É possível reduzir a mortalidade do câncer do pulmão

A articulista Linda Forem argumenta que escanear regularmente os pulmões de pessoas com alto risco salvará vidas. A importância do câncer do pulmão deriva da sua mortalidade: mais pessoas morrem por câncer do pulmão do que por câncer da mama (o mais comum entre as mulheres), da próstata (o mais comum entre os homens) e o do colon, que também é muito freqüente – somados. Embora esses cânceres sejam muito mais comuns, o do pulmão é muito mais letal, tão mais letal que essa diferença compensa a diferença na incidência e na prevalência.

A antiga quase-certeza de que quem não fumava não tinha câncer do pulmão foi substituída, por outra, pior: dos diagnosticados há pouco tempo, 60% não são fumantes. Ou nunca fumaram ou já deixaram. Cresceram as causas ambientais e o fumo secundário. Computando todos, somente 15% estarão vivos cinco anos depois do diagnóstico.

Linda Forem acena com uma possibilidade menos pessimista. Há tomografias computarizadas de baixa intensidade (menos perigosas) que podem ajudar a detectar o câncer do pulmão mais cedo, quando a taxa de cura é muito maior. No Estágio I, a cirurgia ainda funciona e a TC encontra os primeiros nódulos. Por que TC? Porque os raios X simples não detectam os cânceres nos estágios iniciais, quando podem ser curados com cirurgia. Ela não vê razão para tratar o câncer do pulmão de maneira diferente dos cânceres da mama, da próstata e do colon. Testes nas populações de alto risco (como os fumantes ou os fumantes secundários) seriam indicados. A melhoria do tratamento e, sobretudo, testes que permitem a detecção precoce explicariam porque a sobrevivência aos cinco anos do diagnóstico aumentou de 75% para 89% dos casos de câncer da mama e de 67% para 99,7% dos casos de câncer da próstata. O câncer do colon, mais letal que os dois anteriores, agora se localiza nos 65% de sobrevivência aos cinco anos, graças à colonoscopia. Porém, os resultados para os cânceres do pulmão são muito piores.

Muitos dos diagnósticos são acidentais: o paciente busca o médico por outra razão. O interesse de Linda adveio da experiência dolorosa de perder uma irmã, Wendy. Em 2009, ela foi a um alergista porque tinha uma coceira na garganta que provocava tosse. A escolha do alergista provavelmente se deve a um histórico de alergias. O alergista não encontrou nada e a enviou para um gastro, pensando em refluxo. O gastro  não encontrou nada e Wendy desistiu. Continuou a vida normal, que incluía a linda experiência de adotar duas crianças guatemaltecas.

Mas a coceira continuou. Dois meses depois foi fazer o exame anual ginecológico, ainda com a coceira e a tosse que tinha no ano anterior. Foi, finalmente, enviada a um pulmonólogo. Depois de uma tomografia e de uma broncoscopia, foi diagnosticada com câncer do pulmão, estágio III, que já havia invadido os nódulos linfáticos. Como não podia mais ser operada, a quimioterapia e a radiação foram iniciadas. Ficou com esses tratamentos durante onze meses. Os efeitos colaterais foram pesadíssimos, incluindo uma forma de pneumonia inflamatória crônica chamada pneumonite. Wendy morreu onze meses depois do diagnóstico.

Linda não inventou os ganhos com exames regulares da população de alto risco: uma pesquisa chamada The National Lung Screening Trial com uma população de alto risco revelou um ganho de 20% na sobrevivência quando as tomografias foram usadas no lugar dos raios X. Essa pesquisa acompanhou 53 mil pessoas consideradas de alto risco, com exames anuais.

Algo tem que ser feito: em 1971 a sobrevivência cinco anos após o diagnóstico de câncer do pulmão era de 13%; hoje, quarenta anos depois, é de 15% – isso, nos Estados Unidos.

GLÁUCIO SOARES                  IESP-UERJ

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Os custos do câncer

O câncer, além da devastação que causa aos pacientes e suas famílias, é um problema financeiro para eles e econômico para os países. Usamos os Estados Unidos como referência porque há dados. Os custos, para o país, praticamente dobraram em duas décadas: de menos de 25 bilhões de dólares, passaram a mais de 48!

Porém, não devemos concluir que esse foi um aumento nos custos do câncer, porque foi um aumento generalizado, da saúde. Não obstante, gradualmente, ocorreu o que parecia impossível – nos Estados Unidos: o setor público pagou uma parte crescente dos custos. Isso se refere ao aumento. Não obstante, os pacientes continuam pagando a maior parte, seja através de planos e seguros, seja através da parte não coberta por eles.

Uma pesquisa feita através do jornal USA TODAY relatou que uma em quatro cancerosos e/ou suas famílias zeraram suas economias e contas bancárias para pagar pelos tratamentos.

Há uma postura, idealista, que afirma que quando se trata de saúde e/ou de morte os custos não devem ser uma consideração. Postura bonita, mas contraditória.

Contraditória? Por quê?

Porque o altíssimo custo de alguns remédios “extremos”, que só esticam um pouquinho a sobrevivência, significa que com os mesmos recursos se pode salvar muito mais gente, acrescentar muitos dias ou anos de vida. O exemplo mais recente é Provenge, que levou mais de quinze anos para chegar às farmácias. De acordo com essa fonte, ao custo de 93 mil dólares por paciente se “esticaria” a esperança de vida em quatro meses (outras fontes colocam o custo em 45 mil dólares) na mediana. Esse remédio começa a ser fabricado para ser colocado nas farmácias e hospitais.

Na minha postura, quem tem os recursos e quer fazê-lo, que o faça. Contudo, o setor público não pode pagar por esse remédio enquanto for tão caro, como querem os que têm o cacoete estatista. Com os mesmos recursos salvamos mais gente com prevenção, campanhas de vacinação e tratamento de endemias que afetam os mais pobres.

Vencendo os cânceres, pouco a pouco

É publicado anualmente nos Estados Unidos um relatório sobre o câncer, chamado o Annual Report to the Nation on the Status of Cancer“. As instituições que preparam esse relatório são muito sérias, a American Cancer Society, os Centers for Disease Control and Prevention, o National Cancer Institute ( NCI ), e a North American Association of Central Cancer Registries.
O que mostra o relatório?
A excelente noticia de que a taxa de mortalidade por câncer nos Estados Unidos decresceu 1,6% ao ano entre 2001 e 2006 e que os diagnósticos decresceram 0,7% ao ano entre 1999 e 2006. A segunda mostra os efeitos da prevenção.
Os ganhos vieram, sobretudo, daqueles cânceres que pesam mais: pulmão, mama, próstata e cólon. Porém, o câncer do pulmão cresceu entre as mulheres porque o consumo do fumo cresceu entre elas durante alguns anos relativamente recentes. Os efeitos se fazem sentir agora.

Uma família, dois cânceres

Bob Belfit tem uma relação difícil com o câncer. Em 1996, ele fez uma visita ao médico para tratar de artrite e acabou descobrindo que tinha câncer de próstata, depois de testes de PSA e biópsias. O ativismo veio logo depois. Sua mulher, Margaret, morreu de câncer no fígado em 2006. A solidariedade de Belfit é clara: deixou emprego (era Presidente de uma multinacional, a Omni Tech International), tudo, para acompanhar sua mulher na luta contra o câncer. Infelizmente, depois de 14 meses ela faleceu. O câncer tinha sido descoberto tarde.
Hoje, onze anos depois do seu diagnóstico, Belfit é um conhecido ativista. Belfit descobriu uma organização local, a Midland Community Cancer Services e vestiu o seu uniforme; hoje, é um de seus membros mais ativos. Belfit descobriu que a prevenção é essencial e que ele está vivo porque foi diagnosticado cedo.
Há várias lições a serem aprendidas, inclusive e necessidade de testar regularmente os cânceres que ameaçam pessoas na sua condição de sexo, idade, genética etc. além de não esperar ter câncer para se tornar um ativista, um defensor da vida. Vale para todos nós.

Uma família, dois cânceres

Bob Belfit tem uma relação difícil com o câncer. Em 1996, ele fez uma visita ao médico para tratar de artrite e acabou descobrindo que tinha câncer de próstata, depois de testes de PSA e biópsias. O ativismo veio logo depois. Sua mulher, Margaret, morreu de câncer no fígado em 2006. A solidariedade de Belfit é clara: deixou emprego (era Presidente de uma multinacional, a Omni Tech International), tudo, para acompanhar sua mulher na luta contra o câncer. Infelizmente, depois de 14 meses ela faleceu. O câncer tinha sido descoberto tarde.
Hoje, onze anos depois do seu diagnóstico, Belfit é um conhecido ativista. Belfit descobriu uma organização local, a Midland Community Cancer Services e vestiu o seu uniforme; hoje, é um de seus membros mais ativos. Belfit descobriu que a prevenção é essencial e que ele está vivo porque foi diagnosticado cedo.
Há várias lições a serem aprendidas, inclusive e necessidade de testar regularmente os cânceres que ameaçam pessoas na sua condição de sexo, idade, genética etc. além de não esperar ter câncer para se tornar um ativista, um defensor da vida. Vale para todos nós.

A velocidade do PSA e suas consequências 20 ou 30 anos depois

Essa é uma pesquisa que mostra o caminho para a prevenção. A velocidade do PSA (antígeno específico da próstata) é quanto ele cresce no período de um ano. Pois bem, o crescimento rápido, mesmo em níveis baixos, se relaciona com o desenlace da doença e, claro, do paciente. A Johns Hopkins University School of Medicine fez uma pesquisa inteligente, usando o soro do sangue, começando em 1958, que tinha sido congelado. Calcularam a velocidade do PSA (PSAV) dos que participaram na pesquisa. 856 sem câncer, 104 com câncer e 20 que morreram deste câncer e acompanharam as pessoas até maio de 2005.
O que descobriram? Descobriram que a velocidade do PSA mesmo quando os níveis do PSA eram baixos se correlacionava com a morte dos participantes por câncer de próstata – até 20 ou 30 anos depois. Essa pesquisa foi publicada no Journal of the National Cancer Institute. O pesquisador principal, H. Ballentine Carter, argumenta que devemos começar os testes aos 40 e não aos 50. Um crescimento rápido significa um câncer agressivo que deve ser enfrentado enquanto ainda houver possibilidade de cura.
Qual o efeito do PSAV? Os homens com uma taxa baixa tinham uma probabilidade de 92% de não morrer de câncer de próstata 25 anos depois, mas os que tinham alto PSAV tinham apenas uma probabilidade de 54%. A diferença é muito grande. As taxas de mortalidade eram de 140 por 100 mil no grupo com baixa velocidade e de 1.240 no grupo com alta velocidade.

* Assim, faça seus testes de PSA regularmente, começando aos 40. É um teste simples e barato. Como mudamos de residência e de médicos, é importante que nós, cidadãos, mantenhamos um registro das nossas informações médicas. Eu recomendo colocar os PSA’s (e outras informações) numa planilha, como Quattro Pro ou Excel, o que permitirá que você calcule essas taxas juntamente com o seu novo médico.
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Taxas de sobrevivência em países europeus por câncer

Fatores políticos e culturais afetam a sobrevivência dos cancerosos: ela não é a mesma em países diferentes. É interessante que os Estados Unidos, país que, em tantos aspectos sociais está retardado em relação ao que seria de esperar dada a sua renda per capita e a sua ciência, no que concerne a medicina curativa está em excelente posição. Há muita variação entre países, inclusive entre os membros da UE, como mostram os dados que reproduzo. Ressalta na análise da sobrevivência geral que os antigos membros do bloco comunista ainda não se recuperaram do atraso, exibindo considerável retardo em relação aos demais.

O caráter do sistema político não é o único fator político que pesa na sobrevivência média. A capacidade de organização dos pacientes e de suas famílias conta, e muito. Nesse domínio, os pacientes de câncer de próstata estão mal, muito mal. Não se mobilizam, engessados pelo machismo. Enquanto as mulheres conseguiram avanços consideráveis – mais do que merecidos – graças ao seu ativismo, os homens se esconderam nos armários. Ironicamente, os gays, a força dominante por trás da luta contra a AIDS, saíram dos armários, mas os homens com câncer de próstata entraram neles.