A espiritualidade combate a depressão

As pessoas reagem de maneira muito diferente à iminência da morte. Uma das áreas de nosso interesse é a relação entre o grupo de comportamentos, crenças e atitudes associadas com a religião, por um lado, e o bem-estar psicológico dos pacientes no fim da vida.

Nelson e sua equipe pesquisaram essas relações entre 162 pacientes terminais que padeciam de AIDS e/ou câncer. Examinaram pacientes que já estavam internados em instituições dedicadas a tornar esse período pré-morte o mais confortável possível, sem qualquer aspiração ou tratamento curativo.

Usaram um questionário e escalas padronizadas.

O principal resultado foi uma clara associação negativa entre o bem-estar espiritual e a depressão. Parecem semelhantes, mas uma funciona no espaço do espírito e outra é um transtorno, uma disfunção no domínio da Psicologia e da Psiquiatria. Nessa pesquisa, as dimensões propriamente religiosas não apresentaram uma relação relevante com a depressão.[i]

[i] Christian J. Nelson, Barry Rosenfeld, William Breitbart e Michele Galietta, Spirituality, Religion, and Depression in the Terminally Ill, em Psychosomatics. Volume 43, Issue 3, Maio–Junho de 2002, pgs. 213-220.

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Religiosidade, espiritualidade etc. e a saúde física e mental de idosos

Há quase consenso de que a religião, a religiosidade e a espiritualidade “ajudam” a lidar com doenças, particularmente as graves ou as em fase terminal. Koenig, George e Titus estudaram pacientes idosos. A pesquisa é simples: uma enfermeira, treinada para participar da pesquisa, entrevistou 838 pacientes na medida em que eram internados numa instituição médica.[i]

A despeito da dificuldade no desenho da pesquisa, foi aplicado um questionário muito rico na mensuração da religiosidade e conceitos associados – o “bundle” sobre religião. Incluía escalas para medir a participação religiosa, tanto na organização quanto fora dela, a religiosidade “intrínseca”, a religiosidade, avaliada pelo idoso e também por observadores, medidas de espiritualidade (auto avaliada e também avaliada por observadores, e as experiências espirituais do dia a dia. O contexto psicológico e social também foi estudado: sintomas de depressão, o funcionamento cognitivo, o apoio social, a disposição em cooperar, e a saúde física (sempre obedecendo às duas avaliações, externa e do próprio paciente. As tradicionais variáveis sócio demográficas (idade, sexo, raça e educação) também foram incluídas.

O que descobriram?

A religiosidade e a espiritualidade se correlacionavam com maior apoio social, menos sintomas de depressão, as funções cognitivas funcionam melhor e houve menos obstáculos à cooperação com pessoas e grupos.[ii]

Havia, também, relações com a saúde física, mas menos intima do que com a saúde mental.

Evidente, evidencias como essas mostram a utilidade de estimular as funções religiosas e espirituais que os pacientes porventura tiverem como um importante reforço para as terapias convencionais.

[i] Religion, spirituality, and health in medically ill hospitalized older patients, J Am Geriatr Soc. 2004 Apr;52(4):554-62.

[ii] As relações foram estatisticamente significativas, umas no nível de P<.01 e outras no nível de P<.0001.

Estatinas e câncer da próstata

Em meados do ano passado, uma pesquisa feita na Dinamarca reacendeu o debate sobre a relação entre as estatinas e o câncer da próstata. A base de dados se refere a quase 32 mil pacientes diagnosticados entre 1998 e 2011, de 35 a 85 anos de idade.

A novidade desta pesquisa é que ela não se refere à capacidade (ou não) das estatinas de prevenir o câncer, mas a se o seu uso depois do diagnóstico afeta o avanço do câncer.

O acompanhamento começou um ano após o diagnóstico e foi relativamente curto, uma mediana de 2,8 anos (o que, não obstante, significa que metade dos pacientes foram acompanhados por mais do que 2,8 anos). Durante esse período morreram 7.365 homens do câncer da próstata e outros 11.811 de outras causas. Como é uma população com maioria de idosos, as mortes por outras causas são numerosas, sejam cancerosos ou não.

E as estatinas? A definição era simples: se houve duas ou mais receitas feitas após o diagnóstico.

Controlaram fatores óbvios como a idade, o ano do diagnóstico, o escore Gleason, o tipo de tratamento e fatores socioeconômicos. Com esses fatores controlados, os que usaram estatinas tinham um risco de morte por câncer da próstata 17% menor do que os não usuários e um risco de morte por toda e qualquer causa 19% menor.

Os dados também revelam o crescimento do uso de estatinas na Dinamarca: entre os diagnosticados de 1998 a 2001, 4% usaram estatinas durante o primeiro ano pós-diagnóstico; entre os diagnosticados depois, entre 2007 e 2011, 29% usaram estatinas.

Converse com seu oncologista ou urologista.

Signe Benzon Larsen, do Danish Cancer Society Research Center, em Copenhagen, e colegas publicaram a pesquisa no Journal of Clinical Oncology.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

DECLÍNIO DO PSA DEPOIS DA TERAPIA HORMONAL E SOBREVIVÊNCIA

Na primeira leva de tratamentos do câncer da próstata, o objetivo, claro, é a cura. Cirurgia, radiação e vários outros tratamentos são usados nesse momento, isoladamente ou em combinação. Se, esgotados esses recursos, o câncer não for curado, a maioria dos médicos considera que o câncer não pode mais ser curado. Nos Estados Unidos, essa situação é comunicada como parte de um dever de oficio; além disso, suspeito que os pacientes americanos fuçam a internet mais do que os brasileiros.

Há dois importantes senões nesse momento:

· Isso não quer dizer que os pacientes vão morrer deste câncer. Em verdade, a maioria morre de outras causas;

· Os tratamentos passam a ter outros objetivos, como parar, postergar o avanço do câncer ou reduzir a velocidade desse avanço, reduzir dor e desconforto nos casos mais adiantados etc..

Os tratamentos mudam e dependendo da existência – ou não – de metástase e da agressividade do câncer, muitos pacientes podem ser acompanhados sem tratamentos mais pesados ou invasivos. Caso contrário, um tratamento comum é o hormonal que busca reduzir os níveis de testosterona. O tratamento pode ser “mono”, sozinho ou combinado.

Uma pesquisa recente mostra que a redução do PSA nos sete meses (nada de magico nesse número – poderiam ser seis meses, dez meses etc.) após o inicio do tratamento se correlaciona intimamente com a sobrevivência. Se o PSA baixar a 0,2 ng/mL ou menos as perspectivas são muito melhores se comparadas com os pacientes cujo PSA era de 4 ng/Ml ou mais. O risco de morte era 82% menor. Boa notícia para mim, porque o meu PSA baixou a 0,05 ng/Ml.

Para entender bem o próximo resultado é preciso ter uma noção do que é mediana. Se você ordenar os pacientes de acordo com a sobrevivência, a mediana é o número de meses que separa a metade que viveu menos da metade que viveu mais. A mediana da sobrevivência (em meses) dos que baixaram o PSA a 0,2 ou menos é muito menor do que o grupo cujo PSA ficou em quatro ou mais após sete meses do inicio do tratamento. No grupo com PSA mais alto a mediana da sobrevivência foi 21,6 meses. Metade desses pacientes morreu antes de 21,6 meses do início do tratamento. A outra metade morreu depois ou não havia falecido quando a pesquisa foi encerrada. No grupo cujo PSA, depois de sete meses, estava em 0,2 ou menos, metade morreu antes de 72,8 meses, mais de seis anos, e a outra metade ou morreu depois ou continuava viva quando a pesquisa foi encerrada.

É uma diferença muito grande.

A pesquisa incluiu uma mistura de pacientes que só foram tratados com a terapia hormonal e de pacientes que, além da terapia hormonal, fizeram, também, quimioterapia. Nessa nota comparo, apenas, os que fizeram a monoterapia hormonal.

O artigo foi publicado no Journal of Clinical Oncology.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

O câncer da próstata “dá” em cachorros?

A função de Piper era discreta, mas importante. Piper estava encarregado de afugentar animais, particularmente pássaros, das imediações das pistas do aeroporto onde trabalhava, em Michigan. Os choques de aviões com pássaros já causaram milhares de quase acidentes e alguns acidentes. A aterrissagem e a decolagem são os dois momentos mais vulneráveis de um vôo. Piper era um segurança exemplar e era amplamente reconhecido no mundo dos treinadíssimos cães de segurança.

Piper morreu na semana passada, depois de lutar durante um ano contra um câncer da próstata. Embora o câncer tivesse sido diagnosticado no início de 2017, Piper trabalhou alegremente até poucos dias antes de morrer. Dez horas por dia.

No Natal ainda estava protegendo os viajantes.

Há uma elaborada mitologia popular sobre esse câncer. Primeiro, não afeta somente seres humanos; também afeta outros mamíferos.

Segundo, embora seja muito mais comum entre idosos, também afeta homens maduros. Em casos raríssimos afeta até crianças. A prevenção é a nossa arma mais eficiente.

Finalmente, não é um produto da civilização contemporânea e de suas contradições. Já foi encontrado nos ossos de múmias multimilenárias. São casos avançados, com metástase óssea. Não são mais frequentes porque a esperança média de vida era inferior às faixas etárias mais vulneráveis ao câncer da próstata.

Piper evitou sustos, ferimentos, possivelmente vidas.

https://www.washingtonpost.com/…/rip-piper-a-heroic-dog-w…/…

https://www.cbsnews.com/…/piper-the-airport-dog-loses-batt…/

https://www.cbsnews.com/…/piper-the-airport-dog-loses-batt…/

RIP Piper, a heroic dog who kept airport runways safe

Two years after the border collie went viral, he chased his last snowy owl from the Michigan airport where he worked.

WASHINGTONPOST.COM

Propina para um ou bolsa para dois milhões?

Vimos, hoje, a notícia a respeito da propina recebida por um funcionário da Receita Federal – a bagatela de 160 milhões. O Globo (G1) que, creio, não pode ser acusado de esquerdista, comunista etc. e tem uma competente equipe de repórteres e de revisores, informa que “Grupo dos irmãos Batista teria pago R$ 160 milhões para agilizar liberação de créditos tributários.” Essa é a propina total, paga ao longo de vários anos, a um fiscal da Receita. A delação foi feita pelos responsáveis pela própria JBS.

Há, da parte da direita mais sectária e mal informada, a impressão de que o Bolsa Família seria um programa caríssimo e muito mal administrado.

Nem um, nem outro.

Em 2015, o custo total do programa foi cerca de 27 bilhões de reais. Um pouco mais de meio por cento do PIB. No mesmo ano, as renúncias fiscais (impostos de que o Estado abriu mão), programas que alguns, ironicamente, chamam de “Bolsa Empresário”, equivaleram a 400 bilhões de reais em 2017. A fonte não é Granma, jornal oficial do PCC (cubano). É, uma vez mais, o insuspeitíssimo G1. Claro que há partes válidas no argumento de que as renuncias fiscais contribuem para combater a recessão etc.

O Bolsa Família tem benefícios; porém, muitos não dispõem dessa informação. É fácil aceitar dois desses: a elevação do nível educacional das crianças das famílias beneficiadas e uma redução dos gastos médicos graças a redução da fome e da desnutrição. E há quem defenda, com dados e seriedade, que o Bolsa Família tem um expressivo efeito multiplicador.

Porem, o meu foco não é esse. Voltemos à noticia de hoje, dos 160 milhões que teriam sido recebidos por um funcionário corrupto da Receita.

Comparemos com o Bolsa Família: quanto recebem os beneficiados? Quem são eles? Quem pode receber?

Busque a informação na Caixa Econômica: para participar, é preciso que a família esteja em situação de pobreza ou de extrema pobreza. As famílias devem ter renda mensal de até R$ 85,00 por pessoa (extremamente pobre) ou que sejam pobres, com renda mensal entre R$ 85,01 e R$ 170,00 por pessoa (pobre).

Se você, que pertence à classe média e mora no Rio de Janeiro (ou cidade equivalente) teve que pedir o almoço por entrega e um refrigerante, você gastou a renda mensal de uma pessoa extremamente pobre. Essa pessoa recebe do PBF aproximadamente a mesma quantidade, 85 reais.

Voltemos ao nosso possível corrupto da receita. Quantas pessoas seriam ajudadas pelo PBF com o que parece que o nosso corrupto recebeu de propina?

Só a propina equivale a 1.882.352 bolsas. Chegando perto de dois milhões de bolsas. Só esse ladrãozinho e seu grupo (se é que, realmente, receberam propina da JBS – tudo sujeito a confirmação) recebeu o equivalente ao benefício anual de 156.863 pessoas paupérrimas.

Essa é a medida da corrupção e das injustiças que elas representam.

Para visualizar melhor, encha o Beira Rio, o Engenhão, o Pacaembu e o Independência com pessoas muito, muito pobres, subnutridas, em andrajos, beneficiários do Bolsa Família. Aquela pessoa, ou aquele grupinho, afanou o equivalente à renda anual de todas essas pessoas.

Se você ainda acredita que o Bolsa Família é o principal erro, um problema dos mais sérios do Brasil, e que a corrupção é coisa pouca…

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

PRESERVANDO O NOSSO CÉREBRO

O cérebro parece um músculo: exercitando-o se desenvolve; deixando parado, se atrofia.

Infelizmente, não é bem assim. Se fosse, os mundos acadêmico e intelectual estariam recheados de atletas olímpicos, cognitivamente falando. Porém, somos todos suscetíveis à demência e ao mal de Alzheimer’s.

O que não quer dizer que exercitar o cérebro seja inútil.

Uma pesquisa, que foi financeiramente apoiada pela Alzheimer’s Society da Grã-Bretanha, mostra que o que chamaram de Cognitive Training (CT), o treinamento cognitivo, pode contribuir para a prevenção da demência e para a manutenção das funções cognitivas em nós, coroas.

Como foi feita essa pesquisa?

Que resultados apresentou?

Primeiro, a pesquisa foi feita online, pela internet. Isso barateou enormemente o seu custo. Imagine como poderia baratear o custo do CT – para milhões de idosos brasileiros!

Seguiram um procedimento padrão: sortearam os participantes, adultos com mais de 50 anos, em três grupos: um foi treinado em Procedimentos Cognitivos Gerais; o segundo em Raciocínio e o terceiro pagou o pato: foi o grupo controle. Não foi treinado em nada. O treinamento durou seis meses e foi feito online.

Qual o objetivo principal? Contribuir para que idosos (mais de 60) tomem conta de suas atividades cotidianas, diárias. Continuem razoavelmente lúcidos e responsáveis por si mesmos.

Porém, os autores são pesquisadores e não perderiam essa oportunidade de avançar o conhecimento em outras áreas. A pesquisa tinha objetivos secundários: ver o efeito sobre o raciocínio, sobre a memoria verbal de curto prazo (essa aterroriza os coroas de verdade, >80 anos). Tem mais: recauchutar a memória funcional espacial, a aprendizagem verbal e a vigilância digital. O numero de coroas cobaias era grande: 2.912 com mais de sessenta. A garotada com mais de cinquenta até sessenta era ainda mais numerosa.

E os resultados?!!!? E os resultados?!!!?

Os pacotes de treinamento ajudam! O pacote geral e o com exercícios de raciocínio ajudaram os coroas de mais de sessenta a enfrentar os problemas do cotidiano. Os ganhos no raciocínio começaram mais cedo, em seis semanas; os outros demoraram mais tempo – seis meses.

Um grupo importante era os que já demonstravam algum declínio associado com a idade. São os gagás – como eu provavelmente já sou.

O que aconteceu com eles???

Aleluia! O Bom Deus não excluiu os gagás! Houve benefícios semelhantes aos obtidos pelos não gagás. Todos os grupos (menos o controle, claro) melhoraram.

Uma conclusão se impõe: o treinamento cognitivo online beneficia os coroas de diversas idades. Dentro de limites, mas beneficia. O maior benefício vem do treinamento no raciocínio.

Uma profecia (fácil!) também se impõe: treinamentos como esses e seus benefícios vão demorar a chegar ao Brasil e firmar raízes no país. Aqui tudo se faz através do estado, povoado em boa parte por analfabetos funcionais dedicados somente a aumentar o seu próprio patrimônio.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

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