Quando falha a primeira linha de tratamento hormonal

Segundo os autores de uma pesquisa, a combinação entre ketoconazole e dutasteride é um bom recurso para muitos pacientes que já não respondem a tratamentos hormonais de primeira linha, como o Lupron. Uma pesquisa  Fase II tinha produzido bons resultados: em 56% dos casos houve uma redução do PSA e o fracasso bioquímico foi postergado, situando-se em 14,5 meses.

Nesta pesquisa com 26 pacientes que foram tratados com ketoconazole 800mg/d, hidrocortisona 30mg/d e dutasteride 0.5mg/d (K/H/D) também foram notados resultados positivos. Os pacientes tinham, na mediana, 70 anos e o PSA andava em 84 ng/ml, também na mediana, antes da terapia. Sete dos pacientes tiveram uma redução significativa no PSA (≥50%). É um ponto de corte importante, porque os com redução menor do que 55 dias tiveram na mediana apenas 55 dias até que o PSA voltasse a subir, ao passo que os que tiveram uma redução ≥50%, o fracasso bioquímico demorou 274 dias, na mediana, e o experimento continuava, o que significa que a mediana do tempo até o fracasso bioquímico deveria aumentar.      

Os autores concluíram que a combinação de ketoconazole, hidrocortisona e dutasteride em subconjunto de pacientes que já não respondiam à primeira linha de tratamento hormonal trouxe benefícios. O primeiro desafio é identificar quais os pacientes que responderão a esse tratamento e quais os que não responderão; para os que respondem há claros benefícios – baixa do PSA e aumento no tempo até que o PSA volte a crescer.

 

Saiba mais: C. H. Ohlmann, M. Ehmann, J. Kamradt, M. Saar, S. Siemer, M. Stöckle; Saarland University, Homburg, Germany em J Clin Oncol 29: 2011 (suppl; abstr e15166).

 

GLÁUCIO SOARES            IESP/UERJ

O que é a segunda linha de tratamento hormonal?


Durante minha consulta com o Dr. Charles “Snuffy” Myers no início de 2010, ele definiu ketoconazole como um tratamento hormonal de “segunda linha”. De segunda linha significa, apenas, para ser usado como recurso quando o tratamento padrão de “primeira linha”, Lupron, não produz mais resultados.

Vale a pena? Parece que sim, mas como tantos outros remédios usados na luta contra este câncer, umas pessoas se beneficiam muito e outras nada e não sabemos como diferenciar entre as duas.

Uma pesquisa recente, feita no The Sidney Kimmel Comprehensive Cancer Center, Johns Hopkins School of Medicine, Baltimore, em Maryland, afirma que compostos que têm como alvo o CYP-17 hydroxylase e lyase (não desista de ler, você verá os resultados), são usualmente empregados em forma seqüencial, um após o outro, e não conjuntamente em casos de cânceres metastáticos que não são mais afetados pelo tratamento de primeira linha. Quais são esses compostos? Ketoconazole e abiraterona, até agora.

O que eles fazem? Eles bloqueiam a biosintese andrógena feita pelo próprio tumor ou na glândula adrenal. Essa glândula também fabrica testosterona e quando a testosterona acaba, algumas células resistentes começam a fabricar a sua “gasolina” dentro do próprio tumor e continuam avançando. Por isso é que, quase sempre, o câncer acaba superando o tratamento hormonal de primeira linha, que perde o seu efeito. Ele passa a produzir o seu próprio combustível.

Essa pesquisa investiga a capacidade do ketoconazole em impedir que as células cancerosas fabriquem seu próprio combustível. Essa capacidade também é temporária e o ketoconazole também perde o seu efeito. Os pacientes foram tratados com o ketoconazole além do que vinham tomando, em doses de 200 a 400 mgs três vezes por dia.

Quanto tempo? Até que o câncer voltasse a avançar ou que o paciente não conseguisse suportar os efeitos colaterais. Estimaram, através de regressões estatísticas, quanto tempo levavam até o fim do efeito sobre o PSA e/ou até o avanço da doença, clinicamente definido.

Foram 114 pacientes que foram acompanhados na mediana (metade mais, metade menos) durante 31 meses – alguns durante apenas cinco e um chegou a 129 meses (mais de dez anos). Um em cada cinco pacientes sofreram toxicidade de graus três ou quatro – fadiga, problemas abdominais, náusea e tonteiras.

Quais os resultados?

Na mediana, foram oito meses até que o câncer voltasse a avançar, mas a variância foi enorme – de um mês a 129 meses.

Qual o efeito sobre o grosso dos pacientes? 54% tiveram uma redução no PSA ≥50%; os outros tiveram reduções menores.

Agora, a pergunta que só se pôde responder depois do experimento: quem responde melhor e quem responde pior? Os resultados do tratamento de primeira linha, anti-andrógeno eram os melhores preditores da eficiência do tratamento de segunda linha. Separando em grupos, os marcadores usados foram durante quanto tempo responderam ao tratamento (≥6 vs. < 6 meses), o PSADT (tempo que o PSA leva para dobrar), de ≥3 vs. < 3 meses, e quão avançada estava a doença, medida pela extensão da metástase, no esqueleto e nas vísceras. Dependendo dessas variáveis, o efeito dura mais ou menos e, lembremo-nos, pode variar de um mês a mais de dez anos.

O que esses resultados sugerem? Que o tratamento funciona melhor nos casos em que a doença avançou menos, que há fatores genéticos que influenciam o resultado, e que o tipo de câncer da próstata (lembrem que há 25 contabilizados até agora) também pesa.

Quanto mais saibamos, poderemos aconselhar melhor o uso desses tratamentos de segunda linha. Até agora, com os dados que conseguimos, há muita variação, o que justifica a política de vários médicos: manda brasa!


 

GLÁUCIO SOARES

IESP/UERJ


 

PS – terça regressarei aos Estados Unidos para ver se continuo com o tratamento atual ou se passo para um mais pesado. Agradeço orações e boas vibrações, pensamentos positivos, de qualquer religião.