PESQUISAS CRIATIVAS PARA CURAR O CÂNCER

Existe uma fundação criada para financiar pesquisas, sobretudo projetos inovadores, que possam alterar os tratamentos já estabelecidos para o câncer da próstata. Um dos seus criadores e financiadores é Michael Robert Milken, cuja estória é para lá de interessante. Para começar a revista Forbes estima o seu patrimônio em 3,6 bilhões de dólares. Continuando, ele revolucionou o mercado de ações, porém foi investigado e condenado por um júri por fraude, em 1989, passando dois anos na prisão. Foi proibido de ter qualquer atividade relacionada com investimentos, ações e separado do mercado financeiro.

Foi diagnosticado com um câncer da próstata agressivo, do tipo cujo prognóstico é bem ruim. A partir de então se dedicou a estudar o câncer da próstata e a financiar pesquisas através da Prostate Cancer Foundation.

Escreveu sobre câncer: The Taste for Living Cookbook: Mike Milken’s Favorite Recipes for Fighting Cancer e defende a necessidade de enfatizar a dieta e os exercícios e o estilo de vida para combater o câncer.

Como sabem os que pesquisaram um pouquinho, depois da primeira tentativa de curar o câncer, com cirurgia, radiação, braquiterapia, se o câncer voltar, ele não é mais curável, embora muitos consigam viver ainda muitos anos e, inclusive, morrer de outra causa.

E nós, pacientes, o que temos a ver com isso?

Muito. Essa fundação financiou várias pesquisas que contribuíram para aumentar a probabilidade de cura, aumentaram a sobrevivência, reduziram os efeitos colaterais e muito mais.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Há alguns medicamentos que interagem bem: são poucos, mas existem

Intuitivamente, podemos achar que tomar dois medicamentos contra um câncer é sempre melhor do que tomar somente um, mas não é verdade. Usualmente, aumentam muito os efeitos colaterais; em outros casos, o ingrediente ativo é o mesmo nos dois medicamentos, o que significa, apenas, tomar uma dose maior; em alguns casos, há interações entre eles com consequências negativas para a saúde e o bem-estar.

Alguns, poucos, dão certo.

Como saber quais entre milhares de combinações possíveis?

Stefan Kubicek, do CeMM Research Center for Molecular Medicine, na Áustria, e sua equipe coletaram uma gigantesca “biblioteca” sobre medicamentos que funcionam melhor juntos e buscaram o que havia de comum entre eles.[i]

Deu trabalho! Há mais de trinta mil medicamentos aprovados pela FDA. Imaginem as combinações…

Eliminaram, claro, primeiro que tudo os medicamentos com o mesmo ingrediente ativo; retiraram todos os com componentes biológicos etc. Enfim, terminaram com perto de mil pequenas moléculas sistêmicas que são ativas.

O próximo passo era classifica-las. Formaram quatro grupos com base em suas estruturas e atividades conhecidas e demonstradas. Nesse ponto, usaram programas para selecionar agentes que fossem representativos. Com base neles, criaram uma biblioteca muito menor, de 308 compostos, que foi batizada de CLOUD.

Usaram a CLOUD para ver o efeito sobre células cancerosas. Uma combinação que interessa aos pacientes de câncer da próstata é a da flutamida, usada para combater esse câncer, e um agente antitrombótico a respeito do qual sou ignorante total, chamado, em inglês, phenprocoumon. Segundo os autores, os dois tem um efeito sinergético, que combate células cancerosas que resistem a vários tratamentos.

O objetivo dos autores não era analisar combinações com possíveis aplicações ao câncer da próstata, mas facilitar a busca de combinações de medicamentos que fossem eficientes. Acreditam que a Cloud ajuda nessa busca.

Como exemplo, verificaram que outros medicamentos não incluídos na Cloud, mas com as mesmas características que a flutamida e a (o?) phenprocoumon também atuam sinergisticamente contra as células cancerosas resistentes do CP. Ou seja: pretendem que os compostos estudados e incluídos na Cloud representam outros, que estão fora da Cloud.

Mais uma esperança, ainda que seja para os que ainda nem descobriram que tem câncer…

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ


[i] Nat. Chem. Biol. 2017, DOI: 10.1038/nchembio.2382

Nova “vacina” contra o câncer da próstata

Uma nova pequena pesquisa reacende a esperança de aumentar o arsenal à nossa disposição para enfrentar o câncer da próstata. Porém, não será em breve.

É uma “vacina” nova. Visa fortalecer e direcionar melhor a resposta do nosso sistema imune contra as células cancerosas.

A vacina conteve o avanço do tumor em 77% dos pacientes (três em cada quatro). Do total, 45% tiveram uma redução do tumor.

Porém, a amostra é muito pequena: 22 pacientes.

No fim do experimento, 17 dos 22 pacientes conseguiram estabilizar o câncer. Três em quatro, repetindo.

Muitos medicamentos são propostos, um número menor chega a ser testado e um número bem menor é aprovado e chega ao mercado, e quando chega, uma década ou mais se passou.

Beneficiará outros companheiros. É o que esperamos.

Gláucio Soares

IESP-UERJ

A TRAJETÓRIA DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO EM CINCO IDIOMAS: ASCENSÃO RÁPIDA E QUEDA LENTA

O que virá após a crise política? Possivelmente o modelo econômico mais adequado para o Brasil voltará à pauta. A discussão não será só política, no Congresso, nos partidos: será acadêmica também. Com o intuito de informar qual foi a trajetória de alguns dos conceitos centrais das teorias que, subjacentes às políticas, se enfrentam no mundo acadêmico, coletei informações sobre seu uso, crescimento e desuso nos livros, nos milhões de livros que foram xerocados pela Google, publicando os resultados na coluna “Pesquisando”, disponível na revista Em Debate clicando em

http://opiniaopublica.ufmg.br/…/…/edicao/5-pesquisando13.pdf

 

Agradeço aos que quiserem dar a mim a honra de uma leitura.

Vidas desiguais, mortes desiguais

Durante os “bons anos” pós Estatuto e durante a era Beltrame houve uma redução na taxa de mortes por homicídios no Estado do Rio de Janeiro tanto entre brancos quanto entre negros. Se quiserem dar-nos a honra de uma leitura, Sandra Andrade e eu analisamos séries temporais que mostram que persistiram diferenças absolutas entre a vitimização dos negros e a dos brancos. O artigo se chama “Vidas Desiguais, Mortes Desiguais” e está disponível em

opiniaopublica.ufmg.br

http://opiniaopublica.ufmg.br/site/files/artigo/7-vidas-glaucio1.pdf

Desigualdades….

Prestamos muita atenção à desigualdade de renda e pouca à desigualdade cognitiva. A desigualdade de renda, por convenção, se mede anualmente. Em circunstancias improváveis, mas não impossíveis, ela pode ser alterada em poucos anos. A desigualdade cognitiva é mais difícil de reverter e tende a marcar as pessoas durante toda a vida. Ela é um dos determinantes da desigualdade de renda. E vice-versa.

São conceitos novos, mas desigualdade de renda é uma noção mais antiga. A expressão “cognitive inequality” é muito mais recente. Apareceu, timidamente, três décadas e meia mais tarde.

A desigualdade cognitiva não é um conceito estabelecido que, se mencionado, desperte uma luz de compreensão. Está sendo construído. É usado para descrever diferenças de conhecimento, como o número de palavras conhecidas, o tempo até o reconhecimento dessas palavras, a capacidade analítica da pessoa, a capacidade de resolução de problemas e outras acepções. Uma observação relevante é que se refere a diferenças entre as pessoas em relação ao que sabem e conseguem elaborar, mas também em relação ao potencial, que insere uma dimensão temporal e, até mesmo, a noção de limite: até onde podem chegar.

As medidas desenvolvidas nas últimas décadas mostram que as diferenças sociais, entre classes, raças (associada às diferenças entre classes) e também entre localizações geográficas, e muitas diferenças mais, já estão presentes em crianças pequenas.

São diferenças entre o que são; são diferenças entre o que podem ser. Parte dos caminhos da vida já está condicionada nessa idade. Os trilhos da vida já estão se formando, dando limites baixos a uns, estimulando voos maiores a outros.

Condicionada, mas não determinada.

Mudar é possível.

As mudanças podem vir de várias fontes, podem ser de diversos tipos. Em países pobres, teoricamente, o estado é visto como um instrumento mais importante para reduzir as desigualdades cognitivas.

Teoricamente.

Infelizmente, em muitos desses países pobres, o estado é não apenas um estado em si, mas é também um estado para si.

Vamos “aprender de fora” para sonhar melhor, sonhar com um estado para o seu povo. Um programa experimental foi criado para ajudar crianças de três anos de idade e seus pais. Foi criado pelo U.S. Department of Health and Human Services na década de 90.

Programas experimentais começam em escala pequena. Usualmente custam muito menos do que os programas definitivos, partes de políticas públicas mais ambiciosas. Tentam diferentes soluções e aprendem com os experimentos. Os erros são baratos. Requerem avaliações – como todas as ações públicas deveriam requerer.

John Love e uma ampla equipe realizou uma dessas avaliações parciais. O programa se direcionava a mulheres gravidas de baixa renda e a famílias de baixa renda com crianças pequenas. Estudaram cerca de três mil famílias para avaliar 17 programas. “Cercaram” bem as perspectivas de análise: entrevistaram os profissionais que atendiam essa população, avaliaram as crianças e observaram as interações entre as crianças e suas famílias até os três anos de idade.

Usaram regressões, um instrumento estatístico padrão, para comparar esse grupo experimental com um grupo controle que não era parte do programa. As crianças do programa apresentaram muitas vantagens: desenvolvimento verbal, desenvolvimento cognitivo, maior investimento emocional do pai e/ou mãe (usualmente mãe), maior capacidade de atenção e comportamentos agressivos menos frequentes.

Uma constatação muito importante: os pais e mães que participavam do programa davam mais apoio emocional às crianças, estimulavam mais as crianças ao desenvolvimento verbal e à aprendizagem, liam com mais frequência para seus filhos e batiam neles com menos frequência.

Mudar é possível.

Mas o que foi aprendido com o experimento não parou aí. Os melhores resultados foram obtidos através da mistura de atendimento em casa e no centro onde era proporcionada a maioria dos serviços e, muito importante, os atendimentos que começaram mais cedo.

Outros países, onde a saúde pública é levada em sério e o estado emprega poucos políticos – e assim mesmo em caráter temporário – e muitos profissionais competentes, trabalham com programas semelhantes que objetivam reduzir as desigualdades cognitivas.

Quanto custa um programa desses?

Em 2016, o programa Head Start custou aos cofres federais americanos, aproximadamente, 635 milhões de dólares, ou dois bilhões de reais.

É difícil não sonhar com os benefícios de um programa semelhante, devidamente adaptado e ajustado às condições brasileiras. Porém, nesse momento, as desigualdades de renda e de poder voltam ao meu pensamento e forçam a entrada na equação, não me permitindo continuar sonhando.

Não há como esquecer o loteamento do Ministério da Saúde. E, como falei em custos, o meu pensamento não consegue esquecer: o rombo deixado por Eike Batista, gentilmente solto pelo ministro Gilmar Mendes. A Folha de São Paulo estimou esse rombo em 29,2 bilhões de reais. O equivalente ao orçamento do programa Head Start durante cerca de quinze anos- a preços americanos.

A exatidão da cifra é menos importante do que a sua escala para essa comparação apenas ilustrativa. As desigualdades no Brasil são de outra dimensão, de outra realidade. É obsceno que uma só pessoa tenha, ou tenha tido, uma fortuna individual capaz de elevar significativamente o capital cognitivo da infância e da juventude do país. E que “o sistema” favoreça um punhado dessas pessoas em detrimento de milhões de brasileiros.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Triste segunda feira

Triste segunda feira

Ler o artigo de Ligia Bahia n’O GLOBO de hoje, segunda feira, 8 de maio de 2017, em outras circunstâncias, provocaria um sorriso, uma alegria. Afinal, é um artigo que mostra o quanto uma autora pode fazer nas poucas linhas disponíveis para quem escreve para a seção de Opinião. Um artigo escrito por uma doutora em Saúde Pública que pode ser compreendido pelo leitor comum; um artigo que trata de tema relevante para o país. Um excelente artigo.

A relevância e o conteúdo do tema, que recomendam a autora, entristecem o leitor. Mostram que o governo Temer está disposto a sacrificar a saúde dos brasileiros para aumentar a probabilidade de aprovar as mudanças econômicas que muitos julgam indispensáveis para que o país saia do fundo do poço.

O artigo de Ligia Bahia vai além de suas palavras: provoca reflexões nos leitores, que enchem a cidadania de apreensões e tristezas.

A cultura política corrupta e apodrecida, da qual Temer é parte e símbolo, cobra muito caro a sua anuência. O preço pago por Temer pelos votos de apoio de um partido mediano é a exclusão da competência do Ministério da Saúde. Não esqueçamos que um ministro não é, apenas, UM ministro. Cada ministro deste tipo traz consigo toda uma velharia incompetente e carcomida que ocupa cargos onde decisões importantes são tomadas. Decisões que afetam milhões de brasileiros, das quais a formação, a informação atualizada e a competência foram excluídas. Decisões que variam com os ventos do mercado político, de votos e apoios e não com a necessidade da população.

E mais brasileiros adoecem e não são tratados.

Muitos, demasiados, morrem.

Triste segunda feira.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ