Os derrames matam muitos brasileiros

Há, na Austrália, um prêmio chamado de Eureka. Um dos candidatos, esse ano, veio da área dos derrames, dos AVCs, dos TIAs. Se chama Chris Levi.
O que ele fez?
Ele é um pesquisador e um médico clínico. Dirige, no Hospital John Hunter o Serviço de Derrames Agudos. Faz pesquisas sobre o cérebro. Há 12 anos, não havia pesquisas nessa área no hospital. De lá para cá, ele desenvolveu uma seção dos hospital que é vista como modelo. Ele uniu a pesquisa com a clínica. O tratamento que os pacientes recebem, hoje, é de ponta.
Mais do que isso, ele vem aperfeiçoando o que chamam de tratamento “antes” do hospital, preocupado com o passar das horas, até de minutos, até que o paciente seja plenamente atendido.  A implementação desses programas melhorou os resultados do hospital (quantos morrem de cada cem atendidos; quantos se recuperam; em quanto tempo; qual o custo? etc). Hoje, os resultados estão entre os melhores do mundo.
Comenta um parente: trouxe o que há de melhor até nossa comunidade, salvando muitas vidas e evitando muita dor e muitas sequelas. A do não é só dos pacientes, é das famílias também.

Professor Chris Levi

Os derrames são a terceira causa de morte na Austrália e a primeira das que causam deficiências e incapacidades permanentes. Anualmente, 60 mil australianos têm um derrame – um de dez em dez minutos…

O que acontece com eles? Divida em três partes quase iguais? Um terço se recupera bem; outro terá sérias deficiências durante muito tempo ou durante o resto da vida, e um terço morre. No Brasil, a população é muito maior e o atendimento muito pior e demorado, o que se traduz em mais casos de derrame, mais deficientes permanentes e mais mortes. Daí a necessidade de reproduzir aqui, de forma ampliada, o que o Professor Chris Levi fez na Austrália.

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John Hunter Hospital, New Lambton, NSW, Australia

Nos casos de derrames, AVCs e TIAs, a velocidade do atendimento conta muito.

A DETECÇÃO DA EMBOLIA CEREBRAL

As embolias variam por tipo, localização, tamanho etc. A maioria produz vários sintomas, alguns dos quais comuns a varias deficiências e doenças. As embolias, derrames, TIAs etc. requerem tratamento adequado, sem o que o paciente poderá ter deficiências permanentes e até morrer. Essa superposição de sintomas com outras doenças dificulta o diagnóstico correto.

Felizmente, há como diagnosticar adequadamente uma embolia cerebral: um dos caminhos é o da ressonância magnética. A imagem que incluímos não permite dúvida, sendo claras as manchas brancas embólicas, inclusive de tamanho reduzido.

AS manchas brancas são lesões cerebrais

Como é um evento infelizmente freqüente no Brasil e no mundo e, nos acidentes cardiovasculares, o tempo que vai do evento ao tratamento correto é uma das variáveis mais importantes associadas com a sobrevivência e com as seqüelas, precisamos levar o tratamento a diferentes pontos do país, reduzindo-o. É um investimento mais proveitoso e patriótico do que construir monumentos administrativos.

GLAUCIO SOARES


Os remédios para a pressão alta

Um demônio ronda as casas das pessoas com pressão alta: as próprias pessoas que sofrem dessa doença. Elas acham  que quando os sintomas desaparecem, podem parar de tomar os remédios. Algumas (poucas), mais informadas, tiram a pressão regularmente e, quando a pressão baixa ao normal, param de tomar o remédio. São candidatas ao derrame e à morrer de enfermidade circulatória.

A pressão ala tem muito a ver com o estilo de vida da pessoa, o que come (de errado) e o que faz (ou não faz, ficando sentada vendo televisão). É uma doença crônica. Os remédios podem controlar a pressão alta, mas não podem curá-la.

Muita gente com pressão alta não sente nada (por isso alguns a chamam de doença oculta). E acaba parando de tomar os medicamentos.

Acontece alguma coisa quando o doente para de tomar o medicamento?

Acontece! Aumenta o risco de infartar, de outros ataques cardiovasculares. de derrame, de dano e parálise dos rins e muitas doenças mais.

E se a gente esquece? Eu uso uma caixinha dividida em sete dias da semana e coloco todas as pílulas que tenho que tomar cada dia. Outros deixam avisos dentro da própria casa ou pedem a outras pessoas que moram na casa para avisar e até algumas que não moram. Ajuda, e muito.

Às vezes, quando você realmente muda seu estilo de vida, muda a dieta, corta o sal a quase zero, passa a andar ou a fazer outros exercícios com frequência, o médico pode reduzir a dose, mas quase nunca aconselhar a parar de tomar o remédio.

Cuidado com esse demônio. Êle está dentro de você tentando você a parar o tratamento…

Lições de uma criança com câncer

<strong>Recebi e reproduzo porque pode ajudar muitos de nós

Depoimento de um médico oncologista do Recife.

No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem com suas maneiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades. Nós médicos somos treinados para nos sentirmos “deuses”. Só que não o somos!
Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perdemos
um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados a reconhecer nossos limites!
Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a freqüentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.
Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim.
Meu anjo veio na forma de uma criança já com onze anos, calejada, porém por dois longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia. Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro, via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação. Ela entregava o bracinho à enfermeira e com uma lágrima nos olhos dizia: faça tia, é preciso para eu ficar boa.
Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.
Meu anjo respondeu:
– Tio, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondida nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!
Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:
– E o que a morte representa para você, minha querida?
– Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?
(Lembrei que minhas filhas, na época com seis e dois anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)
– É isso mesmo, e então?
– Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?
– É isso mesmo querida, você é muito esperta!
– Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!
Fiquei “entupigaitado”. Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.
– E minha mãe vai ficar com muita saudade minha. Emendou-a. Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo: – E o que saudade significa para você, minha querida?
– Não sabe não, tio? Saudade é o amor que fica!
Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
Um anjo passou por mim…
Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.
Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci. Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus
valores.
Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo “meu anjo, que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.
Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinaste, pela ajuda que me deste.
Que bom que existe saudades! O amor que ficou é eterno.

Rogério Brandão
Médico oncologista clínico
RC Recife Boa Vista D4500
Cremepe 5758″

<em>”Enquanto estiver vivo quero fracassar. O erro é o que me torna real: É minha agressão ao mundo: Minha vitalidade.Qu inventem louros de fracasse, pois eu os usarei.Fracassar é minha ousadia, minha audácia, minha maior habilidade.”</</em>strong>

Não existe fumo bom – nem o de mascar

Não existe fumo bom – nem o de mascar

Dizem que o tabaco sem fumo cresceu em resposta à divulgação dos efeitos catastrófico do fumo sobre a saúde humana. Porém o fumo “sem fumo”aumenta substancialmente o risco de derrames e de ataques cardíacos. Houve um crescimento desse tipo de tabaco nos Estados Unidos e na Europa, particularmente entre os jovens. Os fabricantes desses produtos,mentirosos, anunciavam que eram mais seguros o tabaco. Não são. Pessoas que usam o tabaco como snuff aumentam seu risco de derrame e de um ataque fatal do coração.

A pesquisa foi liderada pelo Dr Paolo Boffetta da International Agency for Research on Câncer, localizada na França. Não fizeram pesquisa original, mas uma meta-análise de onze pesquisas feitas na Suécia e na América do Norte.

Os resultados: um aumento no risco de morte por ataque do coração e por derrame. Os usuários desse tipo de fumo representam 0,5^% de todos os ataques do coração nos Estados Unidos e nada menos do que 5,6 na Suécia, onde os números são sgnificantes. Os derrames também são significativos: 1,7% das mortes por derrame nos Estados Unidos e 5,4% na Suécia. Sabendo que o principais usuários são jovens, temos uma idéia da virulência desse tipo de fumo, a despeito do risco adicional ser modesto. Os resultados das pesquisas analisadas foram consistentes.

Fonte Original: Boffetta et al. Use of smokeless tobacco and risk of myocardial infarction and stroke: systematic review with meta-analysis. BMJ, 2009; 339.

O que é um ataque isquêmico?

Os TIAs , cujo nome em Inglês é transient ischemic attack são derrames de curta duração, durando apenas alguns minutos. Mas são derrames, segundo o National Institute of Neurological Disorders and Stroke. Acontecem quando há uma pequena interrupção do fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro. Os TIAs acontecem repentinamente e seus sintomas são parecidos com os de um derrame, mas de curta duração. A maioria some em uma hora (mas podem durar um dia) e algumas pessoas parecem normais. Mas não são.
Entre esses sintomas estão uma fraqueza no rosto, no braço ou na perna, geralmente concentrados num lado só do corpo;confusão; dificuldade em falar e até em entender o que os outros dizem; tonteiras; dificuldade na visão (em um olho ou nos dois); perda de equilíbrio e de coordenação motora etc.
Inicialmente, é difícil dizer se a pessoa teve um derrame ou um TIA. Por isso, não dá para esperar e ver o que é! A consulta com um médico competente deve vir urgentemente (uma hora, no máximo).
Agir logo ou esperar para ver pode ser a diferença entre a vida e a morte, entre ter uma vida normal ou ficar paralisado. Não dá para ver se passa

Câncer, armas de fogo e suicídio

Tentativas de suicídio são mais comuns entre idosos do que entre jovens, e mais comuns entre pessoas com doenças físicas e mentais do que entre pessoas sãs. As depressões freqüentemente acompanham pessoas que sofreram AVC’s, que foram diagnosticadas com câncer, que perderam um familiar, que se divorciaram ou separaram etc. Em alguns casos, amigos e familiares, assim como as pessoas vinculadas à saúde física e mental da pessoa, podem tomar medidas preventivas do suicídio. Além do importante tratamento com remédios e terapia adequada, é importante fechar janelas de oportunidade para os suicídios.

Muitas pessoas entram em desespêro quando enfrentam situações adversas, sem se dar conta de que a vida pode ser boa e gostosa a despeito de doenças e perdas.
Um estudo, realizado no Estado de Illinois, mostrou a importância de retirar as armas de fogo do ambiente ao qual a pessoa em situação de risco tem acesso. De janeiro de 1990 a dezembro de 1997 houve mais de 37 mil internações nos hospitais por tentativas de suicídio e houve 10.287 suicídios completos. Tentar se suicidar com arma de fogo, em si, não requer muita preparação e pode ser, apenas, uma “janela” negativa, mas as tentativas com armas de fogo são muito mais letais. Os dados mostram que as armas de fogo são, de longe, o método mais letal, 2.6 vezes mais letal do que o segundo, que usa a asfixia, principalmente por enforcamento. Os autores estimavam que a simples substituição dos métodos de suicídio salvaria 32% dos suicidas menores de idade e 6,5% dos suicidas adultos. Esse cálculo foi feito sem levar em conta que a oportunidade é um fator importante nos suicídios e que um número tenta o suicídio com uma arma simplesmente porque encontra uma pela frente.

Dados de Shanessa, Catlin e Buka, 2003.