A TRAJETÓRIA DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO EM CINCO IDIOMAS: ASCENSÃO RÁPIDA E QUEDA LENTA

O que virá após a crise política? Possivelmente o modelo econômico mais adequado para o Brasil voltará à pauta. A discussão não será só política, no Congresso, nos partidos: será acadêmica também. Com o intuito de informar qual foi a trajetória de alguns dos conceitos centrais das teorias que, subjacentes às políticas, se enfrentam no mundo acadêmico, coletei informações sobre seu uso, crescimento e desuso nos livros, nos milhões de livros que foram xerocados pela Google, publicando os resultados na coluna “Pesquisando”, disponível na revista Em Debate clicando em

http://opiniaopublica.ufmg.br/…/…/edicao/5-pesquisando13.pdf

 

Agradeço aos que quiserem dar a mim a honra de uma leitura.

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Vidas desiguais, mortes desiguais

Durante os “bons anos” pós Estatuto e durante a era Beltrame houve uma redução na taxa de mortes por homicídios no Estado do Rio de Janeiro tanto entre brancos quanto entre negros. Se quiserem dar-nos a honra de uma leitura, Sandra Andrade e eu analisamos séries temporais que mostram que persistiram diferenças absolutas entre a vitimização dos negros e a dos brancos. O artigo se chama “Vidas Desiguais, Mortes Desiguais” e está disponível em

opiniaopublica.ufmg.br

http://opiniaopublica.ufmg.br/site/files/artigo/7-vidas-glaucio1.pdf

Desigualdades….

Prestamos muita atenção à desigualdade de renda e pouca à desigualdade cognitiva. A desigualdade de renda, por convenção, se mede anualmente. Em circunstancias improváveis, mas não impossíveis, ela pode ser alterada em poucos anos. A desigualdade cognitiva é mais difícil de reverter e tende a marcar as pessoas durante toda a vida. Ela é um dos determinantes da desigualdade de renda. E vice-versa.

São conceitos novos, mas desigualdade de renda é uma noção mais antiga. A expressão “cognitive inequality” é muito mais recente. Apareceu, timidamente, três décadas e meia mais tarde.

A desigualdade cognitiva não é um conceito estabelecido que, se mencionado, desperte uma luz de compreensão. Está sendo construído. É usado para descrever diferenças de conhecimento, como o número de palavras conhecidas, o tempo até o reconhecimento dessas palavras, a capacidade analítica da pessoa, a capacidade de resolução de problemas e outras acepções. Uma observação relevante é que se refere a diferenças entre as pessoas em relação ao que sabem e conseguem elaborar, mas também em relação ao potencial, que insere uma dimensão temporal e, até mesmo, a noção de limite: até onde podem chegar.

As medidas desenvolvidas nas últimas décadas mostram que as diferenças sociais, entre classes, raças (associada às diferenças entre classes) e também entre localizações geográficas, e muitas diferenças mais, já estão presentes em crianças pequenas.

São diferenças entre o que são; são diferenças entre o que podem ser. Parte dos caminhos da vida já está condicionada nessa idade. Os trilhos da vida já estão se formando, dando limites baixos a uns, estimulando voos maiores a outros.

Condicionada, mas não determinada.

Mudar é possível.

As mudanças podem vir de várias fontes, podem ser de diversos tipos. Em países pobres, teoricamente, o estado é visto como um instrumento mais importante para reduzir as desigualdades cognitivas.

Teoricamente.

Infelizmente, em muitos desses países pobres, o estado é não apenas um estado em si, mas é também um estado para si.

Vamos “aprender de fora” para sonhar melhor, sonhar com um estado para o seu povo. Um programa experimental foi criado para ajudar crianças de três anos de idade e seus pais. Foi criado pelo U.S. Department of Health and Human Services na década de 90.

Programas experimentais começam em escala pequena. Usualmente custam muito menos do que os programas definitivos, partes de políticas públicas mais ambiciosas. Tentam diferentes soluções e aprendem com os experimentos. Os erros são baratos. Requerem avaliações – como todas as ações públicas deveriam requerer.

John Love e uma ampla equipe realizou uma dessas avaliações parciais. O programa se direcionava a mulheres gravidas de baixa renda e a famílias de baixa renda com crianças pequenas. Estudaram cerca de três mil famílias para avaliar 17 programas. “Cercaram” bem as perspectivas de análise: entrevistaram os profissionais que atendiam essa população, avaliaram as crianças e observaram as interações entre as crianças e suas famílias até os três anos de idade.

Usaram regressões, um instrumento estatístico padrão, para comparar esse grupo experimental com um grupo controle que não era parte do programa. As crianças do programa apresentaram muitas vantagens: desenvolvimento verbal, desenvolvimento cognitivo, maior investimento emocional do pai e/ou mãe (usualmente mãe), maior capacidade de atenção e comportamentos agressivos menos frequentes.

Uma constatação muito importante: os pais e mães que participavam do programa davam mais apoio emocional às crianças, estimulavam mais as crianças ao desenvolvimento verbal e à aprendizagem, liam com mais frequência para seus filhos e batiam neles com menos frequência.

Mudar é possível.

Mas o que foi aprendido com o experimento não parou aí. Os melhores resultados foram obtidos através da mistura de atendimento em casa e no centro onde era proporcionada a maioria dos serviços e, muito importante, os atendimentos que começaram mais cedo.

Outros países, onde a saúde pública é levada em sério e o estado emprega poucos políticos – e assim mesmo em caráter temporário – e muitos profissionais competentes, trabalham com programas semelhantes que objetivam reduzir as desigualdades cognitivas.

Quanto custa um programa desses?

Em 2016, o programa Head Start custou aos cofres federais americanos, aproximadamente, 635 milhões de dólares, ou dois bilhões de reais.

É difícil não sonhar com os benefícios de um programa semelhante, devidamente adaptado e ajustado às condições brasileiras. Porém, nesse momento, as desigualdades de renda e de poder voltam ao meu pensamento e forçam a entrada na equação, não me permitindo continuar sonhando.

Não há como esquecer o loteamento do Ministério da Saúde. E, como falei em custos, o meu pensamento não consegue esquecer: o rombo deixado por Eike Batista, gentilmente solto pelo ministro Gilmar Mendes. A Folha de São Paulo estimou esse rombo em 29,2 bilhões de reais. O equivalente ao orçamento do programa Head Start durante cerca de quinze anos- a preços americanos.

A exatidão da cifra é menos importante do que a sua escala para essa comparação apenas ilustrativa. As desigualdades no Brasil são de outra dimensão, de outra realidade. É obsceno que uma só pessoa tenha, ou tenha tido, uma fortuna individual capaz de elevar significativamente o capital cognitivo da infância e da juventude do país. E que “o sistema” favoreça um punhado dessas pessoas em detrimento de milhões de brasileiros.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Triste segunda feira

Triste segunda feira

Ler o artigo de Ligia Bahia n’O GLOBO de hoje, segunda feira, 8 de maio de 2017, em outras circunstâncias, provocaria um sorriso, uma alegria. Afinal, é um artigo que mostra o quanto uma autora pode fazer nas poucas linhas disponíveis para quem escreve para a seção de Opinião. Um artigo escrito por uma doutora em Saúde Pública que pode ser compreendido pelo leitor comum; um artigo que trata de tema relevante para o país. Um excelente artigo.

A relevância e o conteúdo do tema, que recomendam a autora, entristecem o leitor. Mostram que o governo Temer está disposto a sacrificar a saúde dos brasileiros para aumentar a probabilidade de aprovar as mudanças econômicas que muitos julgam indispensáveis para que o país saia do fundo do poço.

O artigo de Ligia Bahia vai além de suas palavras: provoca reflexões nos leitores, que enchem a cidadania de apreensões e tristezas.

A cultura política corrupta e apodrecida, da qual Temer é parte e símbolo, cobra muito caro a sua anuência. O preço pago por Temer pelos votos de apoio de um partido mediano é a exclusão da competência do Ministério da Saúde. Não esqueçamos que um ministro não é, apenas, UM ministro. Cada ministro deste tipo traz consigo toda uma velharia incompetente e carcomida que ocupa cargos onde decisões importantes são tomadas. Decisões que afetam milhões de brasileiros, das quais a formação, a informação atualizada e a competência foram excluídas. Decisões que variam com os ventos do mercado político, de votos e apoios e não com a necessidade da população.

E mais brasileiros adoecem e não são tratados.

Muitos, demasiados, morrem.

Triste segunda feira.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Um choque no coração que não aconteceu

Na terça feira, tinha que fazer uma cardioversão, um procedimento hospitalar que hoje é para outpatients. Chegas, te examinam, te espetam, te ligam a diversos aparelhos, te anestesiam, te dão um choque elétrico, esperam que acordes meio bobo e, se tudo estiver bem, alguém te leva para casa. É um procedimento que já fiz, há uns vinte anos.

Dormi pouco, até as duas, pensando em coisas práticas. Acordei e peguei uma carona com uma das senhoras que me acolheram durante uns dias, fiz a burocracia do check in, fui para o pré-operatório, me espetaram, coletaram sangue e me ligaram a monitores. Pressão alta. Perguntei se eu estava fibrilando, responderam que sim, perguntei se era a-fib ou a-flutter; responderam “os dois”.

Aparece uma senhora, de um grupo chamado Angels of Mercy, da igreja católica na qual fui à missa no domingo anterior, mobilizada pelo Padre Gillespie e outros amigos da igreja. Era enfermeira aposentada. Ficamos conversando, enquanto eu esperava ….fibrilando… para ir à sala de operações. Com fibrilação, a respiração fica difícil, o cansaço é claro e a visão um pouco turva.

Um intervalo nas preparações, e ela me perguntou se eu não gostaria de rezar. Rezamos um Pai Nosso, uma Ave Maria, e um Glória.

Me levaram para a sala de operações. Me deram oxigênio e começaram a injetar o anestésico. Colocaram os monitores em funcionamento. Alguém olhou para os monitores e disse: “ele está com o sinus normal”. Esperaram uns minutos e começaram a retirar tudo. E me mandaram para casa. O procedimento que não aconteceu, a cardioversão através de um choque no coração, era para restaurar o sinus normal…

Fui tomar um brunch. Era depois das onze. À tarde aproveitei para andar vinte minutos no Westside Park, onde corri (e depois andei) durante tantos anos.

No dia seguinte, entrei no Kia emprestado pelo meu amigo,o Pastor Earl Lawson e dirigi duas horas e pouco até Lake Mary. Com mais energia, com visão clara e pensamento lúcido – como não tinha há vários anos.

E agora?

Vai saber…

Terapia Hormonal e Osteoporose

Uma pesquisa modesta, feita na Espanha, traz algum alento aos que fazem terapia hormonal: Ojeda e colaboradores descobriram que é modesta a perda de massa óssea e relativamente baixo o risco de fraturas.

Examinaram 150 pacientes com a idade média de 67 anos e cujas terapias duraram, na média, 24 meses. Coletaram dados demográficos e examinaram a densidade mineral óssea e fraturas clinicas antes da terapia e até um ano após a terapia.

Antes do tratamento, 41% dos pacientes já tinham osteoporose ou massa óssea insuficiente.

Um ano depois de iniciado o tratamento, a densidade mineral óssea diminuiu 3,7% na espinha lombar e 2,1% no pescoço do fêmur.

Porém – e essa é a boa notícia – durante o segundo e o terceiro ano a taxa de perda foi menor. No total, somente 2,7% dos pacientes sofreram uma fratura. Os pesquisadores entrevistaram, telefonicamente, oitenta pacientes numa etapa seguinte da pesquisa e somente um paciente teve algum tipo de fratura. Não sei qual a incidência de fraturas entre não pacientes da mesma idade, mas é em comparação com idosos da mesma idade que não fazem terapia hormonal que esses dados devem ser avaliados.

Bem melhor do que eu pensava….

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

 

Saiba mais:  Ojeda S., Lloret M., Naranjo A., Déniz F., Chesa N., Domínguez C. e Lara P.C., Androgen deprivation in prostate cancer and the long-term risk of fracture, em Actas Urol Esp. 2017 Mar 1. pii: S0210-4806(17)30012-8. doi: 10.1016/j.acuro.2017.01.005.

RESULTADOS DE UMA CAMPANHA CONTRA O FUMO

Em 2014 foi iniciada uma campanha de esclarecimento, conscientização e prevenção a respeito dos danos causados pelo fumo chamada Tips. Boa parte da campanha se baseou em relatos de fumantes e antigos fumantes. Os organizadores estimam que, devido à campanha, nada menos do que 1,83 milhões de fumantes tentaram deixar o vício, um número substancial, mas apenas 104 mil conseguiram abandoná-lo definitivamente.

Eu aprendi três coisas com esses resultados:

1. É muito difícil abandonar o vício: menos de seis por cento conseguiram como resultado dessa campanha;

2. Não obstante, os resultados valeram o esforço da campanha: mais de cem mil deixaram. Muitas, muitas vidas foram salvas.

3. Essas estimativas são frágeis porque não sabemos quantos deixariam de fumar sem a campanha.

Dados epidemiológicos estimam que quase meio milhão de americanos morrem anualmente devido às consequências, diretas e indiretas, do fumo.

Pior: para cada um que morre, há trinta vivendo com sérios problemas e restrições. Vidas encolhidas, irremediavelmente comprometidas.

Seria bom se, na vida de cada um, essa luta começasse mais cedo. Lembro-me de Yul Brinner, ainda relativamente jovem, no leito de morte, respondendo à pergunta (se me lembro bem…): “há algo que queira dizer?”

Respondeu: “don’t smoke”. Não fumem.

 

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

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