Menos mortes violentas em São Paulo e no Rio de Janeiro

 

Nesses dias de tempestade política, quando vejo amigos brigando com amigos, eu criava um cantinho de felicidade, porque, pela primeira vez em muito, muito tempo, a taxa de homicídios em São Paulo baixou de dez por 100 mil hbs. Essa taxa não é mágica, mas é simbólica.  Ela é usada, arbitrariamente, como a fronteira que define a violência epidêmica. Esqueçam partidos e políticos: isso significa menos brasileiros morrendo brutalmente.

Também havia boas notícias sobre o Estado do Rio de Janeiro:  houve uma redução de 4,7% nos homicídios dolosos, de 464 em 2014 para 442 em 2015.  Os latrocínios (roubo seguido de morte), que causam medo, mas são estatisticamente muito menos importantes do que os homicídios dolosos, baixaram de 15 para 11.  Temos que chorar o aumento nos homicídios decorrentes de intervenção policial ( os chamados autos de resistências): 14 a mais, reduzindo os ganhos no período. A letalidade violenta baixou de 532 para 519: morreram, no total, 14 brasileiros a menos no nosso estado.

Talvez a notícia mais importante tenha sido a expulsão de 43 policiais da PMRJ, acusados de cobrar propina de comerciantes em Bangu e Honório Gurgel. Sim, é verdade que as investigações foram lentas (desde 2012), mas mostram uma determinação de retirar os bandidos da tropa.

Mas o meu cantinho foi enlameado por um juiz dirigindo, em flagrante violação da lei, um Porsche apreendido do Eike Batista. Quem julga os juízes? Agua gelada e suja no meu cantinho, onde germinava uma esperança. Precisamos multiplicar os cantinhos da decência nesse país dominado pela lei de Gerson.

 

GLÁUCIO SOARES      IESP/UERJ

Menos pais, mais crimes

CORREIO BRAZILIENSE, 29/01/15     

 

A proporção de famílias incompletas, sem a presença do pai ou da mãe, é a que melhor prevê o nível de crimes violentos numa comunidade (bairro, município, área metropolitana). Tanto maior o número de clãs incompletos, tão mais elevado o nível de crimes violentos. Por quê? R. L. Maginnis enumera caminhos pelos quais os pais presentes previnem e controlam o descaminho dos filhos: há mais estabilidade econômica, menos crises e mais recursos materiais; os pais proporcionam exemplo, na maioria dos casos, positivo. Não tendo o modelo em casa, a criança ou adolescente o buscará em outros lugares, o que aumenta o risco de seguir trilha criminal. Mais: há mais segurança financeira, emocional e de outros tipos para a família; a presença paterna — sobretudo dos que contribuem financeiramente, participam das tarefas domésticas e dedicam carinho e tempo aos filhos — reduz o estresse das mães. Quando protetora e carinhosa, é essencial. Os jovens combinam o sexo e a coorte etária com maior propensão ao crime. Quais os efeitos, comprovados por pesquisas, de que a família incompleta prejudica os filhos? São muitos os comportamentos indesejáveis. Entre eles, maior risco de usar drogas; de pertencera gangues; de ser expulso da escola; de ser internado numa instituição penitenciária para menores, estilo Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas); de matar alguém na adolescência. A família incompleta significa que os filhos passam menos tempo com alguém que os orienta para as necessidades, que os acompanha e aconselha. Sobra para a família mais ampla, para a vizinhança, para a escola e para a religião —quando elas existem — na vida do clã e dos adolescentes. As quatro instituições estão em crise no Brasil, o que reduz a influência eo número de crianças e adolescentes que conseguem ajudar. Nos Estados Unidos, em 1993, foi realizada a pesquisa Violência nas Escolas Públicas Americanas. Entre os resultados, 71% dos professores e 90% dos policiais achavam que a falta de supervisão dos pais era fator muito importante que contribuía para a violência nas instituições de ensino. Menos pais, mais crimes. Crianças e adolescentes também opinaram:61% dos alunos das escolas primárias e 76% das secundárias concordavam com essa opinião. Essa é apenas uma de muitas pesquisas feitas nos Estados Unidos que apontam na mesma direção. Não é “coisa americana”. Estudos em outros países chegaram a conclusões semelhantes. A idade conta. Levantamento britânico comparou mães muito jovens comas que postergaram a maternidade para além dos 20 anos. Foram usados dados do Environmental Risk (E-risk) Longitudinal Twin Study, com mais de 1.000 mulheres que pariram posteriormente. Entrevistaram as mães, observaram as crianças, que também fizeram testes e obtiveram respostas dos professores ao questionário. Visitaram as residências quando as crianças tinham cinco anos. Resultado: mais mães adolescentes, mais crimes. As mães não são iguais, em parte, porque os pais também não são. Os mais jovens se revelaram menos confiáveis, apoiavam menos as companheiras (em todos os sentidos) e eram mais frequentemente antissociais, abusivos e violentos. As mães jovens enfrentavam problemas socioeconômicos difíceis, tinham menos capital humano e social e mais problemas mentais. As crianças pagavam alto preço: tinham menos êxito na escola, menor educação, mais problemas comportamentais e emocionais, eram mais vitimados pelos pais, tinham mais doenças, acidentes e prejuízos de todo tipo. A desvantagem é persistente e, anos mais tarde, mães precoces e filhos continuavam muito pior. Há rupturas temporárias na família devidas a fatores como migrações e exigências do trabalho. Elas também prejudicam os filhos. Chok C. Hiew estudou militares canadenses e famílias japonesas separadas pelo trabalho. No Japão, é comum que o pai seja transferido, deixando a família por longos períodos. É tão comum que mereceu um descritor próprio: tanshinfunin. É nova forma de estrutura familiar. Qual é o resultado? As mulheres achavam que recebiam menos apoio social e mais discriminação. Os filhos tinham pior rendimento escolar. Temporária ou permanente, a ausência paterna é ruim para os filhos.

Menos pais, mais crimes.

 

GLÁUCIO SOARES

Sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

CÂNCERES INDOLENTES QUE NÃO MATAM OS PACIENTES

Um estudo recente concluiu que mais pacientes deveriam ser acompanhados, sem qualquer tratamento agressivo. A conclusão se baseia no dado de que ainda há muitos pacientes que são tratados – com efeitos colaterais e perda na qualidade de vida – que carregam canceres indolentes que não afetariam significativamente a vida deles.

Tipicamente, esses pacientes são idosos, o que significa menos tempo para o câncer mutar e/ou evoluir, e menos intimidantes: PSA baixo, PSADT longo, Gleason 6 ou menos, sem indicação de nódulos no exame retal.

Esse acompanhamento é chamado de watchful waiting. Não é abandono: sai do consultório e esquece! Requer acompanhamento através, onde possível, de exames menos invasivos como os de sangue e o toque retal, ultrassom e os mais recentes exames de urina.

Essa preocupação apareceu com pesquisas que demonstraram que muitos idosos morriam de outras causas, com formas indolentes do câncer da próstata, mas não morriam do câncer da próstata. É importante lembrar que estamos tratando de tendências, probabilidades, riscos, médias e medianas e não de certezas e muitos pacientes preferem não arriscar nada, pagando um alto preço por isso.

 

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Não sabote o seu sono com café

 

A Universidade de Harvard produz pequenos relatórios (de vinte a quarenta páginas) sobre temas médicos. Podem ser baixados eletronicamente, em papel, ou ambos. Custam entre vinte e trinta dólares cada. Representam o estado da arte. Com o que você gasta num livro de texto na graduação você pode comprar vários desses reports.

Há alguns comportamentos que são fáceis de fazer ou evitar que são importantes.

Reduza seu consumo de cafeína. Quem consome cafeína, em suas múltiplas formas (cafés, cafezinhos, chocolates, bebidas cafeinadas como a Coca-Cola normal, Pepsi etc. podem comprometer o seu sono noturno. Corta-las, ou reduzi-las muito, particularmente nas horas antes de dormir, evitará muitos episódios de insônia.

Como age a cafeína para dificultar o sono? De duas maneiras:

1.Demoram mais a dormir, tem dificuldade em cair no sono e

2.Quando dormem, o sono não é profundo e dura menos.

Os efeitos variam de pessoa a pessoa. Alguns, se tomarem uma xicara de café pela manhã, não conseguem dormir à noite. Uma explicação é que a cafeína bloqueia a adenosina, que é um neurotransmissor que estimula o sono. A cafeína também aumenta a vontade (e a urgência) de fazer xixi, o que interrompe o sono.

Quem sofre de insônia precisa evitar a cafeína – se quiser dormir. Se tomar um cafezinho que seja o mais cedo possível, porque os efeitos da cafeína duram muito tempo, horas e mais horas. O conselho médico é parar de tomar; se não houver jeito, que pare ao meio dia ou, estourando, às duas da tarde.

Parar de tomar café também causa problemas – síndrome de abstenção. Pode vir junto com dor de cabeça, irritabilidade, ansiedade e cansaço, cansaço extremo.

Para saber mais, leia

Improving Sleep: A guide to a good night’s rest, a Special Health Report da Harvard Medical School.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

A controvérsia sobre o selênio

 

Há, no mundo países e regiões ricas em selênio e há as pobres também. A deficiência de selênio facilita várias doenças. Porém, em altas quantidades o selênio é um veneno poderoso. Mata.

Pesquisas feitas em países pobres em selênio no solo revelaram uma associação entre o baixo nível de selênio na pessoa e o risco de ter câncer da próstata.

O problema: não especificaram que essa relação não existia em países cujo solo era rico em selênio. Mundo a fora, paciente passaram a tomar suplementos de selênio, inclusive eu. Pior: um famoso especialista em câncer da próstata me recomendou que tomasse suplementos de selênio. Porém, a pesquisa SELECT mostrou que, a partir de um certo nível, mais selênio não fazia diferença no risco de ter esse câncer. Não ajudava a saúde: ao contrário, gerava outros problemas. Em estudo recém publicado, Kenfield e associados mostravam que a suplementação de selênio em altas doses aumentava o risco de morrer do câncer da próstata.[i]

Somente incautos saem buscando suplementos baseados em informação escassa. Tomar selênio só reduz o risco de câncer, de fracasso bioquímico e de morte quando o indivíduo tem deficiência. Em pessoas sem deficiências, a suplementação aumenta esses riscos.

 

[i] Kenfield SA, Van Blarigan EL, DuPre N, Stampfer MJ, L Giovannucci E e Chan JM, Selenium supplementation and prostate cancer mortality, J Natl Cancer Inst. 2014 Dec 12;107(1):360. doi: 10.1093/jnci/dju360. Impresso em janeiro de 2015.

Forum de sobreviventes de câncer

 

Um sobrevivente de dois episódios de leucemia quer aproveitar dois programas gratuitos onde outros sobreviventes de câncer trocam fichinhas, informações e emoções. Infelizmente, está em Inglês.  Queiramos ou não, é o idioma dominante na Ciência e na internet também. Quem quiser dar uma olhada ou participar, clique no link abaixo.

 

GLÁUCIO SOARES                                 IESP-UERJ

 

http://blog.postach.io/sharing-and-remembering-stories-of-survival-with-evernote-and-postach-io

A MEDICINA BRASILEIRA PERDE UM LIDER

Leio, com tristeza, a notícia sobre a morte de Campos da Paz. Não o conheci pessoalmente. Porque ele existiu, temos uma excelente rede nacional de hospitais especializados em Ortopedia, a rede Sarah Kubitschek. Contribuiu para elevar a qualidade da vida de dezenas ou centenas de milhares de brasileiros. Em nome de tantos, obrigado Aloysio Campos da Paz.

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ