F e Maehara Y, “Colorectal cancer screening with odour material by canine scent detection” em Gut. 2011 Jun;60(6):814-9. doi: 10.1136/gut.2010.218305. Epub 2011 Jan 31.

Avanços na sobrevivência de cânceres

As notícias vindas do Reino Unido são boas, mas não ótimas. Houve um avanço considerável na sobrevivência (dez anos depois do diagnóstico) dos adultos em alguns cânceres nos quarenta anos de 1971-2 a 2010-11, melhorias em outros e quase estagnação em alguns nos quais a ciência ainda não encontrou o caminho, particularmente os do pulmão e do pâncreas. Houve pouco progresso no tratamento de cânceres do esôfago, do estomago e do cérebro. Do lado bom da escala, a sobrevivência do câncer dos testículos está próxima de cem por cento (98%), um avanço bem-vindo desde os 69% de quatro décadas atrás. O temível melanoma está sendo domado: a sobrevivência aos dez anos deu um salto, de 46% para 89%.

No conjunto, metade dos cancerosos sobrevive dez anos ou mais. Dez anos depois do diagnóstico, metade está viva. É um avanço: na média, entre os que foram diagnosticados no início da década de 70, somente um quarto estava viva depois. Um câncer que obteve um aumento substancial na sobrevivência foi o de mama, graças em parte considerável à mobilização e à politização das mulheres: de 40% para 78%. Aliás, as mulheres se beneficiaram mais das melhorias do que os homens: das diagnosticadas (de todos os cânceres) recentemente, 54% devem sobreviver, pelo menos, dez anos, bem mais do que os 46% dos homens. Parte da diferença se explica pelo fato de que os homens continuam a fumar e beber mais do que as mulheres. Em 1974, 51% dos homens adultos britânicos fumavam, dez por cento a mais do que as mulheres adultas. Em 2012, essas percentagens eram de 22 e 19, respectivamente (Fonte: http://www.ash.org.uk). Não tenho dúvidas de que a redução no fumo contribuiu muito para a redução da mortalidade por câncer. Infelizmente, o quadro do consumo de bebidas alcoólicas não é positivo: aumentou de 1974 a 2013, a despeito de uma redução a partir de 2004. Tomando a Inglaterra em separado, pesquisa feita em 2011 revelou que 39% dos homens e 28% das mulheres tinham bebido mais do que o nível máximo recomendado. Esse nível é mais alto no caso dos homens, o que significa que as diferenças absolutas no consumo de álcool entre os sexos é ainda maior. Há vários cânceres com relações com o consumo excessivo de álcool.

E o câncer da próstata? Os dados mostram que 94% estavam vivos um ano depois do diagnóstico, 85% cinco anos depois e 84% dez anos depois. Avançou muito em relação a outros cânceres: entre os diagnosticados no início da década de setenta, havia seis cânceres com melhor sobrevivência (entre os individualizados no gráfico abaixo), mas a projeção a respeito dos diagnosticados quarenta anos depois é que somente os diagnosticados com câncer testicular e com melanoma terão sobrevivência maior aos dez anos.
Esses são os dados britânicos. A sobrevivência é mais alta nos Estados Unidos e deve
[i] ser muito mais baixa no Brasil. Nossa saúde pública deixa muitíssimo a desejar.

O objetivo de todo departamento da ciência médica é, claro, a cura. Até agora, temos tido avanços graduais e cumulativos, como é o caso do câncer da próstata, ou grandes avanços devido a inovações no tratamento.

 

 

 

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Ver: Adult 10-year net survival, England & Wales Credit: Cancer Research UK


[i] Os dados brasileiros são pouco confiáveis.

Planos de saúde cobrem mais do que se pensa

 

Recebi do meu querido amigo, Lauro Morhy, excelente biólogo e ex-Reitor da Universidade de Brasília, a seguinte Boa Nova:

 

http://joannaporto.jusbrasil.com.br/artigos/116287115/planos-de-saude-passam-a-cobrir-tratamento-para-cancer-em-casa?utm_campaign=newsletter&utm_medium=email&utm_source=newsletter

Planos de saúde passam a cobrir tratamento para câncer em casa

A maioria dos usuários desconhece a informação, mas desde janeiro está em vigor uma nova norma de cobertura para os “planos de saúde”. Entre os benefícios, usuários passaram a ter direito a 37 drogas orais indicadas para o tratamento de 56 tipos de câncer, além de 50 novos procedimentos como exames, consultas e cirurgias. As novas regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) têm por objetivo beneficiar 42 milhões de consumidores de planos de assistência médica e outros 18 milhões em planos exclusivamente odontológicos, individuais e coletivos, em todo o país.

Segundo a advogada especializada em direito do Consumidor na área da saúde, Joanna Porto, os pacientes de câncer já tinham alguns direitos, como a obrigação do plano em custear o tratamento quimioterápico e de radioterapia, além de exames e demais tratamentos prescritos pelos médicos. Mas, agora, pela primeira vez, em razão da resolução normativa publicada pela ANS, os planos de saúde terão de cobrir os custos com medicamentos via oral, que antes só eram conseguidos através de ação Judicial, para o tratamento do paciente em casa.

Com essa inclusão, passam a ser ofertados remédios para o tratamento de tumores de grande prevalência na população como estômago, fígado, intestino, rim, testículo, mama, útero e ovário. Pela nova resolução, segundo Joanna Porto, “a forma de distribuição desses medicamentos ficará a cargo de cada operadora”.

Ainda segundo a especialista, “se o plano de saúde der cobertura à doença do beneficiário, todo tratamento prescrito pelo médico deverá ser custeado.”

O fornecimento da medicação oral contra o câncer era uma das demandas mais antigas dos usuários de planos e dos médicos. “O tratamento quimioterápico, através de medicamentos, teve um destaque muito grande no número de negativas de procedimentos pelos planos”, conta Joanna Porto. “Esse número gritante de reclamações, e também de ações judiciais, chamou atenção da ANS para incluir os medicamentos como cobertura obrigatória.”

Essas drogas funcionam como um tipo de quimioterapia. São mais modernas, causam menos efeitos colaterais e podem ser administradas em casa, evitando gastos com as internações. Mas, conforme explica a especialista, “essa determinação só vale para os planos novos, ou seja, os contratos firmados após a Lei 9656/98, embora o Tribunal de Justiça tenha o entendimento de que os usuários de planos antigos também possuem o direito.”

Segundo Joanna, os planos terão de arcar, por exemplo, com o tratamento com capecitabina (Xeloda), indicada para o tratamento de câncer de mama metastático. Cada caixa deste medicamento custa em média R$ 2,5 mil. Também está garantida a obrigatoriedade do fornecimento de acetato de abiraterona (Zytiga), usado para câncer de próstata, que custa quase R$ 11 mil. O gefitinibe (Iressa), para câncer de pulmão, custa R$ 4 mil.

No caso de operadoras que não cumprirem a cobertura obrigatória, os consumidores devem entrar em contato com o Disque ANS, no0800 701 9656, para fazer denúncias ou comparecer a um dos 12 núcleos da agência instalados em todas as regiões do país. A ANS informa que as operadoras que não cumprirem a cobertura estão sujeitas a multa de R$ 80 mil por infração cometida.

“Além de denunciar na ANS para que os planos sejam administrativamente punidos, o consumidor tem ainda o recursos de ingressar com ação judicial para garantir o custeio do seu tratamento”, esclarece Joanna Porto.

De acordo com a ANS, a inclusão das novas coberturas é avaliada por um ano e, caso a agência identifique impacto financeiro, este será avaliado no reajuste do ano seguinte, que é 2015. Pelas regras atuais, a ANS estabelece o reajuste apenas para os planos individuais e familiares e pode apenas sugerir o reajuste para os planos coletivos, que atendem a maior parte dos usuários.

Confira a lista completa de inclusões do Rol 2014 http://www.ans.gov.br/images/stories/noticias/pdf/20131021_ro2014_tabela%20procedimentos%20rol.pdf

CANCEROSOS ESCALAM O KILIMANJARO

Há um grupo cujo objetivo é mostrar que os cancerosos podem ter uma vida normal, inclusive realizando algumas proezas. Esse grupo se chama Above + Beyond Cancer e se dedica a escalar montanhas difíceis – possíveis, não só para profissionais, mas difíceis para o cidadão comum. Ainda mais para um canceroso, pensará o leitor…
Pois o objetivo desse grupo é demonstrar que cancerosos e sobreviventes do câncer podem ter vidas normais e fazer coisas surpreendentes.
Como escalar o monte  Kilimanjaro, o mais alto da África……
Foram 19, inclusive Gail Endres, diagnosticado com câncer da próstata, tratado e sem fracasso bioquímico desde 2006. Não há garantia de que esteja curado, porque às vezes o PSA “volta” depois de dez, quinze anos…
O grupo foi bolado por um oncólogo com sensibilidade humana, Richard Deming. O nome, Above + Beyond Cancer, indica o propósito e o meio.
A idade desse grupo de alpinistas amadores e cancerosos variava entre 29 e 73. Incluía pacientes do câncer da próstata, da tireóide, da mama, das glândulas salivares, da leucemia, de linfomas… Alguns há anos não apresentam sintomas e outros estão em pleno tratamento para cânceres que já não podem ser curados.  
Profissionalmente, dá de tudo: um tocador de viola, um militar, um estudante, um padre, a mulher de um fazendeiro e muito mais.
No início não sabiam se conseguiriam ou não subir o  Kilimanjaro, mas sabiam que iam tentar para valer. Sabiam, também, que os resultados benéficos dessa tentativa marcaria suas vidas – e sua luta contra o câncer. 
Chegaram na África dia 2 de janeiro e mergulharam na cultura local. Nada de ser turistas, de ver a África através de telescópio. Visitaram a cidade de Moshi, um vilarejo e se mandaram para a montanha.

O Kilimanjaro é um vulcão adormecido: como outros, pode voltar à vida, mas essas voltas usualmente dão aviso prévio. Partiram da base, ainda semi-tropical, de pouco mais de dois quilômetros. A altura do monte é, arredondando, seis quilômetros. Os excursionistas viram e sentiram as mudanças na flora e na fauna que acompanham as mudanças de altitude. Começaram numa floresta tropical, mas logo estavam numa região rochosa, onde viam o legado de erupções antigas. Continuaram pela trilha que leva até a cratera. Passaram por tudo: regiões desérticas e, no topo, neve. Todos sentiam o cansaço que caracteriza a diminuição do suprimento de oxigênio na altura e vários sentiam dores, tinham bolhas, calos, dores nas costas e tudo o mais. Sem falar nos vômitos, náuseas e diarréias. Mas o grupo estimulava a seguir adiante, como deve acontecer na vida de todos nós, cancerosos. E, claro, não havia banheiro nem chuveiro…
Aguente, Raimundo!
Um saudável espírito coletivista surgiu e quem tinha papel higiênico dividiu, quem tinha band-aid dividiu e assim por diante. As necessidades ficaram no Kilimanjaro e banho, bem, melhor esquecer. Todo mundo fedia a suor seco e tinha bafo de tigre. 
Mas era um grupo coeso, que se ajudava, como a humanidade deveria fazer. 
O que surpreendeu a todos foi a solidariedade instantânea que sentiram uns em relação aos outros. O câncer, essa tremenda adversidade, os uniu. Na minha leitura, Deus colocou esse potencial dentro de todos nós, mas foi preciso um câncer e uma escalada para que essas pessoas o descobrissem. E todos mudaram…
O esforço que pessoas que estavam fazendo tratamento, tinham passado recentemente pela debilitante quimioterapia, era gigantesco. Mas todos sabiam que era um passo de cada vez e cada passo exigia sacrifícios. Mesmo que tenham sido um milhão de passos, cada passo era o primeiro, sem pensar nos que viriam depois.
A história de cada um deles é uma história de superação. Foram seis dias duros, duríssimos, até que esse grupo de cancerosos chegasse ao tôpo do Kilimanjaro; chegaram, o que a grande maioria dos não-cancerosos não fez!
Todos temos nosso Kilimanjaro para escalar. Deus nos deu condições para fazê-lo. Vamos lá?
GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ