A corrupção e o câncer do ovário

Lúcia, dei uma espiada nas estatísticas a respeito do câncer do ovário, conforme pediste. Como esperado, as melhores são as dos países com mais alto nível educacional e mais alta renda, o que introduz um viés quando transferimos conhecimento baseado nas estatísticas desses países para informar a cidadania de países com informação menos confiável.
Nos Estados Unidos, a chance de uma mulher ter câncer do ovário em qualquer momento da sua vida é uma em 75 e de morrer por causa desse câncer é uma em cem.
Entre as que foram diagnosticadas com esse câncer, duas de cada três morrem dele. É um câncer agressivo. Cinco anos depois do diagnóstico, 45% das pacientes estão vivas.
Que fatores aumentam ou diminuem o risco de morrer desse câncer? A idade é um fator importante: as pacientes mais jovens (menos de 65 anos) têm um risco morrer de morrer desse câncer.
A Grã-Bretanha usa um corte etário diferente: mulheres jovens (15 a 39) e não jovens (>40). A sobrevivência aos cinco anos no primeiro grupo é 84%, mas apenas 14% no grupo de idosas (80-89).
Nesse câncer, como em tantos outros, o diagnóstico precoce salva muitas vidas. Se o câncer não tiver metastizado para fora do ovário (estágios IA e IB), 92% das pacientes estão vivas cinco anos depois do diagnóstico. Com um bom sistema de informação, educação e saúde pública, a maioria dos casos poderia ser diagnosticada cedo, mas não é. Nos Estados Unidos somente 15% dos casos são diagnosticados cedo. Imagino que, no Brasil, a percentagem seja ainda mais baixa.
O diagnóstico tardio piora muito as estatísticas e o risco que elas representam: se diagnosticada no estágio IV, a chance de qualquer mulher estar viva cinco anos depois cai para 17%.
Esses dados devem ser tomados com muito cuidado porque há muitas diferenças entre os sistemas educacional, médico, hospitalar e de saúde pública que covariam com a renda per capita.
É mais um exemplo de um câncer cuja mortalidade depende da eficiência do sistema de saúde. Como, no Brasil, uma parte considerável é de gestão pública, a política tem um papel ainda mais relevante.
Reitero que, em se tratando de câncer, os erros podem ser fatais. Todo tratamento deve ser discutido com a equipe médica, cuja formação (onde estudaram?) e atualização se associam com a sua probabilidade de sobreviver. A auto-medicação ou as indicações de amigos e familiares podem ser letais. Procure seu médico.
Na minha cabeça, é nítida a relação entre a corrupção e a incompetência no setor público, de um lado, e o alto número de vítimas que poderiam ter sido salvas e não o foram e, olhando para o futuro, das que morrerão desnecessariamente. Com investimentos modestos muitas vidas seriam salvas. Se sairmos da análise de primeira linha e aprofundarmos a pesquisa, veremos que os grandes corruptos, sejam pessoas ou instituições, são assassinos de massas.

Gláucio Soares IESP-UERJ

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Aproximando o futuro

Você, ou um ser querido, enfrenta um câncer da próstata. O avanço do câncer preocupa, seja porque está avançando, seja porque pode recomeçar a avançar. Você olha com esperança para as pesquisas, os novos medicamentos que estão sendo testados, novas terapias ETC. Você sabe que a sobrevivência aumentou muito nos últimos dez anos, em parte devido a novos tratamentos.

Porém, você também sabe que muitas pesquisas acabam não produzindo novos medicamentos e que muitas das que alavancam tratamentos mais avançados demoram muito tempo até estarem disponíveis.

Pesquisadores consultados afirmaram que, na atualidade, a duração prevista das pesquisas é de 11,5 a 16,2 anos, calculando amostras de cerca de mil pacientes, com um tempo de recrutamento de cerca de cinco anos. São pesquisas que não beneficiarão muitos dos atuais pacientes, que morrerão antes e não somente de câncer. Nas idades avançadas da grande maioria dos pacientes, muitos morrem – a maioria de outras causas – em quinze anos.

Se você tem esse tipo de preocupação, você vai gostar da notícia abaixo.

Os pesquisadores de um grupo de trabalho chamado

ICECaP acompanharam pacientes durante dez anos – na mediana – e concluíram que há uma correlação muito alta entre a sobrevivência em geral (, chamada de OS, overall survival, incluindo todas as causas de morte) e o tempo que leva até a metástase, em pacientes com canceres localizados.

Em parte, isso é óbvio e esperado. É a metástase que mata. Quanto mais tempo até a metástase, maior a sobrevivência…. Porém, o tempo que leva do aparecimento da primeira metástase até a morte não é sempre o mesmo. Longe disso.

Exemplo: se a metástase for para uma víscera, particularmente para o fígado, a sobrevivência mediana é menor do que a metástase mais comum, que é para os ossos.

Talvez muitas dessas diferenças já estejam embutidas no tempo até o aparecimento da primeira metástase.

A relevância para o desenvolvimento de novos tratamentos e novos medicamentos é que não será obrigatório esperar até que muitos pacientes morram para apresentar conclusões preliminares das pesquisas e submeter esses possíveis tratamentos e medicamentos à apreciação dos órgãos reguladores, que devem aprovar o seu uso para que possam ser fabricados e vendidos.

Terão que esperar menos, em alguns casos, vários anos menos.

Qual o resultado animador? A correlação de Kendall entre a OS, sobrevivência geral, e o tempo livre de metástases (metastasis-free survival – MFS) é altíssima, 0,91. O chamado coeficiente de determinação, R2, é 0,83. A regressão foi entre a sobrevivência geral aos oito anos e a ausência de metástase aos cinco anos.

Confirmada essa associação para vários tipos de pacientes, os medicamentos chegarão às prateleiras três anos antes! É imaginável que esse ganho seja aumentado se essa associação se revelar tão íntima entre medidas com um intervalo maior entre elas.

Tratamos de estender vidas humanas. Se os medicamentos mais recentes estivessem disponíveis três anos mais cedo, dezenas de milhões de anos de vida poderiam ter sido salvos em todo o planeta.

Vale a pena ler mais:

Xie W, Regan MM, Buyse M, et al. Metastasis-free survival is a strong surrogate of overall survival in localized prostate cancer [published online August 10, 2017]. J Clin Oncol. doi:10.1200/JCO.2017.73.9987.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Câncer avançado: terapias combinadas?

Nicholas J. Vogelzang, em artigo recente, trata de casos de câncer da próstata que são diagnosticados quando o câncer já está adiantado, apresentado metástases. Segundo Vogelzang, esses casos correspondem a 3% do total de diagnosticados nos Estados Unidos. Desde a revolução do PSA foi possível identificar canceres assintomáticos e começar tratamentos meses, até mesmo anos, antes do primeiro sintoma percebido como tal pelo paciente.

Até poucos anos atrás, esses pacientes adiantados recebiam tratamento hormonal. A químio só começava quando o tratamento hormonal já não impedia o avanço do câncer.

As coisas começaram a mudar com uma pesquisa chamada CHAARTED (E3805) que mostrou que a sobrevivência total (incluído todas as causas de morte) podia ser aumentada de 13,6 meses, na mediana, se a químio (docetaxel) fosse adicionada ao tratamento hormonal (ADT).

Voskoboynik e outros pesquisadores lembram que um ganho de dois ou três meses na sobrevivência era considerado o bastante para mudar de um tratamento padrão para outro.

Agora é diferente, melhor. Há mais opções e os ganhos são maiores.

Outra pesquisa, chamada STAMPEDE, demonstrou um ganho de 15 meses na sobrevivência de vida (incluindo todas as causas de morte) se homens que ainda respondiam ao tratamento hormonal recebessem também docetaxel (químio).

Claro, uma das preocupações de médicos e pacientes informados era com os efeitos colaterais dos dois medicamentos.

Este ano, na reunião anual da ASCO, foram apresentados mais dados da pesquisa/experimento chamada LATITUDE, que mostraram que o ADT MAIS acetato de abiraterona, (nome comercial Zytiga), medicamento mais recente, parecia dar melhores resultados do que a combinação ADT+Docetaxel. Reduzia o risco de morte em 37% e cortava pela metade o risco de complicações serias nos ossos. Muito importante, aumentava bastante o tempo até o novo avanço do câncer. Isso no caso de pacientes recém-diagnosticados com canceres locais avançados ou já com metástases.

A abiraterona não está sozinha nesse espaço terapêutico. Ela tem competidoras como a enzalutamida, (nome comercial Xtandi), cujos fabricantes não ficaram atrás e já apresentaram dados mostrando que o tratamento combinado ADT+Xtandi também produz benefícios consideráveis.

São boas notícias e muitos médicos já estão mudando suas recomendações.

Converse com seu oncologista. Lembre-se de que esse é um site de/por/para pacientes e nada mais. Não tome nenhuma decisão sem consultar pessoalmente o seu médico.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

A Suíça e as mortes por armas de fogo

Em discussões a respeito dos efeitos da presença de armas de fogo nas residências sobre as mortes com armas de fogo, particularmente sobre os homicídios, frequentemente a Suíça é usada como exemplo pelos armamentistas. Não obstante, a informação é pobre e raramente os dados são analisados adequadamente.

É claro que, se quisermos discutir a Suíça como exemplo, convém ter dados atualizados e mais completos do que se lê nos jornais. Em primeiro lugar, o número de armas de propriedade de civis não é invariante no tempo: ao contrário, declinou aceleradamente: eram cerca de três milhões e quatrocentas mil em 2005 e no ano passado eram dois milhões. A taxa de armas de propriedade de cidadãos suíços declinou de 45,7 por cem em 2005 para 24,5 em 2016. A queda é aceleradíssima.

Qual o efeito da redução das armas na Suíça? A queda nas mortes totais por armas de fogo acompanhou essa redução: a taxa era de seis por cem mil em 1996, quatro em 2005 e três em 2013. Se a presença de armas se correlacionasse com a segurança, a ausência de violência e a paz, essa taxa deveria ter aumentado e não diminuído. Como em outros países “desenvolvidos”, a maioria das mortes se deve a suicídios.[i]

É importante conhecer a composição das armas: as armas de mão são menos da metade das armas de cano longo. Em 2005, 28.6% das residências suíças tinham, pelo menos, uma arma de fogo, mas apenas 10,3% tinham armas de mão (handguns). Para cada residência com uma arma de mão, havia duas com outro tipo de arma de fogo, a maioria de uso militar.

É preciso conhecer as dificuldades em contar corretamente as armas. É só ler Aaron Karp para ter uma noção.[ii]

É indispensável não confundir a propriedade de armas com a guarda de armas de propriedade do governo. Quando somente as armas de PROPRIEDADE de alguém na residência são computadas, a Suiça é, apenas, a 28o colocada entre 178 países.

É um país bem estudado. A Universidade de Sidnei lista quase cento e cinquenta trabalhos (a grande maioria disponível em inglês ou francês) em

http://www.gunpolicy.org/firearms/region/switzerland

Ou seja, a experiência suíça não apoia as pretensões dos armamentistas.

[i] WHO. 2016 ‘Inter-country Comparison of Mortality for Selected Cause of Death – Gun Suicide in Switzerland.’ European Detailed Mortality Database (DMDB). Copenhagen: World Health Organisation Regional Office for Europe. 25 June

[ii] 2007 ‘Completing the Count: Civilian firearms.’ Small Arms Survey 2007: Guns and the City; Chapter 2 (Annexes 1-5), p. 67 refers. Cambridge: Cambridge University Press. 27 August.

GLÁUCIO SOARES                   IESP-UERJ

O Monstro mora lá em casa

Melissa é uma adolescente de 14 anos que conheci no interior do Nordeste, na divisória entre o Agreste e o Sertão. É a filha mais velha de Euricéia que, há alguns anos, foi viver com outro companheiro, com o qual teve mais três filhos. É um alcoólatra, praga disseminada no interior do Nordeste. Quando está alcoolizado, vem à tona o pior da cultura machista da região: a definição da mulher como inferior ao homem, a crença de que as mulheres são um corpo auxiliar do homem, e que seus companheiros podem deflagrar violência incontida contra ela. Melissa defende Euricéia, mas, por ser mulher, sua defesa não encontra legitimidade na população nem nas instituições. Na última surra, Melissa tentou segurá-lo e impedi-lo de continuar chutando e socando a mãe. A agressividade do padrasto se voltou contra ela: enfurecido, agarrou uma chave de fenda e bateu na cabeça de Melissa, que perdeu a audição em um ouvido. O dano é permanente. Tinha 13 anos quando isso aconteceu.

Redes sociais interpessoais, particularmente de familiares e de amigos, são importantes porque facilitam sair do ambiente violento, concedem um tempo para respirar, um lugar para ficar, às vezes acompanhado de quantidades pequenas de dinheiro para necessidades mínimas. Euricéia não tinha rede local pessoal e as instituições preferiam ignorar situações como essa; por isso, sofreu durante anos. Há leis que de fato não vigoram em todo o território nacional; há bolsões onde a cultura impede a sua aplicação. As instituições que existem na realidade são muito diferentes das que encontramos no papel. As instituições não a protegiam, a ignoravam. Ao contrário, uma rede de pessoas e instituições guiadas por uma cultura machista funcionava contra ela. A solução apareceu, casualmente, quando um contribuinte da instituição católica que a ajudava assistencialmente e educava os seus filhos resolveu comprar a briga.

Porém, essa briga não é entre bandidos e mocinhos. Euricéia já havia sido culturalmente amputada. Não era uma santa lutadora.

Recebeu uma casa simples para morar. Uma das condições para permanecer na nova morada é cuidá-la, consertá-la etc., não obstante, Euricéia não faz nada disso, sob a alegação de que “isso é coisa de homem”. As interpretações dos que a conhecem variam desde considerá-la uma vítima, até uma preguiçosa à espera de um homem para “tomar conta” dela e dos filhos, uma postura chamada de Complexo de Cinderela por Collette Dowling, uma jornalista americana. Essas amputações são frequentes e imobilizam muitas mulheres.

Aguentar esse tipo de violência durante anos não é exclusividade de pobres ou residentes do sertão. Patrícia é uma psicóloga que cresceu numa família funcional. Namorou e, aos três meses, engravidou. Sua história é exemplo da importância da rede de apoio, no caso, uma importância negativa. A família dela se opôs ao casamento, mas a dele não informou Patrícia sobre com quem ela iria se casar, para que exercesse seu direito de escolha, uma escolha baseada em informações reais a respeito do parceiro. Em pouco tempo, Patrícia descobriu com quem se casara: um dependente químico, que vivia de golpes, tinha ficha policial, e era extremamente violento quando drogado ou alcoolizado. A rede da família do marido, embora gostasse de Patrícia, ocultou os vícios do rapaz, talvez na esperança de que o casamento o “consertasse”. Muitas mulheres acreditam (ou têm esperança) que podem “consertar” o marido ou companheiro. Algumas se especializam em companheiros “complicados” (alcoólatras, drogados, criminosos, deprimidos profissionais etc.). Rejeitam homens mais próximos da normalidade e escolhem os que precisam de cuidados. Querem ser mães de seus próprios companheiros e terminam servindo de sacos de pancada. É um fenômeno que começa a ser estudado e já tem nome: co-dependência.

Em poucos dias, Patrícia passou a viver o pesadelo da violência doméstica. Seu primeiro filho nasceu prematuramente, devido aos chutes recebidos na barriga. Porém, sua família se negou a recebê-la de volta, alegando que foram contra o casamento e que ela deveria arcar com as consequências de sua decisão. Rejeição conveniente e confortável, que eliminava os problemas que seus membros teriam que enfrentar se assumissem algum tipo de responsabilidade por Patrícia e seu primeiro filho. A rede mais importante a que as mulheres brasileiras têm acesso, a família, não a protegeu. Patrícia perdeu o emprego devido ao absentismo e à gravidez. Apanhou muito. Foi apenas quando uma amiga se dispôs a vender um apartamento e a deixou ficar lá até que o vendesse que Patrícia pode sair de casa – por seis meses. Mas a falta de segurança e as repetidas promessas do marido a fizeram voltar; mais uma vez se descuidou e o resultado foi o segundo filho. Mas nada mudou. Piorou: mais surras e, agora, ameaça de morte com um revólver. Patrícia, sem rede institucional ou pessoal de apoio, aguentou mais dois anos e meio até decidir fugir, no meio da noite, num caminhão com os filhos e suas coisas. Fugiu para o interior do estado, sem deixar pista. Na fuga, um ato inteligente: ignorou a rede que não a ajudara quando mais precisava. Sumiu.

Patrícia teve nova chance: competente, conseguiu empregos, através de concursos, com remuneração adequada. Encontrou outro companheiro, em nada parecido com o ex-marido, que aceitou seus filhos e com quem teve outros dois. Só entrou em contato com o primeiro marido anos mais tarde, para exigir pensão para os filhos dele. Quem a paga é a família porque ele continua drogado e sem trabalho fixo. Patrícia só reconstruiu sua vida e recuperou seus direitos, porque construiu nova rede pessoal e institucional. Passou a trabalhar no Judiciário e a rede institucional, que antes protegia o ex-marido, passou a protegê-la – no papel. Obteve o direito, mas raramente recebeu parte da pensão porque o ex-marido não “segurava emprego”.

Quando a violência se origina na própria família, a primeira rede de socorro, a vítima fica sem alternativa, o que é frequente nos casos de abuso sexual. Como não temos dados confiáveis brasileiros, usamos referências internacionais. Langan e Harlow concluíram que vinte por cento dos abusos sexuais de crianças são feitos pelo pai. As vítimas de estupro são jovens. Dezesseis por cento das vítimas de estupro têm menos de doze anos e metade tem menos de 18. A média das idades quando acontece o primeiro abuso é de 9,6 anos para meninas e 9,9 anos para meninos. Não é um crime entre estranhos: em 96% dos casos, a vítima conhecia o estuprador. Tende a ser seriado, contínuo e a acontecer dentro da rede familiar onde a relação entre vítima e monstro é permanente, o abuso tende a aumentar e dura, na média, quatro anos. Noventa e seis por centro dos que abusam são heterossexuais e mais da metade deles abusa outras crianças, dentro ou fora da família. O abuso sexual é um padrão comportamental.

É o caso de Tatiana, vítima de abuso sexual do pai e da mãe. É isso mesmo: do pai E da mãe. Hoje, com trinta e vários anos e seriamente traumatizada, não consegue se lembrar das primeiras vezes em que o abuso aconteceu. Sabe que era obrigada a participar das relações entre o pai e a mãe e que o pai fazia sexo oral nela. Sabe que não houve penetração, mas que o pai “se esfregava” nela. Os pais se separaram, mas continuaram a se visitar e a levá-la contra a vontade. Os demais membros da rede familiar não entendiam a resistência de Tatiana a visitar o pai, nem suas constantes fugas quando o pai visitava. Atribuíam o problema à criança, que consideravam difícil e agressiva.

O abuso sexual não sai barato, nem suas pesadas consequências se limitam a mulheres típicas da cultura de países industriais ocidentais: Haj-Yahia e Tamish, estudando vítimas palestinas, constataram maior incidência de psicoses, ansiedades, fobias, paranoias, depressão, TOC e outros problemas psicológicos entre vítimas do que em um grupo controle com características semelhantes. Pesquisas em outros países produziram resultados iguais.

As denúncias de abuso sexual são regularmente examinadas no que concerne veracidade e detalhe: dois por cento das feitas por crianças são falsas, percentagem que aumenta para seis entre adultos, mas esses patamares não valem para todas as culturas onde houve pesquisas.

Muitas destas violências não chegam a ser conhecidas pelas “autoridades”; trancafiadas nos segredos de família. Infelizmente, o abuso sexual de crianças acontece frequentemente, com a conivência e/ou a omissão culposa de outros membros da família.

O abuso de Tatiana durou toda a infância, até a morte do pai, quando ela tinha doze anos. Foram necessários mais dezesseis anos até que ela conseguisse falar a respeito, primeiro com a terapeuta, depois com algumas amigas e membros selecionados da família.

Pensou e planejou suicídio, e desejou a morte dos pais, mas não a planejou. Tem sérios problemas psicológicos que atribui aos muitos anos de abuso sexual – no mínimo quatro.

As entrevistas relatadas (Melissa, Euricéia, Patrícia e Tatiana) são parte de um projeto maior sobre violência doméstica. Foram pessoais, com corroboração de, pelo menos, uma pessoa não participante. Todos os nomes e outros identificadores foram alterados, mas as pessoas existem e as estórias são verdadeiras.

Acontece, nesse momento, com milhões de brasileiras e brasileiros.

Há um mês reencontrei Tatiana. Continua lutando contra as depressões e a síndrome de estresse pós-trauma. Tatiana conheceu duas irmãs mais jovens, filhas do mesmo pai. Ambas tinham sido estupradas pelo pai. O estupro era rotineiro.

Gláucio Ary Dillon Soares

IESP/UERJ

Esse texto, originalmente, foi publicado como artigo no GLOBO e editado posteriormente. Coloco nas mídias sociais em um esforço de informação e de conscientização. Foi revisto vários anos após, em agosto de 2017, em função de fatos novos, as conversas de Tatiana com suas irmãs menores (de outra mãe).

Quanto custa manter a podridão na Presidência até o fim do mandato?

No Estado do Rio de Janeiro, depois de vários anos – uma década – durante os quais a taxa de homicídios e outros indicadores de criminalidade declinaram, em função do Estatuto do Desarmamento e de políticas inteligentes adotadas durante a era Beltrame, e de esforços dentro e fora do aparelho do Estado.

Uma dessas instituições inteligentes e eficientes é o Disque-Denúncia que, no início do ano, completou 22 anos de serviços. O Disque-Denúncia funcionou como uma parceria público-privada. É um exemplo de instituição de inteligência que capta informações disponíveis, que alguém na população conhece, mas cuja vasta maioria não chega ao conhecimento da polícia.

Custava ao governo do Estado dois milhões de reais por ano.

Em sua existência, o Disque-Denúncia, sob a competente direção do Zeca Borges, recebeu, grátis, mais de dois milhões e trezentas mil denúncias até o início deste ano. O Disque-Denúncia foi uma peça essencial que retiraram dos bandidos mais de dez mil armas e 60 mil munições.

Quantas pessoas essas armas e munições teriam matado? Quantos dos leitores, amigos e familiares teriam sido feridos ou mortos? Quantas vidas foram salvas pelo Disque-Denúncia?

Pois bem, o Disque-Denúncia quase fechou. Leio que o governo estadual custeava 60% do seu orçamento. Deixou de fazê-lo com a crise. Dois de cada três operadores telefônicos foram demitidos. O trabalho, que era 24/7, passou a fechar durante oito horas, que incluem algumas das horas em que mais crimes violentos são cometidos. Aos domingos, o DD fecha.

É um deboche: somente as joias compradas por Adriana Anselmo e Sérgio Cabral e encontradas pela polícia, valem mais de R$ 11 milhões. O suficiente para manter o Disque-Denúncia funcionando em alto nível por mais cinco anos.

Não obstante, o deboche federal é um insulto aos brasileiros. Temer, para satisfazer a bancada do boi, perdoou dez bilhões das dívidas do setor.

É o suficiente para instalar um Disque-Denúncia como o existente no Rio de Janeiro em cada uma das unidades federativas, mantendo-as por 123 anos. Mais de um século com um Disque-Denúncia funcionando a contento em cada unidade da federação.

Calcule quantas vidas de cidadãos brasileiros custa a campanha para evitar que Temer seja investigado e processado e para manter a podridão na Presidência da República.

GLÁUCIO SOARES