PRESERVANDO O NOSSO CÉREBRO

O cérebro parece um músculo: exercitando-o se desenvolve; deixando parado, se atrofia.

Infelizmente, não é bem assim. Se fosse, os mundos acadêmico e intelectual estariam recheados de atletas olímpicos, cognitivamente falando. Porém, somos todos suscetíveis à demência e ao mal de Alzheimer’s.

O que não quer dizer que exercitar o cérebro seja inútil.

Uma pesquisa, que foi financeiramente apoiada pela Alzheimer’s Society da Grã-Bretanha, mostra que o que chamaram de Cognitive Training (CT), o treinamento cognitivo, pode contribuir para a prevenção da demência e para a manutenção das funções cognitivas em nós, coroas.

Como foi feita essa pesquisa?

Que resultados apresentou?

Primeiro, a pesquisa foi feita online, pela internet. Isso barateou enormemente o seu custo. Imagine como poderia baratear o custo do CT – para milhões de idosos brasileiros!

Seguiram um procedimento padrão: sortearam os participantes, adultos com mais de 50 anos, em três grupos: um foi treinado em Procedimentos Cognitivos Gerais; o segundo em Raciocínio e o terceiro pagou o pato: foi o grupo controle. Não foi treinado em nada. O treinamento durou seis meses e foi feito online.

Qual o objetivo principal? Contribuir para que idosos (mais de 60) tomem conta de suas atividades cotidianas, diárias. Continuem razoavelmente lúcidos e responsáveis por si mesmos.

Porém, os autores são pesquisadores e não perderiam essa oportunidade de avançar o conhecimento em outras áreas. A pesquisa tinha objetivos secundários: ver o efeito sobre o raciocínio, sobre a memoria verbal de curto prazo (essa aterroriza os coroas de verdade, >80 anos). Tem mais: recauchutar a memória funcional espacial, a aprendizagem verbal e a vigilância digital. O numero de coroas cobaias era grande: 2.912 com mais de sessenta. A garotada com mais de cinquenta até sessenta era ainda mais numerosa.

E os resultados?!!!? E os resultados?!!!?

Os pacotes de treinamento ajudam! O pacote geral e o com exercícios de raciocínio ajudaram os coroas de mais de sessenta a enfrentar os problemas do cotidiano. Os ganhos no raciocínio começaram mais cedo, em seis semanas; os outros demoraram mais tempo – seis meses.

Um grupo importante era os que já demonstravam algum declínio associado com a idade. São os gagás – como eu provavelmente já sou.

O que aconteceu com eles???

Aleluia! O Bom Deus não excluiu os gagás! Houve benefícios semelhantes aos obtidos pelos não gagás. Todos os grupos (menos o controle, claro) melhoraram.

Uma conclusão se impõe: o treinamento cognitivo online beneficia os coroas de diversas idades. Dentro de limites, mas beneficia. O maior benefício vem do treinamento no raciocínio.

Uma profecia (fácil!) também se impõe: treinamentos como esses e seus benefícios vão demorar a chegar ao Brasil e firmar raízes no país. Aqui tudo se faz através do estado, povoado em boa parte por analfabetos funcionais dedicados somente a aumentar o seu próprio patrimônio.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

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Amendoim faz bem, mas cuidado com o môfo

O amendoim é o primo pobre de um conjunto que inclui nozes, castanhas de caju, castanhas, pinhões, amêndoas, macadâmia, castanhas do Pará, entre outras. As pesquisas sobre dietas e suas consequências são muito difíceis de realizar e os pesquisadores aceitam que os dados não são bons como gostariam. O consumo dessas “nuts” está associado à reduções de mortalidade em diferentes grupos étnicos e grupos com problemas de saúde, como diabéticos, obesos, fumantes e alcoólatras.

Segundo John Day, um cardiologista, ajudam a impedir o entupimento das artérias. Ajudam a baixar o LDL (o colesterol “ruim”). Artérias limpas significam um risco menor de problemas crônicos de saúde.

As pesquisas incluíram grupos muito variados: habitantes do Sudeste de baixa renda, chineses em Shangai etc. Todos os grupos se beneficiam da ingestão desses alimentos, inclusive o amendoim, inclusive a pasta de amendoim, ingrediente típico de sanduiches feitos apressadamente.

Acompanharam mais de duzentas mil pessoas. As mortes por doenças do coração e por derrames eram perto de vinte por cento mais baixas entre os que comiam um pouco dessas “nuts” diariamente, em comparação com os que não os incluíam na sua dieta.

Não obstante, esses alimentos devem ser saudáveis ou aparecem outros riscos. Há fungos que produzem aflatoxinas que estão ligadas a várias doenças, inclusive ao câncer do fígado. São um problema comum em países com baixo nível de higiene alimentar.

Eu, que curto muitas das “nuts”, inclusive amendoim “japonês”, olho para o positivo.

Gláucio Soares

Um teste de urina que poderá salvar vidas, sofrimento e dinheiro

Agora existe, em fase experimental, um teste simples, de urina, que pode ajudar no diagnóstico do câncer da próstata com alta acuidade, acertando em 98% dos casos.

Há dois tipos de erros que usualmente ocorrem no inicio do câncer. O pior não trata canceres que precisam ser tratados. Sem testes, é uma possibilidade real e uma ocorrência comum porque os sintomas que são perceptíveis pelos próprios pacientes só surgem quando o câncer está avançado.

O erro oposto tem a ver com diagnosticar e tratar invasivamente um câncer da próstata que não é agressivo, que não matará nem afetará a vida do paciente.

Quando o teste de PSA e o toque retal não excluem a possibilidade de câncer, o próximo passo é a biópsia, com agulhas, um procedimento claramente invasivo.

Precisamos de avanços e progresso nesse nível também, e não apenas nos níveis avançados do câncer.

Esse novo teste de urina pode evitar 4 em cada dez biópsias. Dificilmente há falsos positivos nas biopsias, mas ainda hoje há falsos negativos. O câncer está numa área que escapou às agulhas etc.

Esse teste, chamado SelectMDx, ainda está em desenvolvimento no Radboud University Medical Centre, na Holanda. Se confirmar as promessas, evitará muita dor, física e psicológica, para futuros possíveis pacientes.

Gláucio Soares IESP-UERJ

Espiritualidade, religião e depressão entre pacientes terminais

A depressão é comum entre pacientes terminais, com pouco tempo de vida. Nesse grupo de pessoas, há muita tristeza, muita desesperança. Nesse grupo, ter ou não ter uma vida espiritual e ter ou não ter uma religião fazem muita diferença. Uma pesquisa, publicada há quinze anos, analisou os efeitos da religião e da espiritualidade sobre pacientes terminais.[i] Eram 162 pacientes com câncer e/ou AIDS, com uma esperança de vida de menos de seis meses. Os pesquisadores usaram medidas padronizadas de alguns conceitos, inclusive a Hamilton Depression Rating Scale (HDRS), que é muito usada nos estudos quantitativos sobre a depressão.

A associação mais intima que encontraram foi entre a espiritualidade[ii] e a depressão: a mais espiritualidade, menos depressão. A espiritualidade alivia muitas pessoas com doenças terminais, no fim da vida delas.

E qual o papel da religião? O impacto da religião sobre a depressão se faz, segundo os autores dessa pesquisa, através da espiritualidade. A equação passa a ter três termos: ter uma religião aumenta a espiritualidade, que reduz a depressão.

Gláucio Soares            IESP/UERJ


[i] Christian J. Nelson, Barry Rosenfeld, William Breitbart e Michele Galietta, Spirituality, Religion, and Depression in the Terminally Ill, Psychosomatics, Volume 43, Issue 3, May–June 2002, Páginas 213-220.

https://doi.org/10.1176/appi.psy.43.3.213

[ii] Foi usada a FACIT Spiritual Well-Being Scale.

Comparando os efeitos colaterais da enzalutamida e da abiraterona

Temos lido e ouvido muito sobre os benefícios de dois medicamentos relativamente recentes que competem no mercado de pacientes cujo câncer já é resistente aos tratamentos hormonais, a abiraterona e a enzalutamida. Não obstante, há muito pouco a respeito de seus efeitos colaterais. Uma equipe, com a participação de médicos e pesquisadores brasileiros, realizou uma meta-análise para ampliar o conhecimento nessa área. Lembro que a meta-análise inclui instrumentos estatísticos para analisar dados já coletados.

A que conclusões chegaram?

A enzalutamida não está associada com o conjunto de eventos cardiovasculares, graves e não graves, em seu conjunto, ou com eventos cardiovasculares graves (nível ≥3), mas está associada ao risco de fadiga, de todas as intensidades (RR 1.29 – 95% CI 1.15-1.44).

Com a abiraterona, os resultados foram diferentes: aumenta o risco de problemas cardiovasculares, mas não aumenta a fadiga.

Esses resultados mudam a probabilidade de qual tratamento será usado em qualquer caso porque há resistências cruzadas e, depois de usar um desses medicamentos o outro surte pouco efeito.

Informação para nós, pacientes. Converse com seu oncólogo.

Gláucio Soares IESP/UERJ

Saiba mais: leia o artigo em Raphael B Moreira, Marcio Debiasi, Edoardo Francini, Pier V Nuzzo, Guillermo De Velasco, Fernando C Maluf, Andre P Fay, Joaquim Bellmunt, Toni K Choueiri, Fabio A Schutz, em Oncotarget. 2017 Aug 08, versão eletrônica.

Aumentando a eficiência dos tratamentos contra o câncer

Algumas combinações de medicamentos contra o câncer da próstata são bem mais eficientes do que cada medicamento isoladamente.

Algumas, mas não todas. Há casos de resistências cruzadas, nos que a resistência que as células cancerosas adquiriram em relação a um medicamento se aplica, em maior ou menor extensão, a outro ou outros medicamentos.

Uma combinação que tem produzido alguns resultados usa a químio e a radiação em uma faixa definida da onda para ativar terapias chamadas de foto térmicas (minha tradução de photothermal) e foto dinâmicas (minha tradução de photodynamic). São abreviadas como PTT/PDT. Porém, vários medicamentos esbarram em suas propriedades (ou ausência delas), como não serem solúveis em agua, e serem eliminadas rapidamente pelo nosso corpo.

Por isso, pesquisadores buscam, também, tratamentos auxiliares que aumentam a eficácia dos tratamentos primários. Tal parece ser o caso de envolver os medicamentos em albumina – que é uma proteína abundante no plasma sanguíneo.

É o que pesquisadores da Medical School of Nanjing University, na China, estao fazendo. “Embrulham” o PTT/PDT, o docetaxel (químio) e o contraste infra-vermelho (IR780). No meu primitivismo de paciente, gostei de saber que os agentes chamados PPT matam as células cancerosas através do calor; eles são ativados por lasers, atingindo temperaturas mais altas do que a resistência das células. A ideia de fritar ou de escaldar as células cancerosas me agrada imensamente… ainda que não seja exatamente isso o que acontece.

Trabalhando com camundongos, os pesquisadores analisaram as imagens, constatando que, em 48 horas as nanopartículas que desenvolveram se concentraram na região onde está o tumor. Concentrando a radiação nessas áreas, os pesquisadores perceberam que conseguiram estancar o crescimento dos tumores – um resultado que não foi alcançado usando docetaxel ou o PPT isoladamente.

Cresce a pesquisa chinesa.

Bem-vinda!


GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


Saiba mais: “Self-assembled albumin nanoparticles for combination therapy in prostate cancer,” no International Journal of Nanomedicine.

Nova geração de tratamentos hormonais?

A personalização do tratamento do câncer da próstata já está em curso. Personalização significa que a escolha do tratamento leva em consideração características do paciente, inclusive o estágio e o subtipo do câncer.

A Janssen Biotech, Inc., uma empresa farmacêutica, acaba de submeter um novo tratamento, baseado na apalutamida, que se aplicará somente a pacientes cujo câncer já não responde ao tratamento hormonal, mas ainda não apresentam metástases. É uma fatia importante do mercado.

Até o momento, a Food and Drug Administration (FDA), que é quem concede licença a novos medicamentos nos Estados Unidos, não concedeu nenhuma licença que se aplicasse a pacientes com essas características.

O que justifica esse pedido?

Os resultados de uma pesquisa clínica Fase III, chamada ARN-509-003 (SPARTAN) onde compararam os resultados do grupo experimental, que recebeu a apalutamida, com um grupo controle. A empresa considera que a apalutamida é a “nova geração” de tratamentos hormonais – além da abiraterona e da enzalutamida.

Que efeitos foram usados como critérios? O principal foi a ausência de metástases, mais exatamente o tempo que leva até o aparecimento da primeira metástase. A apalutamida promete uma “esticada” na duração desse estagio da doença, que é melhor (ou menos pior) que o seguinte, quando já há metástase. Dada a correlação entre o tempo até o aparecimento de metástases e o tempo até a morte, é provável que também signifique uma esticada na sobrevivência.

Converse com o seu urologista ou oncologista a respeito.

GLÁUCIO SOARES     IESP-UERJ