CÂNCER DA PRÓSTATA: BOAS NOTÍCIAS!

Uma notícia importante para os pacientes com câncer na próstata, seus familiares e amigos. Notícia que poderá ser muito útil, também, para qualquer homem, considerando que, aproximadamente, um em seis terá que enfrentar esse câncer.

De que se trata?

De um novo medicamento, a darolutamida, que produziu resultados excelentes nos testes feitos até agora.

Esse medicamento foi aprovado pela U.S. Food and Drug Administration (FDA), que exerce funções semelhantes às da ANVISA.

Porém, atenção! Aprovado não significa que qualquer um pode usar. As aprovações da FDA seguem, cada vez mais, o caminho da medicina personalizada, levando em consideração outros fatores para conceder a aprovação. A FDA não deseja aprovar o uso desse medicamento em pacientes nos quais não produz bons resultados – ou produz resultados negativos.

Esse câncer, como vários outros, tem tipos e estágios e as empresas farmacêuticas precisam provar, através de cuidadosa pesquisa científica Fase III, que o medicamento funciona em uma população bem definida. No caso, pacientes que não respondem mais ao tratamento hormonal, mas ainda não apresentam metástase em testes padronizados.

Qual é a vantagem da darolutamida (o nome de marca, o que você encontrará nas farmácias, é Nubeqa®)?

É o tempo até a metástase. Pacientes com as características acima foram divididos em dois grupos: um com o tratamento hormonal mais darolutamida e outro com o tratamento hormonal sem darolutamida, mas com um placebo (para evitar o efeito placebo). A diferença entre os dois grupos é grande: a mediana do tempo transcorrido até a metástase no grupo com a darolutamida foi de 40,4 meses, mas no grupo sem a darolutamida foi bem menor, 18,4 meses. Vinte e dois meses, quase dois anos de diferença. Considerando que a faixa de idade na qual ocorre a maioria dos casos deste câncer é avançada, um ganho de quase dois anos até a metástase é uma excelente notícia. Por preciosismo estatístico, informo que a probabilidade de encontrar essas diferenças ao acaso é mínima: (p<0.0001).

E a morte? Ganhamos quanto tempo de vida?

Não dá para saber.

Não dá para saber por uma razão muito boa. Quando essa fase da pesquisa foi encerrada, mais da metade dos pacientes continuava vivinha da silva. Somente quando a metade ou mais bater o pacau é que poderemos calcular a mediana até a morte.

Não obstante, o tempo até a metástase se relaciona com o tempo até a morte. Quanto maior um, maior o outro. Não esqueçam que, excetuadas outras causas, não-cancerosas, esse câncer mata através das metástases.

Não tome qualquer decisão sem consultar um oncólogo ou urólogo. Converse com seus médicos.

Avise outros: quem enfrenta esse câncer, quem os ajuda e pessoas interessadas também.

As pesquisas médicas mais sérias têm nome. O nome dessa é Aramis.

Esse medicamento está sendo produzido pela Bayer.

Boa sorte e boas orações (elas ajudam, sim senhor).

GLÁUCIO SOARES

Encontre informações mais detalhadas em

www.NUBEQA.com

Boas noticias: novo medicamento aumenta o tempo livre de metástases

A FDA, que exerce algumas funções semelhantes às da ANVISA, aprovou o uso de novo medicamento para combater o câncer da próstata.

Hoje em dia, com os avanços na personalização do tratamento desse câncer, os medicamentos são aprovados para um tipo de paciente e para um ou mais estágios da doença.

A darolutamida foi aprovada para um tipo de paciente: os que não respondem mais ao tratamento hormonal, mas ainda não apresentam metástases visíveis nos exames de imagem.

Com base em que esse medicamento foi aprovado?

Com base nos resultados de uma pesquisa avançada, Fase 3, chamada ARAMIS. Essa pesquisa selecionou, aleatoriamente, os pacientes em dois grupos. Um recebeu a darolutamida mais o tratamento hormonal e outro recebeu um placebo mais o mesmo tratamento hormonal.

O critério foi o tempo até que aparecesse metástase visível nos exames de imagem. É chamado de tempo de sobrevivência até a metástase, (MFS).

As diferenças entre os dois grupos foi muito grande.

O grupo com a darolutamida levou, na mediana, 40,4 meses até o aparecimento de metástase, quase três anos e meio, ao passo que o grupo sem a darolutamida levou 18,4 meses.

Lembro que a mediana é o tempo que divide os pacientes em duas metades. Isso significa que metade dos pacientes do grupo darolutamida continuava sem metástase após 40,4 meses.

E o tempo até a morte?

Para medir esse tempo, temos que esperar até que a metade dos pacientes morra…

Como o tempo até a metástase se correlaciona, em outros estudos, com o tempo até a morte, ou seja, quanto mais demora um a chegar, mas demora o outro a chegar, os analistas hipotetizam um ganho substancial no tempo de vida, mas ainda não é possível saber de quanto.

Boas notícias…

Ótimas notícias…

GLÁUCIO SOARES

Lembranças do meu pai

Hoje, Dia dos Pais, eu não poderia deixar de lembrar o meu paizinho. Alguns se esquecem que os idosos também já foram crianças. Crianças com um papai. Pois eu queria dividir uma experiência boa, linda, que me faz sorrir até hoje, mais de duas décadas depois da morte do meu pai.
Para entender essa experiência, é preciso saber que eu nem sempre me dei bem com meu pai. Ser meu pai durante minha adolescência não deve ter sido fácil. Para se colocar na moldura dos sentimentos do meu pai é necessário saber que passei a maior parte da minha vida adulta longe dele. E que não tenho irmãos nem irmãs. Eu, filho único, vivia fora do Brasil. Somente uma vez, em mais de quarenta anos, ele reclamou. Mas sentia falta. Depois, fizemos a nossa paz. Então, me dei conta de quão gostosa pode ser a relação com o pai, com o meu Papai. Agradeço muito a Deus pelo longo tempo feliz que tive com meu pai.
O episódio que marcou, indelevelmente e para o lado das emoções inesquecíveis, aconteceu aqui mesmo, nesse apê nas Laranjeiras, onde vivo.
As pernas de meu pai estavam inchadas, com vários edemas. É algo que deixou de ser citação para ser sensação: hoje, minhas pernas são iguais. Eu havia trazido dos Estados Unidos uns vídeos de sapateado irlandês. O principal se chamava Riverdance. Meu pai gostava de dança, era “pé de valsa”. Ele e minha mãe dançavam frequentemente. Não me esqueço de vê-los dançando no Fluminense; ele, grande para a época, e minha mãezinha, mínima. Um metro e cinquenta… Eles se conheceram numa festa, dançando. Era lindo vê-los dançando. À antiga: boleros, tangos. Mistura de sentimento e show.
Uma noite feliz meu pai se sentou no sofá, no mesmo lugar onde hoje também há um sofá. Não o mesmo… Eu me sentei no chão, aos pés dele. Eu estava na casa dos cinquenta e poucos. Do outro lado da sala estava uma televisão, como hoje. Coloquei o VCR e fiz um longo afago suave nos pés e pernas do meu pai. Descobri, depois, que tinha feito uma drenagem linfática combinada com uma espécie de massagem. Nem sabia o que era isso. Minha mãe, também sentada, ao lado dele, segurando a sua felicidade.
Ele curtiu. O filho pródigo voltara à casa. E mostrava vídeos de dança, fazia carinho, expressava Amor. Amor com “A” maiúsculo.
Ele disse duas coisas: a primeira foi uma constatação – meus pés desincharam e não incomodam mais. Foi o passe que você me deu.
Passe? Eu não tinha ideia do que seria um passe. Hoje, casado com uma espírita, creio que sei.
Realmente, os pés desincharam e não pareciam incomodar mais.
A segunda coisa que disse me impressionou, me marcou, nunca esqueci. Emocionado, disse: “hoje foi o dia mais feliz da minha vida”.
Se pudesse, eu voltaria no tempo e daria centenas, milhares de “passes” no meu paizinho.
Fico triste ao pensar que em algum lugar, em algum cantinho, há um pai sozinho, à espera de um afago. Pode ser o seu. Perdoe tudo o que possa ter feito. O Dia dos Pais é o Dia do Amor. É, também, do Dia do Perdão. Converse, acaricie, faça um cafuné, “dê um passe”. Faça o seu Papai feliz.
E ouça, durante o resto da sua vida, o que dirá. Se não disser, sinta o que sente.
Até hoje, aflora um sorriso no meu rosto, cada vez que ouço dentro de mim mesmo:
“Hoje foi o dia mais feliz da minha vida”.

GLÁUCIO SOARES

Estatinas e câncer da próstata

Uma pesquisa feita na Dinamarca reacendeu o debate sobre a relação entre as estatinas e o câncer da próstata. A base de dados se refere a quase 32 mil pacientes diagnosticados entre 1998 e 2011, de 35 a 85 anos de idade.
A novidade desta pesquisa é que ela não se refere à capacidade (ou não) das estatinas de prevenir o câncer, mas a se o seu uso depois do diagnóstico afeta o avanço do câncer.
O acompanhamento começou um ano após o diagnóstico e foi relativamente curto, uma mediana de 2,8 anos (o que, não obstante, significa que metade dos pacientes foram acompanhados por mais do que 2,8 anos). Durante esse período morreram 7.365 homens do câncer da próstata e outros 11.811 de outras causas. Como é uma população com maioria de idosos, as mortes por outras causas são numerosas, sejam cancerosos ou não.
E as estatinas? A definição era simples: se houve duas ou mais receitas feitas após o diagnóstico.
Controlaram fatores óbvios como a idade, o ano do diagnóstico, o escore Gleason, o tipo de tratamento e fatores socioeconômicos. Com esses fatores controlados, os que usaram estatinas tinham um risco de morte por câncer da próstata 17% menor do que os não usuários e um risco de morte por toda e qualquer causa 19% menor.
Os dados também revelam o crescimento do uso de estatinas na Dinamarca: entre os diagnosticados de 1998 a 2001, 4% usaram estatinas durante o primeiro ano pós-diagnóstico; entre os diagnosticados depois, entre 2007 e 2011, 29% usaram estatinas.
Converse com seu oncologista ou urologista.
Saiba mais:
Signe Benzon Larsen, do Danish Cancer Society Research Center, em Copenhagen, e colegas publicaram a pesquisa no Journal of Clinical Oncology.

GLÁUCIO SOARES

As teias de relações sociais e a recuperação de dependentes químicos

Hoje, 02/06/219, no Fantástico, houve uma discussão da política do atual governo que amplia as razões que justificam o internamento compulsório de “drogados”. Foram feitas inúmeras afirmações de crítica ou de apoio a essa medida, mas não foram apresentados dados de pesquisas, seja os produzidos pela Fiocruz, seja outros, oriundos da grande quantidade de pesquisas realizadas sobre esse tema em vários países.
Quero acrescentar as conclusões de uma pesquisa qualitativa publicada este ano, sobre a influência da teia social do dependente sobre o êxito de diferentes tratamentos.
Trata-se de uma pesquisa muito pequena e de baixo custo, exploratória, que compara a teia social de dependentes com a dos não dependentes. Concentraram as ações em um grupo de dependentes que conseguiram manter a abstinência por, pelo menos, cinco anos.
Foram usadas entrevistas semi-estruturadas.
O olhar sociológico sugere que a riqueza e o caráter positivo das teias sociais ajudam a prevenir diferentes tipos de dependência e, caso uma dependência exista, ajudam a recuperação, a abstinência e a duração da abstinência.
Qual o tipo de relação que a maioria dos entrevistados considerou importante para conseguir a abstinência?
Foram duas: os que participaram do tratamento (médicos, terapeutas, assistentes sociais) e parentes, particularmente irmãos e/ou irmãs.
As influências da teia de relações sociais e terapêuticas não são necessariamente positivas. Há influências negativas, algumas poderosas, capazes de desfazer os avanços dos dependentes.
Essa pequena pesquisa sugere, sem provar, que o efeito benéfico dos esforços para obter a abstenção dos dependentes podem ser multiplicados pela inclusão no universo conceitual e perceptivo, tanto dos dependentes quanto dos que se propõem a ajudá-los, de pessoas relevantes que podem ajudar ou prejudicar a recuperação. Não é possível retirar as teias de relações pessoais, familiares, de amizade e terapêuticas dos dependentes, descontextualizando-os. Uma sugestão apoiada pelos dados dessa pesquisa mostra que os dependentes têm uma teia mais pobre de relações sociais do que os não dependentes. O desenho não permite saber o que veio antes: se a pobreza das relações sociais contribuiu para a dependência; porém, como a dependência provoca rejeição, não é possível excluir a hipótese de que ela empobreça a teia social dos dependentes, ou se as duas variáveis interagem continuamente. Nossa hipótese propõe que os dependentes com teias sociais mais amplas e mais positivas atingem e mantêm a abstinência com mais facilidade.
Mais uma vez, temos que colocar na equação os efeitos deletérios da solidão.
Creio que esse olhar sociológico pode ajudar a aumentar a eficiência dos programas que visam controlar a dependência.

GLÁUCIO SOARES

Saiba mais:
Pettersen H, Landheim A, Skeie I, Biong S, Brodahl M,
Oute J e Davidson L., How Social Relationships Influence Substance Use Disorder Recovery: A Collaborative Narrative Study. Subst Abuse. 2019 Mar 9;13:1178221819833379. doi: 10.1177/1178221819833379. eCollection 2019.

O FUMO DOS OUTROS E VOCÊ

Há muitos anos, na Flórida, um casal de brasileiros fumantes pendurou na porta da sua casa uma nota a respeito do dano que o fumar em casa faz a outros residentes, além dos fumantes. Hoje chamamos essas vítimas de fumantes secundários. A exigência de pendurar a nota foi feita pelo pediatra que tratava as duas filhas do casal, ambas com problemas de asma e outras disfunções respiratórias.

Inusitado. Penduraram a nota, mas não pararam de fumar em casa.

Outro acontecimento inusitado foi uma expressão que ouvi do pai das crianças: somos “fumantes racionais”. Logo percebeu a contradição embutida na expressão. Não obstante, insistiu em usá-la. Usando essa expressão, ele traçava uma linha entre os fumantes irracionais que apestavam residências, e eles, pai e mãe fumantes, que estariam abaixo dessa linha. Acima ou abaixo, as filhas tinham asma e bronquite, ao que tudo indica, reativas à intoxicação diária dentro de casa.

No meu entender, essa linha imaginária tinha uma função: reduzir a culpa dos pais fumantes e mascarar sua condição de dependentes químicos.

l Dependentes da nicotina.

Hoje, uns vinte anos mais tarde, não há como manter a linha imaginária. Pesquisas e mais pesquisas demonstraram o dano que o fumo de alguns produz em outros.

Inclusive filhos e filhas.

Inclusive ainda dentro da barriga da mãe.

O fumo afeta uma ampla área da saúde humana, inclusive o risco de câncer. Segundo a American Cancer Society, o fumo do tabaco é composto por milhares de substâncias químicas, das quais pelo menos 70 são cancerígenas. As principais: nicotina (a droga que provoca o vicio) é um dos produtos químicos mais agressivos da fumaça do tabaco; cianeto de hidrogênio; formaldeído; chumbo; arsênico; amônia e até elementos radioativos como o urânio. Tem mais: benzina; monóxido de carbono; nitrosaminas, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), etc. etc.

O dano começa quando o bebê nasce?

Não. Começa muito antes. As mães fumantes danificam seus filhos ainda na barriga. Fumar durante a gravidez afeta a mãe e o bebê antes de nascer, durante o parto, e depois do parto.

Todos os venenos que são inalados pela mãe fumante (primária ou secundária) entram na corrente sanguínea e vão direto ao feto.

Quais as consequências?

São muitas, muitas. Menciono algumas:

l Reduz a quantidade de oxigênio disponível para as mães e os bebês;

l aceleram os batimentos cardíacos do bebê;

l aumenta a taxa de natimortos;

l aumenta a taxa de abortos espontâneos e mais. 

E se a gestante for uma fumante secundária? Lembremos que fumantes secundários não fumam, mas inalam a fumaça do cigarro aceso e a exalada por um fumante. 

São muitas as consequências para a gestante e para o bebê dentro da sua barriga.

Mesmo quando o fumante é um “fumante racional”?

Também!

De cara, diminui a quantidade de oxigênio disponível para a gestante e para o bebê; aumenta os batimentos cardíacos do bebê e várias consequências encontradas nos bebês de gestantes que fumam: taxa mais elevada de natimortos e de abortos não intencionais; taxa mais elevada de que o bebê seja prematuro; reduz o peso do bebê ao nascer; aumenta o risco de que o bebê tenha doenças respiratórias, de nascer com defeitos, da síndrome da morte súbita e mais.

Todos os riscos aumentam com o número de cigarros fumados diariamente.

Não há número “seguro” de cigarros que podem ser fumados;

Não existem “fumantes racionais”. É mito.

Outro mito é o de que cigarro aceso, mas não fumado, causa menos dano à saúde dos demais. É o contrário.

O fumante retém algumas das substâncias maléficas; o cigarro aceso no cinzeiro joga tudo direto no ar.

Claro está que outras condições pesam, alteram a probabilidade de causar essas inúmeras doenças. Ao ar livre, a fumaça se dissipa muito mais rapidamente. Imaginem, ao contrário, os que dormem trancados, com janela fechada…

Em 2009, um relatório da Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer concluiu que são fortes as evidências que demonstram que a implementação de leis de controle do fumo reduzem as doenças cardíacas;

Em 2010 a Cochrane efetuou uma revisão de doze pesquisas que revelou a existência de uma redução nas internações hospitalares por problemas cardíacos depois da implementação de legislação de controle do fumo.

E maconha?

Desculpem, mas as pesquisas indicam que os efeitos da maconha podem ser ainda mais acentuados.

Um exemplo:

Uma pesquisa dirigida por Matthew Springer, professor da Universidade da Califórnia, comparou os efeitos do fumo secundário com cigarros e com maconha. Claro que não poderiam usar seres humanos como cobaias. Usaram ratos. Os que foram submetidos a um ambiente carregado com fumaça de maconha levaram mais tempo até que as artérias, artificialmente comprimidas pelos componentes da fumaça voltassem ao seu diâmetro normal. Quando os ratos eram expostos à fumaça de cigarros, suas artérias levavam trinta minutos para voltar ao normal; quando a fumaça era de maconha, levavam noventa minutos.

Isso, a despeito da maconha produzir um número menor de componentes químicos.

E quais os efeitos das políticas públicas em relação às doenças coronárias? Em 2010, fizeram uma meta-análise de 17 estudos que pesquisaram os efeitos das políticas públicas sobre a redução nas doenças coronárias e a conclusão, estatisticamente significativa, mostra que houve redução.

Tem mais: esses efeitos saudáveis aumentaram ao longo do tempo.

Em 2012 foi realizada uma pesquisa sobre o efeito de políticas de controle do fumo sobre a saúde de idosos (65 anos e mais). Quais eram essas políticas? Proibições de fumar nos locais de trabalho, nos bares e restaurantes, que atingiam, pelo menos, 50% da população do condado.

Quais foram as consequências?

l Uma redução de 20% nas internações hospitalares devido a ataques do coração e

l Uma redução de 11% nas internações devido a doenças crônicas de obstrução pulmonar.

E no Brasil? Embora desde o início das pesquisas sistemáticas, na década de sessenta, já fossem conhecidos os benefícios de políticas que protegessem não-fumantes (e fumantes também) em locais públicos, um senador engavetou o projeto durante sete anos. Conversei com uma assistente do senador, uma fumante, que condenou o projeto na base dos direitos dos fumantes, que via como um direito absoluto e inalienável. Continuou, dizendo que o número de vidas salvas era ínfimo. Com base em algumas considerações, estimou que o “ínfimo” número de vidas salvas anualmente era cerca de cinco mil. Balançou um pouco, mas insistiu em sua posição e a conversa terminou em pouco tempo.

Cinco mil vidas…

Cada ano; todos os anos.

Não foram suficientes para aquela fumante respeitar os não fumantes.

Você, não fumante, poderá ser hostilizado se expressar qualquer restrição ao fumo, inclusive ao “direito” dos fumantes de fumar no seu nariz. Uma das descrições agressivas da sua postura, talvez a mais comum, é “frescura”.

Em verdade, é frescura sim. Nós queremos ar fresco para respirar.

Sem qualquer tipo de poluição.

Defenda sua saúde e a sua vida! Com o exemplo; com a palavra; com a mobilização.

Gláucio Soares IESP/UERJ

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Um despertar doloroso

Há despertares estranhos; há alguns que chegam a ser dolorosos. Um despertar que tive algumas vezes nos últimos anos provocou uma dor na alma.
O que era esse despertar?
Ele acontecia depois de um sonho bom, gostoso. Neles, eu voltava de tratamento nos Estados Unidos; antes, passara algum tempo examinando possíveis presentinhos, possíveis agrados, para trazer para minha mãe. Neles, sempre arrancava um sorriso discreto, silencioso, de satisfação. O agrado agradou… Em alguns desses sonhos, dois ou três, cheguei a levantar da cama ainda meio dormido para buscar o presente e levá-lo. Ansioso de carteirinha, não ia esperar por uma hora convencionalmente decente, nove ou dez da manhã, sei lá. Os hábitos forjados em minha mãe desde seus tempos de professora primária, que incluíam transportes múltiplos, como bonde, ônibus e o famoso pedillac, a obrigavam a levantar muito cedo. Saindo de Laranjeiras destino Quintino Bocaiúva. Minha mãe acordava cedo.
Esperar não era o meu forte. Ia buscar o presente, subir pela escada do segundo ao oitavo andar, levar logo o presente cuidadosamente escolhido e deliciar-me com aquele sorriso subliminar de satisfação materna.
Mas a realidade chegava logo, logo, dura, fria e triste. Minha mãe morrera há anos. Eram necessários alguns minutos para que eu caísse na real: minha mãe morrera e eu não a veria mais. Não traria mais presentes. Não obstante, eu ainda precisava da minha velhinha. Preciso até hoje.
Hoje, o velhinho sou eu. Oitenta e lá vai fumaça. Não obstante, recebi uma benção divina, ter mãe viva até, quase, os meus setenta anos.
Minha mãe viveu e morreu lúcida. Cultivava a lucidez através de leituras e de jogos de biriba. Ia, diariamente, do apê até o bar do tênis jogar biriba no Fluminense. Várias outras pessoas de diferentes idades, mas com predomínio de idosos, formavam mesas. Sol quente e chuva fina não eram impedimento para a minha mãe. A maior dificuldade eram as escadas, da entrada até o tênis, e a pior, que ia do tênis até a passagem que leva ao Bar do Tênis. Eu, hoje, tenho que dar uma ou duas paradas enquanto me puxo pelo corrimão. Preciso dos braços para ajudar as pernas. Ela, mais para o final da vida, precisava do apoio de uma acompanhante.
Quando as pernas de minha mãe cederam de vez, passei a ter outra função, a de parceiro no biriba. Jogávamos todos os dias.
O biriba contribuía para a minha saúde, porque eu trucidava seis andares de escadas diariamente. Em raros dias, subia duas vezes no mesmo dia.
Entrava no apê de Mamãe e lá estava ela, sentada, incrivelmente erecta para seus noventa anos e mais, a cabecinha branca imersa em seus pensamentos, esperando. Era o ponto alto do dia para ela. Conversávamos um pouco, mas, progressivamente, o diálogo virou monólogo devido à perda de audição, nos últimos anos praticamente total. Já não adiantavam os aparelhos no ouvido, o que me roubou o prazer de trazer mini-baterias aproveitando qualquer viagem.
Umas poucas vezes falhei e a acompanhante me informou que ela ficava horas à espera do filho-parceiro que não chegava. Vocês podem imaginar o estrago que esse conhecimento causou numa pessoa parcialmente movida a culpa.

“Dona Dillon”, como a chamavam seus alunos. Minha mãe. Ao sair do apê, lá em baixo, perto da ambulância, disse, de dedo em riste: “Vou enfrentar com coragem e dignidade.”

E enfrentou a morte com coragem e dignidade.
Por que estou escrevendo essa estória?
A ocasião foi propiciada pelo Dia das Mães e reflexões sobre ele.
Há, também, uma auto-atribuída missão de distribuir um conhecimento, sempre como hipóteses, aplicáveis ou não, numa área preterida pelos nossos pesquisadores, sobre-preocupados com explicações “infra-estruturais” em detrimento de uma gama mais ampla de insumos para a pesquisa e as teorias sociológicas.
Um dado importantíssimo tem sido negligenciado, o aumento da esperança de vida ao nascer, no Brasil, de menos de 34 anos em 1900, para 76, em 2019, teve consequências para a família. Cresceram as famílias multigeracionais; cresceu o número de pessoas da Terceira Idade com um ou ambos genitores vivos. Essas mudanças significam um desafio extra para pais e mães que devem educar seus próprios filhos e filhas e, ao mesmo tempo, cuidar de seus próprios pais e mães. Ressurgem, em novo formato, as famílias multigeracionais.
É preciso inserir a idade média ao casar na equação. A idade média das mulheres quando se casam pela primeira vez subiu de 23 anos para 27 entre 1974 e 2014, e a dos homens subiu de 27 anos para 30.
Pensem no que isso significa para uma geração que deve educar filhos adolescentes (e se preocupar muito com a nova violência que atinge uma ampla faixa etária que se estende da pré-adolescência até o início da maturidade) e, ao mesmo tempo, ter alguma ou muita responsabilidade para uma e até duas gerações anteriores, seus próprios pais e mães, avôs e avós. Idosos com problemas de subsistência, muito diferentes por classe social, e a necessidade de tratar, financiar e conviver com doenças cronicas.
As pessoas sobre as quais essas responsabilidades caem pesado também estão mudando. Aumentou o número de divórcios, aumentou o número de unidades residenciais com vinculações multi-familiares, particularmente filhos e filhas de pais diferentes vivendo com a mesma mãe, que se relacionam com avôs e avós diferentes. Portanto, a rede de relações familiares também mudou, e não apenas a idade de seus integrantes.
Mudou e continua mudando.
Infelizmente, não é área que atraia muitos pesquisadores no Brasil, a despeito da sua relevância para as finanças, para as relações afetivas e, sobretudo, para a felicidade de todos os brasileiros e brasileiras.
Quero voltar, reconhecendo que a pretensão é descabida, ao status de senex sapiens. E dar conselhos.
Independentemente da sua idade, curta seus pais e mães, avôs e avós: eles não vivem para sempre. Faça, sempre que puder, aquele carinho e aquele agrado.
Saiba que os velhinhos também amam seus próprios pais e mães e sentem muita falta deles. Os velhinhos, antes de serem velhinhos, foram filhos e filhas. E continuam sendo.
Muito amor.

GLÁUCIO SOARES