Estatinas contra o câncer da próstata?

Há vários anos surgiram indícios de que o uso regular das estatinas (medicamento que reduz o colesterol) ajuda a reduzir o avanço do câncer da próstata. Agora foram divulgados os dados de uma pesquisa que examinou o efeito das estatinas quando os pacientes estão fazendo o tratamento hormonal. O resultado é bom: o uso conjunto das estatinas aumenta em dez meses o tempo até que o câncer recomece seu avanço. Os pesquisadores estão afiliados a duas instituições importantes, o Dana-Farber Cancer Institute e a Harvard Medical School. Os dados são frescos e precisam de confirmação, usualmente na forma da aprovação de pareceristas e subsequente publicação em revista especializada. É um procedimento lento, que pode levar vários meses.

Quais os caminhos tomados pelas estatinas para provocar esse benefício? Ainda não se sabe.

A pesquisa analisou dados de 926 pacientes que estavam sendo tratados com a terapia hormonal. Uns tomavam estatinas (31%), outros não. Os pesquisadores mostraram que, na origem, os grupos não eram iguais. Os que usavam estatinas tinham uma percentagem menor diagnosticada com câncer agressivo. Se foi o uso de estatinas que contribuiu para o melhor quadro dos pacientes já no diagnóstico, não se sabe.

O acompanhamento desses dois grupos revelou que o dos que usavam estatinas teve um período de 27,5 meses até que o câncer voltasse a avançar, ao passo que o grupo dos que não tomavam estatinas tiveram apenas 17 meses até que o câncer avançasse.

A diferença pode ser devida a outros fatores? Claro que sim. Por isso, os autores controlaram outros fatores que poderiam contribuir para a diferença. Descontando esses efeitos, as diferenças continuavam estatisticamente significativas.

Essa linha de pesquisas necessita de confirmação, de estudos com grupo controle já na origem etc.

GLÁUCIO SOARES

IESP/UERJ

Os benefícios da abiraterona são maiores do que se pensava

 

 

Quando, num experimento em andamento, os dados provisórios permitem ver que há um benefício claro para os que estão no grupo experimental, por razões humanitárias se permite que os membros do grupo placebo passem para o experimental. Essa passagem é chamada de cross-over.

Uma equipe capitaneada por Wayne Kuznar reanalisou os dados de uma pesquisa que, a partir de um ponto, permitiu o cross-over.

A pesquisa lidava com mais de mil pacientes adiantados, que tinham metástases crescentes e que já não respondiam ao tratamento hormonal, chamados de pacientes mCRPC, mas que não tinham sintomas ou tinham sintomas leves. Quando foram diagnosticados, metade dos pacientes nos dois grupos tinham um Gleason ≥8 (esse sinal significa igual ou mais alto do que 8).

Foram dois grupos iguais, um, placebo mais prednisona, e outro acetato de abiraterona (1.000mg. diariamente) mais prednisona.

Por mais frio que pareça, os pesquisadores calculam as mortes, além de registrarem quando elas acontecem. Depois de pouco mais do que quatro anos, 741 pacientes tinham morrido.

Quarenta e quatro porcento dos pacientes do grupo placebo passaram para o grupo experimental e começaram o tratamento com abiraterona. É o cross-over.

Porém, esses pacientes passaram um tempo, grande para alguns, sem esse tratamento, o que prejudicou seu resultado. Os ganhos com o uso da abiraterona

Inicialmente, se calculou que a mediana (metade mais, metade menos) de sobrevivência geral, considerando todas as causas de morte, era de 30,3 meses no grupo placebo e de 34,7 meses no grupo abiraterona. O risco de morte no grupo abiraterona era 19% menor. Porém, quando foram levados em consideração os efeitos da mudança de grupo, a diferença aumentou para 26%.

Já sabemos que alguns pacientes não respondem ao tratamento com abiraterona (ou enzalutamida) e já sabemos o porquê. Esses tratamentos aumentam a vida dos pacientes em alguns meses, na mediana. Metade vive mais do que isso e alguns pacientes vivem muito mais. É o que temos, mas há algumas promessas sendo pesquisadas.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

A velocidade não compensa

por David Duarte Lima, presidente do Instituto Paz no Trânsito, professor do Departamento de Saúde Coletiva da UnB e fundador da ONG Rodas da Paz

A velocidade é um dos principais fatores de acidentes de trânsito. Sabe-se, por exemplo, que quando se passa de 70 Km/h para 90 Km/h o risco de acidente fatal é multiplicado por dois. Ou seja, no caso citado, um aumento de 28,6% na velocidade implica num aumento de 100% no risco de acidente. Quando passamos de 70 Km/h para 100 Km/h, esse risco é multiplicado por três.

Uma experiência realizada na Alemanha com dois motoristas mostrou alguns aspectos interessantes. Ambos percorreram mil milhas (1609 Km) seguindo o mesmo percurso. O primeiro motorista tinha a missão de chegar ao final do trajeto o mais rápido possível. Ao segundo, por outro lado, foi ordenado seguir o fluxo de veículos no mesmo ritmo, correndo o mínimo de riscos.

Os resultados dessa experiência nos convida à reflexão.

O motorista intrépido dirigiu durante 20 horas e 12 minutos, ultrapassou 2004 veículos, foi ultrapassado 13 vezes e teve de frear 1339 vezes. O motorista prudente dirigiu durante 20 horas e 43 minutos, ultrapassou 640 veículos, foi ultrapassado por 142 e teve de usar o freio 652 vezes. Em resumo, o primeiro motorista correu três vezes mais risco que o segundo e ganhou com isso 31 minutos, ou seja menos 3% de tempo! Isso sem contar o maior desgaste do veículo, maior consumo de combustível, entre outros aspectos negativos.

A experiência descrita acima tem um valor relativo. Outras variáveis, como clima, maneira de dirigir, tipo de veículo, situação no tráfego, entre outras merecem ser consideradas, pois podem modificar os resultados.

E em Brasília, como isso acontece na prática? Bom, tomemos o caso do Eixo Rodoviário. Com base em dados internacionais, adaptados à nossa realidade, construí a tabela abaixo. Na primeira coluna temos diferentes velocidades desenvolvidas. Na segunda, temos o tempo de percurso das extremidades do Eixo Rodoviário até a Rodoviária (aproximadamente 6 quilômetros).  Finalmente, na terceira coluna temos os riscos aproximados de acidente fatal para cada velocidade, em relação a 60 Km/h.

 

Velocidade (Km/h)

Tempo (min) de percurso

Risco(a 60 = 1)

60

6

1

70

5,2

1,4

80

4,5

2

90

4,0

3

100

3,6

5

 

A tabela mostra claramente que uma pessoa que está dirigindo a 100 Km/h corre cinco vezes mais risco de envolver-se num acidente fatal que aquela que dirige a 60 Km/h; a velocidade aumentou 67%, enquanto o risco de acidentes deu um salto estratosférico de 500%!

Outro aspecto é o tempo. Porque as pessoas correm? Para ganhar tempo, óbvio. Porém, é racional passar no “Eixão” a 120 Km/h? Faça as contas: ganhar dois minutos para chegar ao trabalho é extremamente importante? Lógico que não. Ricardo Semler diz que as pessoas deveriam aprender a medir o tempo por décadas. Além disso, como já observou o jornalista Alexandre Garcia, dirigir em velocidades razoáveis diminui muito o estresse. Resumindo: essa forma frenética de dirigir adotada por alguns motoristas, serve mais para aumentar os riscos e o entupimento das artérias do que ganhar tempo. Se ganhar dois minutos é importantíssimo para você, saia um pouquinho mais cedo.

No final de um ano, se todos se esforçarem, dirigindo em velocidades compatíveis e respeitando as leis de trânsito, o resultado será menos mortes, menos sofrimento. E não existe recompensa maior que a vida. Faça a sua parte.

Menos mortes violentas em São Paulo e no Rio de Janeiro

 

Nesses dias de tempestade política, quando vejo amigos brigando com amigos, eu criava um cantinho de felicidade, porque, pela primeira vez em muito, muito tempo, a taxa de homicídios em São Paulo baixou de dez por 100 mil hbs. Essa taxa não é mágica, mas é simbólica.  Ela é usada, arbitrariamente, como a fronteira que define a violência epidêmica. Esqueçam partidos e políticos: isso significa menos brasileiros morrendo brutalmente.

Também havia boas notícias sobre o Estado do Rio de Janeiro:  houve uma redução de 4,7% nos homicídios dolosos, de 464 em 2014 para 442 em 2015.  Os latrocínios (roubo seguido de morte), que causam medo, mas são estatisticamente muito menos importantes do que os homicídios dolosos, baixaram de 15 para 11.  Temos que chorar o aumento nos homicídios decorrentes de intervenção policial ( os chamados autos de resistências): 14 a mais, reduzindo os ganhos no período. A letalidade violenta baixou de 532 para 519: morreram, no total, 14 brasileiros a menos no nosso estado.

Talvez a notícia mais importante tenha sido a expulsão de 43 policiais da PMRJ, acusados de cobrar propina de comerciantes em Bangu e Honório Gurgel. Sim, é verdade que as investigações foram lentas (desde 2012), mas mostram uma determinação de retirar os bandidos da tropa.

Mas o meu cantinho foi enlameado por um juiz dirigindo, em flagrante violação da lei, um Porsche apreendido do Eike Batista. Quem julga os juízes? Agua gelada e suja no meu cantinho, onde germinava uma esperança. Precisamos multiplicar os cantinhos da decência nesse país dominado pela lei de Gerson.

 

GLÁUCIO SOARES      IESP/UERJ

Menos pais, mais crimes

CORREIO BRAZILIENSE, 29/01/15     

 

A proporção de famílias incompletas, sem a presença do pai ou da mãe, é a que melhor prevê o nível de crimes violentos numa comunidade (bairro, município, área metropolitana). Tanto maior o número de clãs incompletos, tão mais elevado o nível de crimes violentos. Por quê? R. L. Maginnis enumera caminhos pelos quais os pais presentes previnem e controlam o descaminho dos filhos: há mais estabilidade econômica, menos crises e mais recursos materiais; os pais proporcionam exemplo, na maioria dos casos, positivo. Não tendo o modelo em casa, a criança ou adolescente o buscará em outros lugares, o que aumenta o risco de seguir trilha criminal. Mais: há mais segurança financeira, emocional e de outros tipos para a família; a presença paterna — sobretudo dos que contribuem financeiramente, participam das tarefas domésticas e dedicam carinho e tempo aos filhos — reduz o estresse das mães. Quando protetora e carinhosa, é essencial. Os jovens combinam o sexo e a coorte etária com maior propensão ao crime. Quais os efeitos, comprovados por pesquisas, de que a família incompleta prejudica os filhos? São muitos os comportamentos indesejáveis. Entre eles, maior risco de usar drogas; de pertencera gangues; de ser expulso da escola; de ser internado numa instituição penitenciária para menores, estilo Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas); de matar alguém na adolescência. A família incompleta significa que os filhos passam menos tempo com alguém que os orienta para as necessidades, que os acompanha e aconselha. Sobra para a família mais ampla, para a vizinhança, para a escola e para a religião —quando elas existem — na vida do clã e dos adolescentes. As quatro instituições estão em crise no Brasil, o que reduz a influência eo número de crianças e adolescentes que conseguem ajudar. Nos Estados Unidos, em 1993, foi realizada a pesquisa Violência nas Escolas Públicas Americanas. Entre os resultados, 71% dos professores e 90% dos policiais achavam que a falta de supervisão dos pais era fator muito importante que contribuía para a violência nas instituições de ensino. Menos pais, mais crimes. Crianças e adolescentes também opinaram:61% dos alunos das escolas primárias e 76% das secundárias concordavam com essa opinião. Essa é apenas uma de muitas pesquisas feitas nos Estados Unidos que apontam na mesma direção. Não é “coisa americana”. Estudos em outros países chegaram a conclusões semelhantes. A idade conta. Levantamento britânico comparou mães muito jovens comas que postergaram a maternidade para além dos 20 anos. Foram usados dados do Environmental Risk (E-risk) Longitudinal Twin Study, com mais de 1.000 mulheres que pariram posteriormente. Entrevistaram as mães, observaram as crianças, que também fizeram testes e obtiveram respostas dos professores ao questionário. Visitaram as residências quando as crianças tinham cinco anos. Resultado: mais mães adolescentes, mais crimes. As mães não são iguais, em parte, porque os pais também não são. Os mais jovens se revelaram menos confiáveis, apoiavam menos as companheiras (em todos os sentidos) e eram mais frequentemente antissociais, abusivos e violentos. As mães jovens enfrentavam problemas socioeconômicos difíceis, tinham menos capital humano e social e mais problemas mentais. As crianças pagavam alto preço: tinham menos êxito na escola, menor educação, mais problemas comportamentais e emocionais, eram mais vitimados pelos pais, tinham mais doenças, acidentes e prejuízos de todo tipo. A desvantagem é persistente e, anos mais tarde, mães precoces e filhos continuavam muito pior. Há rupturas temporárias na família devidas a fatores como migrações e exigências do trabalho. Elas também prejudicam os filhos. Chok C. Hiew estudou militares canadenses e famílias japonesas separadas pelo trabalho. No Japão, é comum que o pai seja transferido, deixando a família por longos períodos. É tão comum que mereceu um descritor próprio: tanshinfunin. É nova forma de estrutura familiar. Qual é o resultado? As mulheres achavam que recebiam menos apoio social e mais discriminação. Os filhos tinham pior rendimento escolar. Temporária ou permanente, a ausência paterna é ruim para os filhos.

Menos pais, mais crimes.

 

GLÁUCIO SOARES

Sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

CÂNCERES INDOLENTES QUE NÃO MATAM OS PACIENTES

Um estudo recente concluiu que mais pacientes deveriam ser acompanhados, sem qualquer tratamento agressivo. A conclusão se baseia no dado de que ainda há muitos pacientes que são tratados – com efeitos colaterais e perda na qualidade de vida – que carregam canceres indolentes que não afetariam significativamente a vida deles.

Tipicamente, esses pacientes são idosos, o que significa menos tempo para o câncer mutar e/ou evoluir, e menos intimidantes: PSA baixo, PSADT longo, Gleason 6 ou menos, sem indicação de nódulos no exame retal.

Esse acompanhamento é chamado de watchful waiting. Não é abandono: sai do consultório e esquece! Requer acompanhamento através, onde possível, de exames menos invasivos como os de sangue e o toque retal, ultrassom e os mais recentes exames de urina.

Essa preocupação apareceu com pesquisas que demonstraram que muitos idosos morriam de outras causas, com formas indolentes do câncer da próstata, mas não morriam do câncer da próstata. É importante lembrar que estamos tratando de tendências, probabilidades, riscos, médias e medianas e não de certezas e muitos pacientes preferem não arriscar nada, pagando um alto preço por isso.

 

 

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ

Não sabote o seu sono com café

 

A Universidade de Harvard produz pequenos relatórios (de vinte a quarenta páginas) sobre temas médicos. Podem ser baixados eletronicamente, em papel, ou ambos. Custam entre vinte e trinta dólares cada. Representam o estado da arte. Com o que você gasta num livro de texto na graduação você pode comprar vários desses reports.

Há alguns comportamentos que são fáceis de fazer ou evitar que são importantes.

Reduza seu consumo de cafeína. Quem consome cafeína, em suas múltiplas formas (cafés, cafezinhos, chocolates, bebidas cafeinadas como a Coca-Cola normal, Pepsi etc. podem comprometer o seu sono noturno. Corta-las, ou reduzi-las muito, particularmente nas horas antes de dormir, evitará muitos episódios de insônia.

Como age a cafeína para dificultar o sono? De duas maneiras:

1.Demoram mais a dormir, tem dificuldade em cair no sono e

2.Quando dormem, o sono não é profundo e dura menos.

Os efeitos variam de pessoa a pessoa. Alguns, se tomarem uma xicara de café pela manhã, não conseguem dormir à noite. Uma explicação é que a cafeína bloqueia a adenosina, que é um neurotransmissor que estimula o sono. A cafeína também aumenta a vontade (e a urgência) de fazer xixi, o que interrompe o sono.

Quem sofre de insônia precisa evitar a cafeína – se quiser dormir. Se tomar um cafezinho que seja o mais cedo possível, porque os efeitos da cafeína duram muito tempo, horas e mais horas. O conselho médico é parar de tomar; se não houver jeito, que pare ao meio dia ou, estourando, às duas da tarde.

Parar de tomar café também causa problemas – síndrome de abstenção. Pode vir junto com dor de cabeça, irritabilidade, ansiedade e cansaço, cansaço extremo.

Para saber mais, leia

Improving Sleep: A guide to a good night’s rest, a Special Health Report da Harvard Medical School.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ