As teias de relações sociais e a recuperação de dependentes químicos

Hoje, 02/06/219, no Fantástico, houve uma discussão da política do atual governo que amplia as razões que justificam o internamento compulsório de “drogados”. Foram feitas inúmeras afirmações de crítica ou de apoio a essa medida, mas não foram apresentados dados de pesquisas, seja os produzidos pela Fiocruz, seja outros, oriundos da grande quantidade de pesquisas realizadas sobre esse tema em vários países.
Quero acrescentar as conclusões de uma pesquisa qualitativa publicada este ano, sobre a influência da teia social do dependente sobre o êxito de diferentes tratamentos.
Trata-se de uma pesquisa muito pequena e de baixo custo, exploratória, que compara a teia social de dependentes com a dos não dependentes. Concentraram as ações em um grupo de dependentes que conseguiram manter a abstinência por, pelo menos, cinco anos.
Foram usadas entrevistas semi-estruturadas.
O olhar sociológico sugere que a riqueza e o caráter positivo das teias sociais ajudam a prevenir diferentes tipos de dependência e, caso uma dependência exista, ajudam a recuperação, a abstinência e a duração da abstinência.
Qual o tipo de relação que a maioria dos entrevistados considerou importante para conseguir a abstinência?
Foram duas: os que participaram do tratamento (médicos, terapeutas, assistentes sociais) e parentes, particularmente irmãos e/ou irmãs.
As influências da teia de relações sociais e terapêuticas não são necessariamente positivas. Há influências negativas, algumas poderosas, capazes de desfazer os avanços dos dependentes.
Essa pequena pesquisa sugere, sem provar, que o efeito benéfico dos esforços para obter a abstenção dos dependentes podem ser multiplicados pela inclusão no universo conceitual e perceptivo, tanto dos dependentes quanto dos que se propõem a ajudá-los, de pessoas relevantes que podem ajudar ou prejudicar a recuperação. Não é possível retirar as teias de relações pessoais, familiares, de amizade e terapêuticas dos dependentes, descontextualizando-os. Uma sugestão apoiada pelos dados dessa pesquisa mostra que os dependentes têm uma teia mais pobre de relações sociais do que os não dependentes. O desenho não permite saber o que veio antes: se a pobreza das relações sociais contribuiu para a dependência; porém, como a dependência provoca rejeição, não é possível excluir a hipótese de que ela empobreça a teia social dos dependentes, ou se as duas variáveis interagem continuamente. Nossa hipótese propõe que os dependentes com teias sociais mais amplas e mais positivas atingem e mantêm a abstinência com mais facilidade.
Mais uma vez, temos que colocar na equação os efeitos deletérios da solidão.
Creio que esse olhar sociológico pode ajudar a aumentar a eficiência dos programas que visam controlar a dependência.

GLÁUCIO SOARES

Saiba mais:
Pettersen H, Landheim A, Skeie I, Biong S, Brodahl M,
Oute J e Davidson L., How Social Relationships Influence Substance Use Disorder Recovery: A Collaborative Narrative Study. Subst Abuse. 2019 Mar 9;13:1178221819833379. doi: 10.1177/1178221819833379. eCollection 2019.

O FUMO DOS OUTROS E VOCÊ

Há muitos anos, na Flórida, um casal de brasileiros fumantes pendurou na porta da sua casa uma nota a respeito do dano que o fumar em casa faz a outros residentes, além dos fumantes. Hoje chamamos essas vítimas de fumantes secundários. A exigência de pendurar a nota foi feita pelo pediatra que tratava as duas filhas do casal, ambas com problemas de asma e outras disfunções respiratórias.

Inusitado. Penduraram a nota, mas não pararam de fumar em casa.

Outro acontecimento inusitado foi uma expressão que ouvi do pai das crianças: somos “fumantes racionais”. Logo percebeu a contradição embutida na expressão. Não obstante, insistiu em usá-la. Usando essa expressão, ele traçava uma linha entre os fumantes irracionais que apestavam residências, e eles, pai e mãe fumantes, que estariam abaixo dessa linha. Acima ou abaixo, as filhas tinham asma e bronquite, ao que tudo indica, reativas à intoxicação diária dentro de casa.

No meu entender, essa linha imaginária tinha uma função: reduzir a culpa dos pais fumantes e mascarar sua condição de dependentes químicos.

l Dependentes da nicotina.

Hoje, uns vinte anos mais tarde, não há como manter a linha imaginária. Pesquisas e mais pesquisas demonstraram o dano que o fumo de alguns produz em outros.

Inclusive filhos e filhas.

Inclusive ainda dentro da barriga da mãe.

O fumo afeta uma ampla área da saúde humana, inclusive o risco de câncer. Segundo a American Cancer Society, o fumo do tabaco é composto por milhares de substâncias químicas, das quais pelo menos 70 são cancerígenas. As principais: nicotina (a droga que provoca o vicio) é um dos produtos químicos mais agressivos da fumaça do tabaco; cianeto de hidrogênio; formaldeído; chumbo; arsênico; amônia e até elementos radioativos como o urânio. Tem mais: benzina; monóxido de carbono; nitrosaminas, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), etc. etc.

O dano começa quando o bebê nasce?

Não. Começa muito antes. As mães fumantes danificam seus filhos ainda na barriga. Fumar durante a gravidez afeta a mãe e o bebê antes de nascer, durante o parto, e depois do parto.

Todos os venenos que são inalados pela mãe fumante (primária ou secundária) entram na corrente sanguínea e vão direto ao feto.

Quais as consequências?

São muitas, muitas. Menciono algumas:

l Reduz a quantidade de oxigênio disponível para as mães e os bebês;

l aceleram os batimentos cardíacos do bebê;

l aumenta a taxa de natimortos;

l aumenta a taxa de abortos espontâneos e mais. 

E se a gestante for uma fumante secundária? Lembremos que fumantes secundários não fumam, mas inalam a fumaça do cigarro aceso e a exalada por um fumante. 

São muitas as consequências para a gestante e para o bebê dentro da sua barriga.

Mesmo quando o fumante é um “fumante racional”?

Também!

De cara, diminui a quantidade de oxigênio disponível para a gestante e para o bebê; aumenta os batimentos cardíacos do bebê e várias consequências encontradas nos bebês de gestantes que fumam: taxa mais elevada de natimortos e de abortos não intencionais; taxa mais elevada de que o bebê seja prematuro; reduz o peso do bebê ao nascer; aumenta o risco de que o bebê tenha doenças respiratórias, de nascer com defeitos, da síndrome da morte súbita e mais.

Todos os riscos aumentam com o número de cigarros fumados diariamente.

Não há número “seguro” de cigarros que podem ser fumados;

Não existem “fumantes racionais”. É mito.

Outro mito é o de que cigarro aceso, mas não fumado, causa menos dano à saúde dos demais. É o contrário.

O fumante retém algumas das substâncias maléficas; o cigarro aceso no cinzeiro joga tudo direto no ar.

Claro está que outras condições pesam, alteram a probabilidade de causar essas inúmeras doenças. Ao ar livre, a fumaça se dissipa muito mais rapidamente. Imaginem, ao contrário, os que dormem trancados, com janela fechada…

Em 2009, um relatório da Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer concluiu que são fortes as evidências que demonstram que a implementação de leis de controle do fumo reduzem as doenças cardíacas;

Em 2010 a Cochrane efetuou uma revisão de doze pesquisas que revelou a existência de uma redução nas internações hospitalares por problemas cardíacos depois da implementação de legislação de controle do fumo.

E maconha?

Desculpem, mas as pesquisas indicam que os efeitos da maconha podem ser ainda mais acentuados.

Um exemplo:

Uma pesquisa dirigida por Matthew Springer, professor da Universidade da Califórnia, comparou os efeitos do fumo secundário com cigarros e com maconha. Claro que não poderiam usar seres humanos como cobaias. Usaram ratos. Os que foram submetidos a um ambiente carregado com fumaça de maconha levaram mais tempo até que as artérias, artificialmente comprimidas pelos componentes da fumaça voltassem ao seu diâmetro normal. Quando os ratos eram expostos à fumaça de cigarros, suas artérias levavam trinta minutos para voltar ao normal; quando a fumaça era de maconha, levavam noventa minutos.

Isso, a despeito da maconha produzir um número menor de componentes químicos.

E quais os efeitos das políticas públicas em relação às doenças coronárias? Em 2010, fizeram uma meta-análise de 17 estudos que pesquisaram os efeitos das políticas públicas sobre a redução nas doenças coronárias e a conclusão, estatisticamente significativa, mostra que houve redução.

Tem mais: esses efeitos saudáveis aumentaram ao longo do tempo.

Em 2012 foi realizada uma pesquisa sobre o efeito de políticas de controle do fumo sobre a saúde de idosos (65 anos e mais). Quais eram essas políticas? Proibições de fumar nos locais de trabalho, nos bares e restaurantes, que atingiam, pelo menos, 50% da população do condado.

Quais foram as consequências?

l Uma redução de 20% nas internações hospitalares devido a ataques do coração e

l Uma redução de 11% nas internações devido a doenças crônicas de obstrução pulmonar.

E no Brasil? Embora desde o início das pesquisas sistemáticas, na década de sessenta, já fossem conhecidos os benefícios de políticas que protegessem não-fumantes (e fumantes também) em locais públicos, um senador engavetou o projeto durante sete anos. Conversei com uma assistente do senador, uma fumante, que condenou o projeto na base dos direitos dos fumantes, que via como um direito absoluto e inalienável. Continuou, dizendo que o número de vidas salvas era ínfimo. Com base em algumas considerações, estimou que o “ínfimo” número de vidas salvas anualmente era cerca de cinco mil. Balançou um pouco, mas insistiu em sua posição e a conversa terminou em pouco tempo.

Cinco mil vidas…

Cada ano; todos os anos.

Não foram suficientes para aquela fumante respeitar os não fumantes.

Você, não fumante, poderá ser hostilizado se expressar qualquer restrição ao fumo, inclusive ao “direito” dos fumantes de fumar no seu nariz. Uma das descrições agressivas da sua postura, talvez a mais comum, é “frescura”.

Em verdade, é frescura sim. Nós queremos ar fresco para respirar.

Sem qualquer tipo de poluição.

Defenda sua saúde e a sua vida! Com o exemplo; com a palavra; com a mobilização.

Gláucio Soares IESP/UERJ

var _tcq = _tcq || []; _tcq.push([‘init’, ‘791b382b72’]);

(function(d, s) {

    var e = d.createElement(s); e.type = ‘text/javascript’; e.async = true;

    e.src = ‘https://s.tcimg.com/w/v3/trendcounter.js’;

    var f = d.getElementsByTagName(s)[0]; f.parentNode.insertBefore(e, f);

})(document, ‘script’);

Um despertar doloroso

Há despertares estranhos; há alguns que chegam a ser dolorosos. Um despertar que tive algumas vezes nos últimos anos provocou uma dor na alma.
O que era esse despertar?
Ele acontecia depois de um sonho bom, gostoso. Neles, eu voltava de tratamento nos Estados Unidos; antes, passara algum tempo examinando possíveis presentinhos, possíveis agrados, para trazer para minha mãe. Neles, sempre arrancava um sorriso discreto, silencioso, de satisfação. O agrado agradou… Em alguns desses sonhos, dois ou três, cheguei a levantar da cama ainda meio dormido para buscar o presente e levá-lo. Ansioso de carteirinha, não ia esperar por uma hora convencionalmente decente, nove ou dez da manhã, sei lá. Os hábitos forjados em minha mãe desde seus tempos de professora primária, que incluíam transportes múltiplos, como bonde, ônibus e o famoso pedillac, a obrigavam a levantar muito cedo. Saindo de Laranjeiras destino Quintino Bocaiúva. Minha mãe acordava cedo.
Esperar não era o meu forte. Ia buscar o presente, subir pela escada do segundo ao oitavo andar, levar logo o presente cuidadosamente escolhido e deliciar-me com aquele sorriso subliminar de satisfação materna.
Mas a realidade chegava logo, logo, dura, fria e triste. Minha mãe morrera há anos. Eram necessários alguns minutos para que eu caísse na real: minha mãe morrera e eu não a veria mais. Não traria mais presentes. Não obstante, eu ainda precisava da minha velhinha. Preciso até hoje.
Hoje, o velhinho sou eu. Oitenta e lá vai fumaça. Não obstante, recebi uma benção divina, ter mãe viva até, quase, os meus setenta anos.
Minha mãe viveu e morreu lúcida. Cultivava a lucidez através de leituras e de jogos de biriba. Ia, diariamente, do apê até o bar do tênis jogar biriba no Fluminense. Várias outras pessoas de diferentes idades, mas com predomínio de idosos, formavam mesas. Sol quente e chuva fina não eram impedimento para a minha mãe. A maior dificuldade eram as escadas, da entrada até o tênis, e a pior, que ia do tênis até a passagem que leva ao Bar do Tênis. Eu, hoje, tenho que dar uma ou duas paradas enquanto me puxo pelo corrimão. Preciso dos braços para ajudar as pernas. Ela, mais para o final da vida, precisava do apoio de uma acompanhante.
Quando as pernas de minha mãe cederam de vez, passei a ter outra função, a de parceiro no biriba. Jogávamos todos os dias.
O biriba contribuía para a minha saúde, porque eu trucidava seis andares de escadas diariamente. Em raros dias, subia duas vezes no mesmo dia.
Entrava no apê de Mamãe e lá estava ela, sentada, incrivelmente erecta para seus noventa anos e mais, a cabecinha branca imersa em seus pensamentos, esperando. Era o ponto alto do dia para ela. Conversávamos um pouco, mas, progressivamente, o diálogo virou monólogo devido à perda de audição, nos últimos anos praticamente total. Já não adiantavam os aparelhos no ouvido, o que me roubou o prazer de trazer mini-baterias aproveitando qualquer viagem.
Umas poucas vezes falhei e a acompanhante me informou que ela ficava horas à espera do filho-parceiro que não chegava. Vocês podem imaginar o estrago que esse conhecimento causou numa pessoa parcialmente movida a culpa.

“Dona Dillon”, como a chamavam seus alunos. Minha mãe. Ao sair do apê, lá em baixo, perto da ambulância, disse, de dedo em riste: “Vou enfrentar com coragem e dignidade.”

E enfrentou a morte com coragem e dignidade.
Por que estou escrevendo essa estória?
A ocasião foi propiciada pelo Dia das Mães e reflexões sobre ele.
Há, também, uma auto-atribuída missão de distribuir um conhecimento, sempre como hipóteses, aplicáveis ou não, numa área preterida pelos nossos pesquisadores, sobre-preocupados com explicações “infra-estruturais” em detrimento de uma gama mais ampla de insumos para a pesquisa e as teorias sociológicas.
Um dado importantíssimo tem sido negligenciado, o aumento da esperança de vida ao nascer, no Brasil, de menos de 34 anos em 1900, para 76, em 2019, teve consequências para a família. Cresceram as famílias multigeracionais; cresceu o número de pessoas da Terceira Idade com um ou ambos genitores vivos. Essas mudanças significam um desafio extra para pais e mães que devem educar seus próprios filhos e filhas e, ao mesmo tempo, cuidar de seus próprios pais e mães. Ressurgem, em novo formato, as famílias multigeracionais.
É preciso inserir a idade média ao casar na equação. A idade média das mulheres quando se casam pela primeira vez subiu de 23 anos para 27 entre 1974 e 2014, e a dos homens subiu de 27 anos para 30.
Pensem no que isso significa para uma geração que deve educar filhos adolescentes (e se preocupar muito com a nova violência que atinge uma ampla faixa etária que se estende da pré-adolescência até o início da maturidade) e, ao mesmo tempo, ter alguma ou muita responsabilidade para uma e até duas gerações anteriores, seus próprios pais e mães, avôs e avós. Idosos com problemas de subsistência, muito diferentes por classe social, e a necessidade de tratar, financiar e conviver com doenças cronicas.
As pessoas sobre as quais essas responsabilidades caem pesado também estão mudando. Aumentou o número de divórcios, aumentou o número de unidades residenciais com vinculações multi-familiares, particularmente filhos e filhas de pais diferentes vivendo com a mesma mãe, que se relacionam com avôs e avós diferentes. Portanto, a rede de relações familiares também mudou, e não apenas a idade de seus integrantes.
Mudou e continua mudando.
Infelizmente, não é área que atraia muitos pesquisadores no Brasil, a despeito da sua relevância para as finanças, para as relações afetivas e, sobretudo, para a felicidade de todos os brasileiros e brasileiras.
Quero voltar, reconhecendo que a pretensão é descabida, ao status de senex sapiens. E dar conselhos.
Independentemente da sua idade, curta seus pais e mães, avôs e avós: eles não vivem para sempre. Faça, sempre que puder, aquele carinho e aquele agrado.
Saiba que os velhinhos também amam seus próprios pais e mães e sentem muita falta deles. Os velhinhos, antes de serem velhinhos, foram filhos e filhas. E continuam sendo.
Muito amor.

GLÁUCIO SOARES

O Estado, a vovó e os netinhos

Estive em Brasília, onde sou uma pessoa rica. Emocionalmente rica. Tenho dois filhos, dois netinhos e duas netinhas. Curtição pura. Voltei a ser vovô.
Como estou trabalhando sobre o Amor (com A maiúsculo), alimentei esse trabalho, que inclui pesquisar, calcular, pensar, meditar, escrever e outras atividades semelhantes com as emoções de ser e sentir ser vovô.
Desculpem a mudança de estilo mas, analiticamente, ser vovô ou vovó é uma variável. Varia por tipo, intensidade e outras divisões mais. Não é igual, não são as mesmas funções, em todo tempo e lugar.
Consideremos, nesse primeiro pensar, os casos intensivos. Os que são vovôs e vovós várias horas por dia, várias vezes por semana.
O que determina quanto tempo e de que maneira avôs e avós participarão da criação e da educação de netinhos e netinhas não depende só deles, nem apenas das famílias.
Uma pesquisa realizada por Di Gessa et al na Europa mostrou que há diferenças grandes entre os países. É uma pesquisa inteligente e criativa, mas difícil. É, no meu entender, particularmente criativa porque junta “campos” (à la Bourdieu) usualmente separados e distantes entre si. Como os estudos sobre a família, o desenvolvimento institucional e as políticas públicas.
A composição demográfica do país afeta a família;
Pincei o desenvolvimento institucional como uma perspectiva importante para estudar a família. Vários outros fatores, espremidos pelos autores sob o título de “contextuais-estruturais e culturais” têm forte impacto sobre as famílias, inclusive sobre a participação intensiva de avôs e avós na criação e educação de netos e netas.
A análise realizada pelos autores não é estatisticamente simples. Usaram modelos multi-nível.
O que é isso? Como fizeram isso?
Primeiro, usaram dados de um survey com questionário padronizado e amostras nacionais probabilísticas, chamado Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe. Esse survey permitiu conhecer as características individuais das crianças, dos seus pais e mães e dos seus avôs e avós. Permite saber quanto podemos atribuir a essas características individuais.
Os dados sobre a composição demográfica dos países permite ver até onde chega a sua influência; o mesmo vale para as variáveis relacionadas com a distribuição, inclusive a desigualdade de renda. Para mim, a moldura é política e depende de políticas públicas adequadas que, por sua vez, depende de termos um estado saudável que responde às necessidades da população.
Há um resultado contra-intuitivo: é nos países onde a participação tanto das mães quanto das avós na força de trabalho é menor que há mais avós (e, secundariamente, avôs) participando intensamente da criação e da educação das crianças. Na minha leitura, a presença conjunta das mães e das avós na mesma residência é reforçada pela interação entre elas. Essa interação das avós com duas gerações de sua descendência (filha, e netos e netas) tem o benefício de reduzir a solidão, um dos grandes problemas da Terceira Idade. Em verdade, a solidão é péssima companheira em qualquer idade, mas é mais frequente entre idosos e idosas.
Controlando isso tudo, os autores encontraram um peso grande, como esperado, da disponibilidade e da qualidade de serviços públicos nessa área. Encontraram diferenças Norte/Sul. Os países do sul da Europa oferecem menos serviços para crianças. Neles, menos avôs e avós levam netinhos e netinhas à creche e ao pré-primário.
Como assim? Menos?
É, porque um número maior de avôs e avós, sobretudo as avós, passa a ser, eles e elas, a própria creche.
E no Brasil? Qual o panorama?
Os divórcios crescem no Brasil: em 10 anos, de 2004 a 2014, a taxa de divórcios cresceu mais de 160%, pulando de 130 mil para 341 mil. Há muitas rupturas de famílias que ocorrem à margem das instituições legais. Não temos dados confiáveis sobre o número de separações, mas tudo indica que é muito, muito maior. Há filhos? Com quem ficam?
Em 43% dos divórcios, há filhos menores. E, tomando os divórcios como base, a mulher recebe a guarda de nove em cada dez filhos.
A crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, em interação com o aumento no número de divórcios e separações significou que o número de mulheres que chefiam as famílias aumentou rapidamente. Acarretou, também, um crescimento na percentagem do total de famílias, definidas residencialmente, dirigidas por mulheres. Eram 17% em 1980; 20% em 1990; 27% em 2000 e 35% em 2010.
O crescente número de separações e divórcios, em conjunção com o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho, gerou uma pergunta: quem cuida das crianças? Há soluções institucionais, como creches e escolas. Não é fácil, nem simples. É muito mais do que quatro paredes e colocar um ou mais adultos para tomar conta de um monte de crianças. O capital físico que é colocado entre quatro paredes conta. Tem que ser estimulante e não pode ser perigoso, sujeito a frequentes acidentes. E o capital humano, assim como o capital social, dentro dessas quatro paredes é muito importante. As pessoas que colocarmos dentro das quatro paredes têm que ser muito bem treinadas. O treinamento leva tempo e as pessoas devem ser educadas e treinadas para enfrentar situações difíceis, inclusive emergências. Nessa atividade, o preço de improvisar pode ser muito alto.
Quando falamos em milhões de crianças, o custo é alto, crescente devido à incorporação de áreas previamente excluídas, e permanente porque o fluxo de novas crianças é contínuo.
No Brasil, se tivéssemos recursos e vontade política, precisaríamos de mais de uma década para recuperar o terreno perdido. Com o estado falido, não há luz no fim do túnel.
O que significa que, no Brasil, avôs e avós continuarão a ser demandados, para preencher o vazio deixado pelo estado caro e falido.

GLÁUCIO SOARES

Ver Di Gessa G, Glaser K, Price D, Ribe E, Tinker A. What Drives National Differences in Intensive Grandparental Childcare in Europe? J Gerontol B Psychol Sci Soc Sci. 2016 Jan;71(1): págs. 141-53.
doi: 10.1093/geronb/gbv007. Epub 2015 Mar 16.

Fazer o bem faz bem

Algumas conversas entre velhinhos e, sobretudo, velhinhas são muito interessantes. Parecem competições verbais sobre quem se sacrifica mais por seus netinhos e suas netinhas. Há, claro, críticas, algumas vitriólicas, sobretudo as dirigidas a noras e genros.
Avôs e avós podem contribuir muito e, exageros à parte, não poucos o fazem.
Porém, essas atividades também podem beneficiar os que dão seu tempo, esforço e dinheiro. Beneficiam, também, os que dão e nã, apenas, os que recebem. Burn e Szoeke demonstram que o conjunto de atividades típicas de vovós e vovôs beneficiam cognitivamente outras pessoas, além dos netinhos e das netinhas e de suas mães e pais.

[ Katherine Burn e Cassandra Szoeke, Is grandparenting a form of social engagement that benefits cognition in ageing? Maturitas, Volume 80, Issue 2, February 2015, pags 122-125.
https://doi.org/10.1016/j.maturitas.2014.10.017]

Quem???
…as vovós e os vovôs!
Ajudar na criação, na proteção e na educação dos netinhos e das netinhas pode beneficiar os dedicados vovôs e vovós. Essas atividades podem estimular mecanismos cognitivos que elevam o nível cognitivo dos idosos. Na média, o declínio cognitivo dos vovôs e vovós que participam da vida dos netinhos é mais lento do que o dos demais idosos.
Porém, esse benefício tem limites. Os vovôs e as vovós que exercem essas atividades num nível muito, muito intenso, que não leva em consideração o declínio natural da capacidade física e psicológica que acompanha a idade, sofrem as consequências do exagero.
Ou seja, muito é bom; demais é demais…
Além disso, a dinâmica do exagero é diferente da das tarefas executadas dentro de limites saudáveis. Inclui serviços prestados a outros, particularmente a filhos e filhas negligentes, mas também a pessoas contratadas que executam mal os serviços para os quais foram contratadas. Esse exagero acelera o declínio cognitivo dos prestativos vovôs e vovós.
Mesmo em países nos quais o setor público funciona, há poucos serviços à disposição dos velhinhos que exercem funções secundárias ou suplementares. Velhinhos e velhinhas só têm acesso a esses serviços quando eles são os cuidadores primários das crianças, como nos casos de morte e abandono de pais e mães.
É possível que os benefícios de ajudar na criação e educação de netinhos e netinhos ajude os velhinhos e velhinhas a viver mais. É o que diz Dr. Sonja Hilbrand, da Universidade de Basel, na Suiça. Ela e sua equipe analisaram dados do Berlin Aging Study.
Essa pesquisa analisou perto de quinhentas pessoas que foram entrevistadas entre 1990 e 1993 e foram acompanhadas até 2009.

[ Sonja Hilbrand, David A. Coall, Denis Gerstorf e Ralph Hertwig, Caregiving within and beyond the family is associated with lower mortality for the caregiver: A prospective study. Evolution and Human Behavior, Volume 38, Issue 3, May 2017, pags 397–403.]

Dividiram esses idosos em três grupos: os que tiveram filhos e/ou filhas e netos e/ou netas; os que tiveram filhos e/ou filhas, mas não tiveram netos ou netas e os que não tiveram filhos nem filhas (e, portanto, não tiveram netos nem netas).
A pergunta central dessa análise era:
Na média, quanto tempo viveram os membros de cada um desses três grupos? Avaliaram a sobrevivência a partir da primeira entrevista, até a data da morte.
A dra. Hilbrand sabia que há vários estudos mostrando que fazer o bem…faz bem. Tratar dos outros, ajudar o próximo, faz bem para a saúde.
Mas… será que afasta a morte?
Os resultados sugerem que sim. Metade dos vovôs e vovós que ajudaram na criação dos netinhos e netinhas estava vivinha da Silva dez anos depois da primeira entrevista.
O grupo mais parecido com esse, os que eram avôs e avós, mas não participavam da educação e criação dos netinhos e netinhas, viveu menos: a metade morreu antes de cinco anos.
E os que não tiveram filhos ou filhas? Foram divididos em dois grupos: os que ajudaram amigos ou vizinhos, seja emocionalmente, seja praticamente, e os que não ajudaram ninguém. Também nesses grupos, sem familiares para ajudar, fazer o bem fez bem. A mediana de sobrevivência dos que ajudavam alguém foi de sete anos, ao passo que no caso dos que não ajudaram ninguém foi de apenas quatro anos.
Claro está que há problemas metodológicos que comprometem os resultados. O número de casos é limitado. A possibilidade de endogenia é clara: pessoas com problemas de saúde, doenças cronicas, recursos físicos e financeiros escassos, têm capacidade de ajudar menor e risco de morte maior. Sem um rigoroso controle dessas condições na primeira entrevista, não sabemos se elas já estavam presentes na primeira entrevista.
Não obstante, até que apareçam dados em contrário, continuo afirmando que fazer o bem faz bem e que amar também faz bem.

GLÁUCIO SOARES

O câncer da próstata: testar ou não testar?

Há uns anos, um grupo criado para assessorar o governo Obama sobre os ganhos e as perdas das políticas públicas que financiavam os exames de PSA para detectar cedo os cânceres da próstata. O grupo concluiu que as perdas eram maiores do que os ganhos e aconselhou o governo a descontinuar o financiamento, o que foi feito.

Como acontece frequentemente, a escolha dos membros de um grupo influencia suas conclusões.

1 – No caso, o grupo não tinha entre seus membros um só urólogo, um só biólogo, um só oncólogo especializado em câncer da próstata….

2 – Havia duas pesquisas, uma nos Estados Unidos e outra na Europa, que chegaram a resultados contraditórios. Porém, reanálises estatisticamente mais rigorosas dos dados das duas pesquisas mudaram suas conclusões, deixando clínicos e pacientes num espaço de incertezas;

3 – Pesquisas com uma só medida do PSA não permite calcular o PSADT (doubling time) nem a PSA velocity, que há muitos anos são usados como marcadores importantes que permitem prever se o câncer atingirá alguns marcadores, como a formação de metástases constatáveis, a morte e o tempo até a morte;

4 – Um dos argumentos do grupo era que a generalização do exame de PSA gerou excesso de biópsias, aumentando os custos, o sofrimento e outras consequências negativas. Fazer uma biópsia desnecessária não é um problema do teste de PSA, mas de quem as recomenda e de quem as aceita;

5 – Há uma pesquisa recentíssima que pode alterar essas conclusões, porque tem virtudes importantes:

l Um número grande de observações (20 mil homens);

l Longitudinal (esses homens foram acompanhados por mais de duas décadas);

l Inclui informações sobre os que se negaram a participar na pesquisa e os que a abandonaram; 

l Inclui pacientes e não pacientes;

l A autora é muito qualificada. Maria Franlund, MD, PhD em Urologia na Sahlgrenska Academy, University of Gothenburg, Suécia, e chefe do departamento no hospital da universidade.

A que conclusões chegaram?

Leia você mesmo:

“Após 22 anos de acompanhamento, aproximadamente 1.528 cânceres foram detectados em participantes rastreados, em comparação com 1.124 no grupo controle. No entanto, os cânceres no grupo de triagem foram detectados em um estágio anterior, o que levou a uma redução de 29% nas mortes por câncer de próstata. No total, 112 homens rastreados morreram da doença, em comparação com 158 mortes no grupo controle. ”

Como esperado, mais cânceres foram detectados entre os que foram testados, mas como foram detectados antes, houve menos mortes.

O tempo é uma variável importante. Descobrir o câncer mais tarde, dá a ele mais tempo para crescer e gerar metástases. E matar.

Leia mais:

https://prostatecancernewstoday.com/2019/02/21/psa-testing-cuts-deaths-shows-value-of-long-term-screening/?utm_source=Prostate+Cancer&utm_campaign=70278695e8-RSS_MONDAY_EMAIL_CAMPAIGN&utm_medium=email&utm_term=0_a6d9c27ca8-70278695e8-71303813

Estimule pacientes e seus amigos e parentes a que se informem melhor e consultem um urólogo ou oncólogo.

GLÁUCIO SOARES IESP/UERJ

O TRÂNSITO E AS MORTES EM ISQUEMIAS

Ter tido uma isquemia transiente (TIA) abre os olhos de muitos pacientes. Eu estava sendo internado, e um pequisador em biologia e outro economista, mas com graduação e ávido pesquisador pela internet já estavam fuçando a montanha de dados e pesquisas à disposição. São filhos, são pesquisadores.

Vamos ao que {me} interessa. A TIA aumenta o significativamente risco de um derrame. Entre 10% e 20% dos AVCs são precedidos por uma TIA. Mais do que isso, os momentos iniciais são os mais importantes. Vejam os dados: 11% dos derrames acontecem nos primeiros 90 dias depois da TIA. Se o TIA não for tratado rápida e eficientemente, a coisa fica feia. Metade dos AVCs ocorre nos dois primeiros dias depois do TIA. Não dá para esperar pelo SAMDU nem pela ambulância, nem para ficar escolhendo onde levar. As decisões rápidas salvam vidas. Felizmente, havia uma emergência pertinho daqui e há muitos taxis. A primeira meta-análise que li me ensinou muito. É preciso ser muito rápido. 42% dos derrames que aconteceram nos primeiros 30 dias depois do primeiro TIA aconteceram nas primeiras 24 horas. Mais uma vez, a importância do atendimento rápido.

Considerando o trânsito urbano no Brasil e o baixíssimo nível de cultura cívica dos motoristas, podemos ver que nosso trânsito selvagem não mata gente somente nas colisões e atropelamentos, mas também pacientes à espera de ambulâncias. Vítimas do tráfego caótico.

O planejamento da saúde pública no Brasil, inclusive as medidas para combater o crescente númer de TIAs e AVCs, passa por muitas políticas públicas, inclusive a civilidade no trânsito.

A civilidade e a paz no trânsito salvam muitas vidas. Não é impossível. Políticas públicas semelhantes, como a PAZ no Trânsito, salvaram muitas vidas no Distrito Federal. É possível implementar políticas semelhantes em muitas outras áreas, que salvarão muitas vidas, inclusive de cidadãos que, neste momento, estão insupeitamente conversando, vendo a TV, dormindo em suas residências ou lendo este artigo na internet.

GLÁUCIO SOARES IESP-UERJ