Abiraterona: em jejum ou com comida? E que comida?

Acetato de abiraterona (AA) é um dos medicamentos disponíveis quando os medicamentos anti-hormônios mais tradicionais e antigos, como o Lupron e o Zoladex, já não produzem os resultados esperados.

Seus fabricantes recomendam que seja tomado em jejum. J. T. Stover e associados estavam pesquisando pacientes que param de responder à abiraterona (o PSA volta a crescer etc.), e dividiram os prontuários médicos de pacientes que estavam sendo tratados com AA entre 01/04/2011 e 31/12/2013 preocupados com a mudança no PSA entre os que tomavam o AA em jejum e passaram a toma-lo com comida. Outro efeito analisado foi o tempo em que permaneceram tomando AA.

Os dois grupos estavam com o PSA crescendo.

O que encontraram?

Dezenove pacientes haviam mudado de “em jejum” para “com comida” e 41 permaneceram usando “em jejum”. O PSA baixou em três dos dezenove pacientes que mudaram de “em jejum” para “com comida”, ou 19%; a testosterona também baixou em cinco de sete que passaram a tomar AA com comida.

O tempo que os pacientes passam com um medicamento é importante porque quando o medicamento não produz mais resultados ele é abandonado. Pois os pacientes que mudaram de regime para “com comida” permaneceram no tratamento cerca de cem dias a mais.

Uma pesquisa cujos resultados preliminares foram apresentados recentemente no simpósio da ASCO em Orlando, na Florida, mostram outros dados, na mesma direção: 36 pacientes que tomaram 250 miligramas com um “low fat breakfast” obtiveram resultados idênticos aos de outros 36 pacientes que tomaram a dose recomendada, 1.000 miligramas, em jejum!

Há mais do que medicamentos e tratamento na equação: há custos. Nos Estados Unidos, o custo mensal do AA é de nove mil dólares, trinta mil reais, repito, por mês.

Se esse bom resultado com comida se confirmar em pesquisa mais extensa a economia para cada paciente será de R$ 22.500,00 mensais!!!!!!

Considerando que, nos padrões atuais (em jejum), os pacientes ficam entre 12 e 18 meses (essas são aproximações) tomando a ZYTIGA calcule a economia para o paciente (ou para quem paga a conta) se for confirmado que “com comida” o medicamento é quatro vezes mais eficiente.

Teremos que aguardar pesquisas com muitos pacientes mais e com maior duração.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

PS – sim, tive vontade de fazer a pergunta de extrema negatividade e não a fiz.

Saiba mais:

J T Stover et al, Reversal of PSA progression on abiraterone acetate through the administration with food in men with metastatic castration-resistant prostate câncer. Prostate Cancer and Prostatic Diseases 18, 161-166 (June 2015) | doi:10.1038/pcan.2015.7

https://medicalxpress.com/news/2017-02-high-priced-cancer-drug-low-fat-meal.html#jCp

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CUIDADO COM O PSA DURANTE O TRATAMENTO COM ENZALUTAMIDA

Um dado recente preocupa os pacientes com câncer da próstata que tomam enzalutamida (Xtandi). Esse medicamento tem sido usado em pacientes que desenvolveram resistência ao tratamento hormonal com medicamentos “tradicionais”, que estão no mercado há duas, três décadas ou mais.

Qual o dado?

Encontraram um número surpreendentemente grande de pacientes usando enzalutamida que, a despeito de terem um PSA estável, ou até em declínio, que apresentavam avanço da doença de acordo com os exames radiológicos.

O PSA começou a ser usado na triagem de casos com suspeita de câncer da próstata em 1987; a FDA aprovou o PSA no sangue como teste sete anos depois, em 1994.

É um teste de fácil obtenção e relativamente barato e nesse quarto de século se tornou o indicador mais usado na triagem. A confirmação mais usada durante esse período requeria biópsia.

Vários indicadores foram desenvolvidos com base no PSA, como o tempo que ele leva para dobrar (o PSADT), o nível mais baixo que ele atingiu (que é chamado de nadir), o tempo até que o PSA volta a ser detectado após não poder ser detectado depois de uma cirurgia e muito mais. É o indicador mais usado na prevenção, detecção, diagnóstico e acompanhamento, embora sempre abrigando controvérsias.

Isso significa que, para um grupo de pacientes com câncer avançado da próstata, que estão sendo tratados com enzalutamida, que o PSA estável ou em declínio tem menor utilidade como indicador de que o câncer não está avançando.

Ruim para todos nós.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

CONVERSA TRISTE

 

Conversei, pelo telefone, com um colega pesquisador, biólogo, amizade de muitas décadas. Alguém que fez muito pela educação no Brasil.
Tem uma variante mais agressiva do mesmo câncer que eu enfrento. Chegou ao limite dos tratamentos disponíveis. Nenhum funciona mais. Tem muitas metástases, tanto em tecidos suaves quanto ósseos, que são muito dolorosas. Com a coluna vertebral e o quadril muito comprometidos não consegue sentar. Por que é importante sentar? Porque quer muito terminar seu último livro. Ele quer viver uns meses mais também para levar um pouco mais adiante uns projetos sociais, individualizados, mas sociais, algumas famílias pobres que ele ajuda, cujos filhos ele educa. Sugeri que poderia escrever falando, que a Google tem um bom sistema de transformar som em texto, que aprende fácil. Permitiria ditar o livro. Assim, poderia trabalhar deitado. A sugestão, que eu considero para meu próprio uso, não emplacou.
A proximidade da morte traz uma decisão difícil, a de aceitar e abandonar a vida e seus projetos. É duro, duríssimo. Me lembrei de um livro escrito pelo Cardeal Bernadin, ele próprio vítima de um fulminante câncer do pâncreas, que o levou em um ano. Tinha um projeto semelhante, escrever um livro sobre essa experiência. Escreveu. Se chama The Gift of Peace e seu capitulo mais interessante, e que mais me tocou, se chama Letting Go, onde fala da necessidade do abandono, da entrega. Abandono de quê? Dos projetos (Bernardin tinha muitos projetos), dos sonhos terrestres, da vida. É o momento em que o moribundo aceita a morte, aceita que a vida não termina “bonitinha”, que não tem fecho dourado. Simplesmente acaba. A entrega, para os que acreditam, é a entrega total a Deus, abdicando de toda e qualquer vontade de controlar a vida que… já não pode controlar. Entregando a vida, a transição para a morte é muito mais fácil. Se agarrando a ela, é muito mais difícil.
Não obstante, milagres acontecem. Você pode ajudar a que um aconteça. Reze, ore, em conformidade com o que acredita, direcione energias positivas, mobilize amigos e quem sabe? Quem sabe, meu amigo terminará seu livro?

 

Gláucio Soares  IESP-UERJ

Mais 8,5 meses de vida?

Há novidade, sim! Vários tipos de câncer testemunharam o avanço recente de imunoterapias. A única que atingiu o mercado do câncer da próstata foi a Provenge, que produziu alguns resultados positivos, mas perdeu a competição para outros medicamentos menos caros e de mais fácil aplicação. Agora surgiram resultados promissores com uma “vacina”, chamada de PROSTVAC®. Há duas décadas estão trabalhando nela. Está sendo orientada para pacientes com cânceres avançados, com metástases e que já não respondem ao tratamento hormonal. Ela usa um vírus (poxvirus) e faz a mira usando o PSA. Produziu uma resposta das células T. O PROSTVAC® ajuda o sistema imune a identificar e matar as células cancerosas.

Numa pesquisa Fase 2 esse tratamento aumentou a mediana da sobrevivência em oito meses e meio, reduzindo a taxa de mortalidade em 44%. Numa população com idade relativamente avançada e um câncer avançado, esse é um ganho significativo. Sem o tratamento, a sobrevivência mediana foi de 16,6 meses; com o tratamento foi de 25,1 meses, pouco mais de dois anos. Quando o Provenge foi aprovado, a elevação na sobrevivência mediana foi, aproximadamente, a metade (4,1 meses). O ganho com abiraterona (Zytiga) foi de 4,6 meses e o ganho com a enzalutamida (Xtandi) foi de 2,2 meses apenas, segundo o autor citado.

Sublinho que todos esses resultados se referem à totalidade da população testada, mas que há uma percentagem significativa dos pacientes que não responderam ao tratamento com cada um desses medicamentos. No caso da abiraterona e da enzalutamida há testes em desenvolvimento que permitirão saber quem responderá. Tomando, apenas, os que responderam, a sobrevivência média é bem maior.

 

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

A resposta do PSA à abiraterona é muito importante

Uma informação que pode ser útil para pacientes que não respondem ao tratamento anti-hormonal e que apresentam metástases.

As mudanças no PSA no inicio do tratamento com abiraterona indica quão exitoso o tratamento será. É uma indicação meramente probabilística. Nada nessa área é inevitável.

O que foi apresentado num pôster na ASCO 2016 se refere a um estudo com 87 pacientes com as características acima.

A primeira pergunta que fizeram foi: como reagiram ao tratamento aos 15 dias, aos 90 dias e mês a mês?

Trabalharam com um modelo complexo, multivariado que controlou variáveis clínicas e da patologia.

O PSA baixou em 79% dos pacientes. Houve resposta rápida em 56%, sendo que em 23% o declínio em 15 dias foi >50%, mais da metade do valor anterior. Os que responderam logo apresentaram uma vantagem clara na sobrevivência específica (não morreram do câncer) – depois de um ano, o risco relativo foi de 0,28 – e de sobrevivência geral foi de 0,22.

Nesse grupo que respondeu bem e rapidamente outras variáveis pesaram: se usaram abiraterona por mais tempo (mais de sete meses); se tinham feito terapia hormonal (mais de 2,5 meses) e resultados contraditórios com a químio (melhor se receberam mais de duas rodadas, pior se receberam mais de 675 mg/m2 de docetaxel.

Sabemos um pouco mais, mas falta muito, muito.

GLÁUCIO SOARES ISP/UERJ

PARA ONDE VAI O TRATAMENTO DO CÂNCER DA PRÓSTATA?

PARA ONDE VAI O TRATAMENTO DO CÂNCER DA PRÓSTATA?[i]

O que nós, pacientes do câncer da próstata, podemos aspirar? Realisticamente, até onde podemos ir?

Hoje, eu arriscaria o palpite que a maioria dos esforços e das aspirações se dirige para a transformação deste câncer de uma doença letal em uma doença crônica. Creio que, lá no fundo, todos, pacientes e médicos, desejamos a cura – por nós e para nós, por todos e para todos. Porém, realisticamente, os resultados e progressos que temos visto até agora apoiam a ampliação da sobrevivência, ainda que algumas pesquisas usando novas ideias acenem com uma possível cura. Se o percurso seguido por essas pesquisas seguir o “tempo” das anteriores, serão muitos anos, possivelmente mais de uma década, até que estejam nas farmácias.

Um conceito que vem crescendo é o da medicina personalizada. Tratamentos novos, como a abiraterona e a enzalutamida, aumentam a esperança de vida em muitos meses, ou até alguns anos, em muitos pacientes, mas não funcionam em outros, cuja sobrevivência não aumenta e ainda por cima devem enfrentar os efeitos colaterais desses medicamentos. São os mesmos medicamentos, mas os resultados são diferentes. Impõe-se a conclusão de que os pacientes são diferentes. É uma constatação que reforça o conceito de medicina personalizada.

Algumas terapias, inclusive as mais comuns, como a hormonal, produzem resultados muito diferentes. Li, recentemente, a declaração jocosa de um médico-pesquisador que bastava que todos se comportassem como um dos seus pacientes que há 19 anos responde bem à terapia hormonal. Em contraste, alguns não respondem e não aumentam a sobrevivência.

Comparando os que respondem e os que não respondem aumentamos o conhecimento. Por exemplo: os que expressam uma versão danificada do receptor andrógeno AR-V7 não respondem aos tratamentos de eficiência comprovada, Zytiga (acetato de abiraterona) e Xtandi (enzalutamida). Como os pacientes de câncer da próstata são centenas de milhões no mundo, os que não respondem são um mercado importante e já há empresas investindo em pesquisas sobre tratamentos diferentes (usando, por exemplo, a galeterona) para essas populações.

Minha opinião leiga, de paciente: os eixos principais da pesquisa médica e biológica estão mudando, do medicamento para o paciente e da busca de uma cura do câncer (sempre desejada) para a sua transformação em uma doença crônica.

Aconselho a leitura do trabalho de Maha Hussain, Professor of Medical Oncology na Universidade de Michigan, “In 2016, What is Progress in the Treatment of Hormone-Naïve Prostate Cancer?”, publicado em 17 de janeiro de 2016.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Envie para um paciente, sua família e seus amigos, se você achar que essas informações podem ajudar.

Os benefícios da abiraterona são maiores do que se pensava

 

 

Quando, num experimento em andamento, os dados provisórios permitem ver que há um benefício claro para os que estão no grupo experimental, por razões humanitárias se permite que os membros do grupo placebo passem para o experimental. Essa passagem é chamada de cross-over.

Uma equipe capitaneada por Wayne Kuznar reanalisou os dados de uma pesquisa que, a partir de um ponto, permitiu o cross-over.

A pesquisa lidava com mais de mil pacientes adiantados, que tinham metástases crescentes e que já não respondiam ao tratamento hormonal, chamados de pacientes mCRPC, mas que não tinham sintomas ou tinham sintomas leves. Quando foram diagnosticados, metade dos pacientes nos dois grupos tinham um Gleason ≥8 (esse sinal significa igual ou mais alto do que 8).

Foram dois grupos iguais, um, placebo mais prednisona, e outro acetato de abiraterona (1.000mg. diariamente) mais prednisona.

Por mais frio que pareça, os pesquisadores calculam as mortes, além de registrarem quando elas acontecem. Depois de pouco mais do que quatro anos, 741 pacientes tinham morrido.

Quarenta e quatro porcento dos pacientes do grupo placebo passaram para o grupo experimental e começaram o tratamento com abiraterona. É o cross-over.

Porém, esses pacientes passaram um tempo, grande para alguns, sem esse tratamento, o que prejudicou seu resultado. Os ganhos com o uso da abiraterona

Inicialmente, se calculou que a mediana (metade mais, metade menos) de sobrevivência geral, considerando todas as causas de morte, era de 30,3 meses no grupo placebo e de 34,7 meses no grupo abiraterona. O risco de morte no grupo abiraterona era 19% menor. Porém, quando foram levados em consideração os efeitos da mudança de grupo, a diferença aumentou para 26%.

Já sabemos que alguns pacientes não respondem ao tratamento com abiraterona (ou enzalutamida) e já sabemos o porquê. Esses tratamentos aumentam a vida dos pacientes em alguns meses, na mediana. Metade vive mais do que isso e alguns pacientes vivem muito mais. É o que temos, mas há algumas promessas sendo pesquisadas.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ